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Entrevista: Tecnologia aliada à saúde do trabalhador


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Por Karen Pegorari Silveira

Conversamos com Ana Carolina Peuker, psicóloga e pesquisadora com Pós Doutorado em Psicologia e Psicologia da Saúde, para entender como a tecnologia pode ser aliada das empresas na busca por melhorias na saúde ocupacional e mitigação de riscos.

Ana Carolina, que é fundadora de uma startup do segmento da saúde ou healthtech – a Bee Touch, defende que a tecnologia pode potencializar a qualidade da assistência em saúde oferecida aos colaboradores e contribuir para reduzir custos, além de otimizar recursos.

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Atualmente o Brasil conta com mais de 700 healthtechs, como são chamadas as startups voltadas para a solução de problemas no setor da saúde. Poderia explicar o que faz uma healthtech?
Ana Carolina Peuker – As chamadas healthtechs são startups do segmento da saúde. O nome em inglês alude à junção das palavras “saúde” + “tecnologia”. A lógica central destas empresas é empregar tecnologia e dados para oferecer soluções no campo da saúde. O espectro de possibilidades destas soluções é amplo, podendo ir desde o monitoramento do estilo de vida, através de aplicativos para dieta saudável, wearables para prática de atividades físicas, controle por meio de software de doenças crônicas, até o tratamento e monitoramento remoto, por meio de teleconsultas. Essas empresas agregam uma visão “disruptiva” ao setor, pois extinguem padrões antigos de como intervir em saúde. Por exemplo, é o caso das análises preditivas para a prevenir doenças. A partir dos dados, é possível identificar padrões, tendências e perfis dos pacientes, predizendo riscos para doenças. Assim, é possível trabalhar numa perspectiva menos reativa, buscando mitigar riscos, ao contrário do modelo vigente em saúde, hegemonicamente centrado na doença e ultra reativo, que busca “combater” os agravos somente quando eles aparecem. São muitas as inovações neste campo como: Big Data, IA (Inteligência Artificial), reconhecimento de  imagens, face e voz, monitoramento por sensores (dispositivos vestíveis, como roupas, pulseiras e relógios) para captura de dados, realidade virtual, robótica para aplicação em intervenções cirúrgicas e outros procedimentos invasivos,  nanotecnologia, que com o uso de nanopartículas oferece a possibilidade de combater e erradicar doenças e teleconsultas (médicas e psicológicas), que diminuem custos, otimizam tempo e facilitam o acesso.

A crise sanitária que estamos vivenciando jogou holofotes para a área da saúde e mais do que nunca para a falta de tecnologias que apoiem o setor. Como essas startups pretendem ajudar a eliminar os principais desafios na área da saúde?

Ana Carolina Peuker – Sem dúvidas a crise pandêmica acarretou um crescimento expressivo das demandas em saúde, revelando as fragilidades do sistema sanitário, mas acima de tudo, trazendo muitas oportunidades. Os efeitos da pandemia podem ser divididos em quatro ondas. A primeira onda se refere à sobrecarga do sistema de saúde em todo o mundo que tiveram que se adaptar emergencialmente para o cuidado dos pacientes graves afetados pela Covid-19. A segunda onda, refere-se à escassez de recursos na área de saúde para o cuidado das demais condições clínicas agudas, devido ao realocamento da verba para o enfrentamento da crise pandêmica. A terceira onda trata-se da interrupção nos cuidados de saúde de várias doenças crônicas. E, por fim, a quarta onda abrange a maior prevalência de transtornos mentais e do trauma psicológico decorrente da infecção ou por seus impactos secundários.

