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Entrevista: Impactos Sociais da Pandemia de Covid-19


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Por Karen Pegorari Silveira

Conversamos com a diretora de Responsabilidade Social da Fiesp e do Ciesp para conhecer os impactos sociais da pandemia de Coronavírus no Brasil, e como essas questões se relacionam intimamente com os impactos econômicos e ambientais.

Para ela, as questões são complexas, mas todos (indivíduos e empresas) podem aproveitar as oportunidades de aprendizado da pandemia.

Veja a entrevista completa:

Estudos apontam que a pandemia de Covid-19 não só repercutiu em questões biomédicas e epidemiológicas em escala global, mas também em dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais sem precedentes na história recente das epidemias. Existe, em sua opinião, uma área mais impactada? Por quê?

Grácia Fragalá – É difícil avaliar completamente os impactos dessa pandemia sobre a vida das pessoas e da sociedade. Não conseguimos mensurar todas as dimensões da vida afetadas por uma mudança tão drástica nos relacionamentos, no trabalho, na economia e nas famílias que perderam seus entes queridos. Creio que ainda será necessário um tempo para que tenhamos uma melhor compreensão da extensão desses impactos.  Mas quando pensamos com as referências que você coloca, a partir dos critérios de desenvolvimento sustentável, entendemos que para que possamos retomar a vida precisamos olhar com atenção para os vários aspectos: econômico, social e ambiental, já que elas são interdependentes.

Do ponto de vista da nossa atuação como área de responsabilidade social, o foco vai ser na questão social, que no caso brasileiro, traz um desafio adicional em função da desigualdade social, que revela a precariedade das condições de vida das populações mais vulneráveis.

A pandemia tem revelado também um aumento importante da desigualdade social no mundo. Um relatório recente da Oxfam estima que a crise econômica provocada pela pandemia do coronavírus vai empurrar meio bilhão de pessoas para a pobreza nos próximos anos. O Brasil tem cerca de 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada e cerca de 12 milhões de desempregados. Estima-se que essa crise adicione, ao menos, mais 2,5 milhões de pessoas entre os desempregados, segundo analistas do mesmo relatório. Estima-se ainda que a saúde e o acesso a saúde piorem e tenham efeito devastador no Brasil, além da falta de acesso à educação, aumento da violência doméstica contra mulheres – um dos grupos mais vulneráveis – e risco de diminuição dos seus rendimentos, acesso desigual ao saneamento básico, menor renda salarial, além de diversas outras questões.

Os impactos citados pela senhora dizem respeito somente à sociedade ou diz respeito também ao mercado empresarial?

Grácia Fragalá – As empresas são parte da sociedade. O que afeta a sociedade (desemprego, redução da renda) atinge as empresas pela redução do consumo. Por isso entendemos que é falso o dilema que se tentou colocar entre salvar vidas ou salvar empregos – são coisas inseparáveis. Socorrer as empresas e manter empregos é tão importante como atender às necessidades das famílias. O auxílio emergencial teve importante papel não apenas no atendimento às necessidades básicas das famílias como na redução do impacto sobre a atividade econômica, que teria sido ainda mais significativo.

As empresas estão ocupadas em se manter em funcionamento, garantir empregos, em pagar seus fornecedores e colaboradores, pois entendem que os impactos sociais dizem respeito a todos nós, uma vez que não há empresa sem capital humano saudável e produtivo.

Os esforços para enfrentar esse momento de exceção compreendem a utilização das medidas autorizadas pelo Governo que permitiram antecipação de férias,  flexibilização das rotinas  e jornada de trabalho, e outras iniciativas com o suporte de tecnologias, com parâmetros de trabalho não presencial e à distância; pode oferecer um sistema de monitoramento de saúde dos funcionários com confidencialidade; pode primar por ambientes de trabalho seguros e saudáveis, limpando e desinfetando com rigor os locais de trabalho; além de avaliar caso a caso os colaboradores que podem realizar seus trabalhos de forma remota. Algumas empresas estão se preparando para restabelecer o funcionamento e dão algumas ideias, como: agendar dia de trabalho com o RH para que a empresa tenha menos que 25% de ocupação; revezamento de equipes; horários flexíveis, entre outras iniciativas.

Então a senhora acredita que o trabalho remoto pode ser um caminho para o futuro do trabalho e das empresas no pós-pandemia? Quais são suas considerações a respeito do home office?

