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Entrevista: Moda Sustentável e a Cadeia de Valor


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Por Karen Pegorari Silveira

O Instituto C&A tem sido uma das principais organizações a apoiar uma maior transparência na indústria do vestuário. Desde 2015 seus esforços têm sido investidos na busca por uma indústria da moda mais justa e sustentável, em que todas as trabalhadoras e trabalhadores possam prosperar e ter vidas mais dignas e justas. 

Nesta entrevista a diretora-executiva do Instituto C&A, Giuliana Ortega, conta mais sobre o trabalho desenvolvido pela organização.

Leia na íntegra:

Quais são os principais desafios de Responsabilidade Social enfrentados pela cadeia da moda?

Giuliana Ortega – Acredito que são muitos os desafios do setor da moda. Dentre eles, a busca por maior transparência na cadeia de fornecimento, já que lidamos com uma grande pulverização de micro e pequenas oficinas, muitas delas ainda na informalidade. Além disso, outro importante desafio está relacionado à questão de gênero. Hoje, de acordo com a Abit,75% da força de trabalho do setor é composta por mulheres. Para transformar a moda em uma força para o bem, é preciso não só enfrentar a desigualdade de gênero e combater a violência contra as mulheres, como também promover a voz, liderança e capacidade feminina. 

Agora, se olharmos para as matérias-primas, outro desafio é o incentivo à produção de algodão sustentável, que demanda uma mudança na forma de combate às pragas, no plantio e na colheita. O cultivo do algodão convencional demanda um intensivo emprego de água, defensivos agrícolas e fertilizantes e tais práticas prejudicam não só a saúde dos agricultores, como também agridem o meio ambiente. 

Quais destes desafios o Instituto C&A elegeu como urgente?

Giuliana Ortega – Entendemos que todos têm a sua importância. Por isso, acreditamos que é preciso desenvolver um trabalho em conjunto com atores do setor, como marcas, organizações sociais e inovadores. Pensando nisso, nossas ações são estruturadas em quatro programas. São eles: incentivo ao algodão sustentável; direitos humanos e trabalho; moda circular; e fortalecimento de comunidades.

Como este tema é trabalhado pelo Instituto? Quais ações desenvolvidas?

Giuliana Ortega – O Instituto C&A está em busca de uma indústria da moda mais justa e sustentável, em que todas as trabalhadoras e trabalhadores possam prosperar e ter vidas mais dignas e justas. Pensando nisso, oferecemos apoio técnico e financeiro, trabalhamos em rede e fortalecemos nossos parceiros. As ações do Instituto concentram-se em quatro frentes de trabalho: 

(1) Incentivo ao algodão sustentável: trabalhamos para que pequenos agricultores e comunidades agrícolas prosperem e tenham vidas mais dignas e justas, além de contribuir para a conservação do meio ambiente; 

(2) Moda circular: incentivamos a transição para a economia circular na moda, fomentando e dando escala a soluções inovadoras; 

(3) Direitos Humanos e Trabalho: buscamos uma cadeia de fornecimento mais transparente, em que os trabalhadores e trabalhadoras da indústria da moda tenham condições de trabalho dignas e exerçam sua voz. Além disto, atuamos para a erradicação do trabalho escravo e infantil; 

(4) Fortalecimento de comunidades: apoiamos a construção de comunidades resilientes em regiões onde a cadeia da moda tem uma presença relevante, promovendo a participação de voluntários da C&A em ações comunitárias e em ações de prevenção de ajuda humanitária.

Quais os resultados obtidos até o momento?

Giuliana Ortega – Desde 2015, quando passamos a atuar globalmente direcionados para a transformação da indústria da moda, já investimos 120 milhões de euros e beneficiamos 200 mil pessoas globalmente. Temos visto também um crescimento do interesse do setor por um modelo mais sustentável de atuação. 

Na sua opinião, quais serão os principais desafios que a cadeia da moda enfrentará nos próximos anos e como as empresas brasileiras precisam se preparar? 

Giuliana Ortega – Certamente, a questão da transparência veio para ficar. As empresas terão que se adaptar e estar muito mais abertas a abrir informações sobre sua cadeia de fornecimento, sobre as condições de trabalho das fábricas e as ações que estão tomando para melhorá-las.

Também acredito que as questões ambientais devem estar cada vez mais no radar das grandes empresas do setor. O incentivo ao algodão mais sustentável, a busca por matérias-primas de menor impacto ambiental, o uso mais eficiente da água, a gestão dos resíduos e a eliminação de químicos perigosos nos processos produtivos são alguns dos exemplos.

Finalmente, vejo uma grande oportunidade de desenvolvimento da moda circular no país. Ela abre um convite às empresas para que repensem os seus produtos, buscando materiais mais sustentáveis e processos de produção inovadores, que aliem tecnologia a sustentabilidade. A economia circular também abre espaços para que as empresas testem novos modelos de negócios, que podem ser tão ou mais lucrativos que os modelos vigentes.