As healthttechs potencializam a qualidade da assistência em saúde. Elas auxiliam na escolha de tratamentos, tornam os diagnósticos mais acurados, ajudam na análise de exames, na redução de falhas humanas, além do uso inteligente de dados e indicadores de saúde nas empresas. Tudo isso contribui para redução de custos, bem como para a gestão eficiente e otimização de recursos. Com relação aos recursos humanos das empresas, depois da folha de pagamento e seus tributos, a saúde representa o maior custo. Apesar disso, em muitas delas, essa gestão se dá de maneira intuitiva, sem estar fundamentada em dados, o que é fundamental nos dias de hoje para evitar desperdícios. Em um cenário de saúde complexo, como o da crise que estamos atravessando, os gestores precisam atuar com base em dados, para tomarem decisões custo efetivas. As startups de saúde fortalecem a eficiência organizacional e aumentam a competividade das empresas. A prevenção também é uma grande tendência em saúde. As empresas que adotarem soluções tecnológicas alinhadas com essa perspectiva – como por exemplo, o uso de dados para prevenir e predizer doenças, terão vantagem, beneficiando as pessoas e os negócios.

É comum vermos notícias destacando o caráter discriminatório dos algoritmos, principalmente com relação à diversidade, pluralidade e igualdade. Na sua opinião, como isso pode impactar os critérios adotados pelas healthtechs na definição dos seus programas e abordagens?

Ana Carolina Peuker – De fato, há essa discussão sobre o potencial discriminatório dos algoritmos. Neste caso, sempre temos que ter em mente três elementos inter-relacionados e que são a fonte dos temidos “vieses”: os dados, os algoritmos e os seres humanos. Em última instância, os três dizem respeito às pessoas, porque são elas que desenvolvem os sistemas de inteligência de máquinas e selecionam os dados que serão treinados. Por isso, para coibir escolhas preconceituosas e reduzi-las, é necessário compreender em profundidade os valores que podem estar por trás destas definições algorítmicas.  A cada etapa de desenvolvimento é essencial buscar potenciais vieses e contar com a curadoria de especialistas externos. No fundo, isso tudo se resume a empregar metodologias robustas para criar modelos, incluindo um aprimoramento contínuo. Sem isso, há muita chance de reproduzir e perpetuar preconceitos e raciocínios tendenciosos. Grandes empresas têm criado mecanismos que visam evitar este tipo de viés no output dos algoritmos. Outro ponto importante é a qualificação do dado. O grande segredo é o treinamento do modelo de forma que ele não leve em conta este tipo de viés. Importante salientar, é claro, que quando falamos de IA (inteligência artificial) falamos de algoritmos autônomos, que tomam decisões de forma independente. Desta forma, o constante monitoramento das decisões e a geração de feedback para o algoritmo é essencial.

Como as empresas podem se beneficiar direta ou indiretamente dos serviços das healthtechs?

Ana Carolina Peuker – Não há dúvidas de que o desenvolvimento de soluções tecnológicas será uma das estratégias para gerar melhores resultados para a saúde, tanto em um nível individual, quanto nos setores públicos e privados. Hoje, já existem soluções oferecidas pelas healthtechs capazes de coletar, consolidar e cruzar dados com rapidez, reconhecendo os padrões epidemiológicos de forma mais eficiente, contribuindo para a precisão e celeridade diagnóstica, por exemplo.

O mercado mundial de saúde digital foi avaliado em quase US$ 100 bilhões, no ano de 2020. Estima-se que ele se expanda ainda mais, em torno de 15,1% entre os anos de 2021 e 2028, segundo o report da Grand View Research. Em nosso país já são mais de 700 healthtechs que captaram US$ 106 milhões em investimentos em 2020, conforme a Distrito. Essas empresas, em sua maioria, atuam na Gestão e Prontuários Eletrônicos (25%); acesso à Informação (16,7%); marketplace (12,6%); telemedicina (11,8%); farmacêuticas e diagnóstico (10%).

Você acredita que a transformação digital pode caminhar de mãos dadas com a atenção e cuidado humanizados? Como?