Grácia Fragalá – Esta é uma questão que merece reflexão. A pandemia obrigou que o trabalho migrasse para as casas das pessoas em poucos dias, fazendo com que uma situação discutida por longos anos pelas equipes de Recursos Humanos e que contava com mais opositores do que defensores, se tornasse realidade de forma quase imediata para a grande maioria das empresas que precisava continuar realizando suas atividades.  Mas, home office é para todos? Podemos afirmar que todas as pessoas se beneficiam do teletrabalho em domicílio? Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2019, 85% da população pobre no Brasil acessa a internet pelo celular. Isso traz enormes limitações para que essa parcela da população aproveite as possibilidades do mundo digital – inclusive o trabalho de qualquer lugar. A necessidade de treinar os milhões de brasileiros digitalmente excluídos, bem como de realizar trabalho em um ambiente onde nem sempre é possível ter espaço, mobiliário ou recursos tecnológicos adequados exige mais esforço e dedicação para se produzir o mesmo resultado, gerando desgastes.

Sempre gostei de olhar para os ambientes de trabalho como espaços propícios ao desenvolvimento humano e social: na multiplicidade de relações humanas havia a possibilidade do encontro entre os diferentes, seja pela diferentes origens sociais e culturais, seja pela diversidade étnica, etária ou de formação e a interação e convivência permitia a mimetização, o aprendizado, a busca pelo crescimento, a empatia.

Se não tivermos atenção e cuidado, corremos o risco de, ao adotar praticas de teletrabalho, aprofundar as desigualdades sociais já tão agravadas por essa crise e de enfrentarmos a existência de “ilhas de excelência” em um mar de gente alijada do mercado de trabalho ou em atividades precárias, sem proteção social e marcando um retrocesso nas conquistas pela inclusão dos mais vulneráveis.

A senhora citou as mulheres como um dos grupos sociais mais impactados pela pandemia do coronavírus. Por que?

Grácia Fragalá – Posso citar 2 dos vários fatores de risco que colocam as mulheres no grupo de ‘mais vulneráveis’ durante a pandemia: elas são 70% de todos os profissionais da saúde no mundo e estão em isolamento com seus agressores – o que tem aumentado drasticamente o feminicídio no mundo. Essas duas questões são, por si só, o suficiente para colocá-las em posição de ‘mais afetadas’.

Além disso, segundo dados da ONU Mulheres, 38 milhões de pessoas no Brasil estão abaixo da linha pobreza; dessas, pelo menos 27,2 milhões são mulheres (IBGE); 41,% de todas as mulheres ocupadas no Brasil estão no setor informal; considerando somente trabalhadoras negras e pardas, a taxa de informalidade sobe para 47,8%; mais de 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres; 70% delas não têm carteira assinada (IBGE); 85% de cuidadores de idosos são profissionais mulheres (extinto Ministério do Trabalho); enquanto mulheres realizam 21,7 horas semanais de trabalho não remunerado, os homens desempenham apenas 11 horas na semana​ (IBGE); 31,8 milhões de famílias do país (45,3% do total) são chefiadas por mulheres (Ipea); 85% de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem no Brasil são mulheres, o que equivale a 1,9 milhão de profissionais (Dados Cofen); 45,6% dos médicos no país são mulheres, o equivalente a 223,6 mil mulheres (Dados Cofen); 56% dos idosos no Brasil são mulheres (IBGE).

Os impactos sociais e econômicos também se estenderam para outros grupos sociais? Quais?

Grácia Fragalá – Sim, a população negra e as pessoas com deficiência. As pessoas negras são mais colocadas no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar o serviço de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em prontos-socorros e serviços de saúde periféricos, com maior tempo de espera para a uma UTI, por exemplo, além desses serviços serem de qualidade inferior.

As pessoas com deficiência, segundo a ONU, são aquelas que já enfrentavam exclusão do mercado de trabalho antes da crise e agora têm mais chances de perder o emprego.  Também terão mais dificuldades de retornar ao trabalho e, principalmente mulheres e meninas – enfrentam um risco maior de violência doméstica, que aumentou durante a pandemia.

De todos esses impactos sociais citados pela senhora, qual a lição que podemos tirar? Quais suas considerações?

Grácia Fragalá – Redução das desigualdades sociais, diversidade, equidade e inclusão sempre foram tópicos importantes com implicações críticas para pessoas, empresas e comunidades, mas a pandemia está lançando uma nova luz sobre essas questões. A mudança em nossa experiência e as novas perspectivas proporcionam a oportunidade de aprendizado e aprimoramento na maneira como garantimos a equidade e a inclusão de todos e todas. As questões são complexas, mas indivíduos e empresas podem aproveitar as oportunidades de aprendizado da pandemia. Não voltaremos a nos relacionar e a fazer negócios como antes, mas podemos sair dessa pandemia mais fortes, e o convite é para que saiamos também “mais verdes, mais íntegros e mais inclusivos”.