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Entrevista: Diversidade, oportunidade de agregar valor e gerar respeito


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Por Karen Pegorari Silveira

Uma equipe diversa coloca a empresa em contato com tudo aquilo que ela necessita para se aprimorar e tornar mais competitiva sua estratégia de atuação no mundo.

Organizações inclusivas distribuem oportunidades com equidade, oferecem condições de desenvolvimento para todos, reconhecem as pessoas e têm apreço pela diversidade a ponto de considerá-la em suas escolhas e na tomada de decisões em relação a todos os seus públicos e atividades.

Essas são apenas duas das reflexões do nosso entrevistado do mês: Reinaldo Bulgarelli – coordenador acadêmico dos cursos de responsabilidade social na Fundação Getúlio Vargas, autor do livro Diversos Somos Todos – sobre valorização, promoção e gestão da diversidade nas organizações e sócio diretor da Txai, empresa de consultoria na área de sustentabilidade com forte atuação no tema da valorização da diversidade.

Leia na íntegra a entrevista:

Por que a diversidade é cada vez mais importante para as empresas?

Reinaldo Bulgarelli – As empresas no Brasil estão diante de uma demanda crescente do movimento social e das políticas públicas para promover os direitos humanos na gestão empresarial. Por outro lado, já temos uma relevante comunidade de empresas no país que enxerga a diversidade como fonte de adição de valor. Assim, estamos falando de interesses legítimos da sociedade e também do negócio.

Como ética e diversidade estão relacionadas?

Reinaldo Bulgarelli – De muitas maneiras. Uma delas está relacionada à não discriminação, ou a manter o foco no mérito e não em atributos estéticos, cor de pele, gênero, deficiência, idade, orientação sexual ou identidade de gênero, por exemplo. Não é correto discriminar, tornar a vida das pessoas mais difícil por meio de humilhações, assédios ou exclusões de todo tipo. O apreço pela diversidade, por sua vez, fortalece a conduta ética das empresas.

Quais as principais características de uma equipe diversa?

Reinaldo Bulgarelli – Há dados da demografia interna que podem atender às demandas que eu citei acima: um número maior de mulheres, negros, pessoas de diferentes idades e assim por diante. Mas a característica principal que deve vir junto com equipes demograficamente diversas é das equipes que interagem, dialogam, colaboram umas com as outras em torno da missão, visão, valores e estratégias de negócio da empresa. Um ambiente efetivamente diverso tem por base o respeito, a abertura, o interesse genuíno pelos aprendizados que essa diversidade traz consigo.

Quais os ganhos que fomentar a diversidade traz?

Reinaldo Bulgarelli – Uma maior conexão com a realidade na qual a empresa opera seus negócios, com as tendências, desafios e possibilidades apresentados pelo tempo e lugar no qual nos encontramos. Rejeitar uma pessoa significa excluir uma possibilidade, uma oportunidade de colocar a empresa em contato com tudo aquilo que ela necessita para aprimorar e tornar mais competitiva sua estratégia de atuação no mundo real. Há impactos no clima, evidentemente, porque respeito e interações criativas tornam a vida das pessoas melhores, mais interessantes e com maior cuidado com o bem-estar. Produtividade, redução de acidentes, aprimoramento de processos, redução das faltas, enfim, são muitas as vantagens do ponto de vista da gestão de pessoas, mas também na gestão de produtos, atendimento, serviços, suporte a clientes, relação com fornecedores e outros públicos.

Como a empresa pode incentivar a diversidade?

Reinaldo Bulgarelli – Monitorar seus dados da demografia é uma forma de dar visibilidade ao tema, encontrar barreiras à sua promessa de ser um ambiente focado no mérito das pessoas, comprometida com resultados. Se encontramos, como acontece em muitas empresas, um grupo reduzido de mulheres em todos os postos, incluindo a alta liderança, podemos colocar a culpa na sociedade, na história, mas é mais interessante para o sucesso nos negócios agir efetivamente para barrar ideologias, como o machismo e o racismo, que impactam negativamente a empresa. Mais do que isso, é importante assumir que diversidade adiciona valor e por isso agir até mesmo contrariando uma comunidade machista, por exemplo. Ou seja, não ser indiferente ao tema, não naturalizar a ausência ou tratamento desrespeitoso a alguns segmentos da população já é um passo essencial.

Qual sua opinião sobre as políticas públicas que estabelecem cotas nas empresas?

Reinaldo Bulgarelli – Elas existem, no caso das pessoas com deficiência e dos aprendizes (garantia do primeiro emprego) porque o mercado de trabalho se fechou a estes segmentos, como acontece com muitos outros. Na inércia, o Estado age em consonância com a normativa internacional de direitos humanos e aqueles interesses legítimos da sociedade que citei. Eu não trabalho com cotas nas empresas, ou seja, faço de tudo para que possamos, no ambiente interno, melhorar o desempenho da empresa com a diversidade sem a imposição voluntária de cotas. Se no âmbito da sociedade elas são importantes para garantir avanços após séculos de inércia, no âmbito interno podemos fazer muito mais para mudar com velocidade e qualidade estes aspectos da demografia, do clima e até da cultura da empresa.

Como o tema da diversidade tem avançado no Brasil?!

Reinaldo Bulgarelli – Eu vejo que os espaços de articulação das empresas, como fóruns, grupos de trabalho e outros criados voluntariamente, tem sido uma boa fonte de aprendizado e de garantir avanços no tema. Eu mesmo criei vários destes fóruns ao longo dos últimos dezesseis anos que trabalho com o tema no Brasil e entendi que há temas que precisam ser trabalhados internamente, mas também por meio da colaboração intensa entre as empresas. Estamos avançando sim e o tema tem demonstrado sua capacidade de adição de valor e de tornar as empresas mais competitivas, exatamente porque estão fazendo a coisa certa, do ponto de vista da ética e das demandas da sociedade moderna.