Ana Carolina Peuker – Com certeza. Toda a transformação digital só terá sucesso se o ser humano estiver no centro destes novos desenvolvimentos. O ano de 2020 foi marcado por muitos desafios, entre eles muitas pessoas e organizações foram submetidas a altos níveis de estresse ao lidar com as demandas da vida profissional e pessoal em um contexto de ameaça e incerteza. Esse cenário revelou a necessidade de uma estrutura formal em torno da gestão da saúde mental e psicológica no local de trabalho.

Seja qual for o seguimento econômico, as pessoas são a base de qualquer organização: sem os colaboradores, nada é realizado. Sem seus parceiros na cadeia de suprimentos, as coisas não acontecem. Sem seus clientes, simplesmente não há negócios. Com a pandemia da COVID-19, as empresas foram forçadas a redefinirem suas estratégias e passassem a priorizar uma abordagem centrada no ser humano. Em virtude disso, emergiu a necessidade de padrões internacionais que pudessem balizar as boas práticas em saúde e segurança ocupacional incluindo as demandas de saúde mental, antes negligenciadas. Diante disso, foi desenvolvida a nova ISO 45003, que privilegia uma abordagem voltada para as pessoas. Muitas corporações têm buscado compreender mais as ideais, pontos de vista e preocupações dos trabalhadores. Também houve uma maior conscientização sobre a saúde psicológica e o impacto que a pandemia teve e ainda está tendo.

A saúde psicológica e o bem-estar sempre foram uma questão importante no local de trabalho, com estresse, síndrome de Burnout, ansiedade e depressão custando grandes cifras à economia global e resultando em altos níveis de afastamentos por doença por longos períodos e aposentadorias precoces. É uma área de gestão de S&SO para a qual muitas organizações se sentem inadequadamente equipadas para lidar, e muitas vezes tem sido tratada de forma superficial, reativa ou completamente ignorada. Se a empresa não tiver uma noção de “sustentabilidade emocional” nenhum investimento em tecnologia e saúde se justifica.

Pode dar exemplos de casos de sucesso entre healthtechs e a indústria brasileira? 

Ana Carolina Peuker – A tecnologia pode ser uma grande aliada na regulação e compliance, fazendo uma gestão dos custos e recursos de forma mais eficiente. Além disso, pode contribuir na gestão dos fatores psicossociais do trabalho, pois permite diagnosticar, rastrear e predizer digitalmente os riscos psicológicos – de forma mais ágil e precisa. Através de software, pode-se identificar aqueles que estão potencialmente ameaçados, conscientizar gestores e trabalhadores dos riscos psicossociais e dos sinais de alerta precoces, estabelecer as prioridades, determinar os riscos que suscitam maior preocupação e requerem atenção prioritária e, por fim, estabelecer um plano de medidas preventivas para evitar que ocorram riscos psicossociais. A gestão efetiva dos riscos psicossociais traz muitas oportunidades de melhoria e redução de custos para indústria, através da prevenção e redução de acidentes, do absenteísmo, do presenteísmo e da sinistralidade, por exemplo.

O momento de crise que temos vivenciado requer que os gestores pensem em planos de ação emergenciais, que possam ir além daqueles que incluem a gestão de riscos identificáveis a “olho nu” como físicos, químicos e biológicos. A avaliação de risco psicológico, que é geralmente “invisível”, deve ser parte integrante de um bom plano de gestão de saúde e de segurança ocupacional. Esses planos auxiliam a criar consciência dos fatores de riscos e as potenciais consequências, identificar quem pode estar em risco, determinar se as medidas de controle existentes são adequadas ou se algo mais deve ser feito, prevenir outras doenças e a hierarquizar, priorizar riscos e definir medidas de controle. O objetivo do processo de avaliação de riscos é remover um perigo ou reduzir o seu nível de risco pela adição de precauções ou medidas de controle efetivas. Ao fazer isso, poderá ser – de fato – implementado um ambiente de trabalho psicossocial seguro.