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ENTREVISTA: PRIMEIRA INFÂNCIA NA PRÁTICA


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Por Karen Pegorari Silveira

Conversamos com a diretora executiva da United Way Brasil, Gabriella Bighetti, para entender como a causa da primeira infância pode ser apoiada na prática pelas empresas.

Para ela, existem muitas ações que beneficiam as famílias para que possam cuidar melhor de suas crianças.

Leia Mais na Íntegra da Entrevista:

Por que a primeira infância é uma causa que pode ser adotada por todas as empresas, independentemente do setor e do porte?

Gabriella Bighetti – Porque é uma causa que envolve todo mundo. Não existe uma pessoa sequer que nunca tenha se relacionado com uma criança, mesmo que indiretamente. É uma causa que mobiliza, junta forças, emociona, ou seja, é catalisadora de atitudes e comportamentos focados no presente para escrever um novo futuro. Tem visibilidade e relevância dentro e fora da empresa. Para além disso, ações que promovam uma primeira infância melhor são, geralmente, focadas nas famílias. Portanto, ao trabalhar a causa, a empresa vai impactar colaboradores mães, pais, avós, avôs com benefícios diversos, dos mais simples aos mais complexos, pensados de acordo com os propósitos da corporação e no que ela pode mobilizar para implementá-los, não só com recursos, mas com equipes e articulações necessárias para desenhar suas políticas.

Quais são os benefícios tangíveis e intangíveis de escolher a primeira infância como causa?

Gabriella Bighetti – Existem vários benefícios para as empresas que adotam essa causa, mas vou citar os que considero centrais, com resultados de longo, médio e curto prazo. A ciência comprova que os seis primeiros anos de vida, incluindo a fase da gestação, são cruciais para a formação das sinapses do cérebro, que, nessa etapa, faz um milhão de conexões por segundo. Na primeira infância, a personalidade do indivíduo é formada, o que vai influenciar sua juventude e vida adulta. Então, se a criança vivencia uma primeira infância saudável em todos os aspectos, ela será um cidadão, profissional e ser humano melhores e irá contribuir para o fomento de uma sociedade mais justa e sustentável para todos. Índices sociais, relacionados à violência, à baixa escolaridade, às doenças, à mortalidade infantil, por exemplo, são impactados quando se investe na criança, caindo consideravelmente, o que contribui à diminuição das desigualdades sociais. James Hackman, prêmio Nobel de 2020, sempre reforça em suas falas o quanto investir na primeira infância traz diferentes retornos, inclusive econômicos. Segundo estudos que divulgou, cada dólar investido em uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. Esses são alguns dos motivos intangíveis, de longo prazo, mas tão urgentes para a sobrevivência da humanidade.

No que diz respeito ao tangível, de médio e curto prazo, políticas internas que contemplem ações intencionais para promover o pleno desenvolvimento infantil fortalecem especialmente as mães, mas também pais, avós e avôs. Esses colaboradores, contando com uma rede de apoio para criar suas crianças, sentem-se mais seguros. A produtividade das equipes cresce, caem os pedidos de demissão, as ausências por doenças e o não retorno das mães pós licença-maternidade, por exemplo, assim como estimula a ascensão das mulheres na empresa, que passam a não ter mais medo de abandonar planos de estudos e de desenvolvimento profissional por serem mães. A marca se fortalece tanto na esquipe como junto ao público-alvo da corporação. A comunidade do entorno se desenvolve, porque investir na primeira infância só traz prosperidade e benefícios perenes às pessoas e aos territórios.

Quais são os maiores desafios e soluções da integração da primeira infância na estratégia empresarial?

Gabriella Bighetti – Talvez o primeiro desafio seja o de definir políticas internas relacionadas aos propósitos da empresa. A partir daí, é essencial que todo o ecossistema da corporação esteja consciente sobre a importância da causa e mobilizado em torno da primeira infância, caso contrário, qualquer ação acabará se tornando um projeto de RH que tende a fracassar com o tempo, por falta de adesão. Por isso, acredito que antes de qualquer coisa é imprescindível ouvir as pessoas. Saber o que pensam sobre primeira infância e de que precisam para cuidar melhor de suas crianças. Políticas verticais dificilmente são bem-sucedidas. Por isso, fazer a escuta das equipes, dos conselhos, da direção e, até mesmo, dos fornecedores é essencial antes de se tomar qualquer decisão sobre o que fazer pela primeira infância.

Vale ressaltar que a empresa não está sozinha nessa empreitada. Ela pode pedir apoio a organizações que atuem com a causa e que podem ajudá-la a traçar suas políticas. Não é preciso inventar a roda. Tem muita coisa bacana sendo feita e inspirar-se em outras experiências é um bom começo.

Quais as práticas mais simples em favor da primeira infância que uma empresa pode adotar?

Gabriella Bighetti – Existem muitas ações que beneficiam as famílias para que possam cuidar melhor de suas crianças. Um monitoramento que fizemos em 2020, em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, coletou mais de 630 iniciativas corporativas voltadas aos primeiros anos de vida. Em breve, vamos disponibilizar esse mapeamento em uma plataforma para que as empresas possam não só conhecer os diferentes caminhos de promoção da primeira infância como, também, compartilhar as práticas que já realizam pela causa.

Para começar, sugiro cinco ações: implementar horário flexível para que pais e cuidadores possam estar com suas crianças em momentos essenciais; salas de amamentação e de armazenamento do leite materno; palestras de orientação para mães e pais sobre a chegada do bebê; auxílio-creche ou manter berçário ou creche na empresa; e licenças-maternidade e paternidade estendidas. Não faltam ideias, mas é preciso avançar para que a adesão à causa seja maior. Em 2019, apenas 13% das empresas certificadas pelo Great Place to Work (GPTW) Brasil afirmaram ter implementado alguma prática de atenção à primeira infância. Um índice quase que insignificante diante do que essa fase da vida representa para o presente e o futuro de toda a sociedade