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Entrevista: Crise hídrica e o papel da indústria


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Por Karen Pegorari Silveira

A crise hídrica na maior cidade do Brasil não foi causada apenas pela falta de chuvas. Alguns fatores influenciaram drasticamente, como o número de habitantes que cresceu significativamente. Só na capital, em aproximadamente 50 anos, o número pulou de 4,8 milhões para 11,8 milhões de habitantes. Considerando a região metropolitana, chegamos a 22 milhões de habitantes, é a área de maior concentração populacional do país. Com isso, veio a urbanização, que trouxe consigo a poluição dos rios e a verticalização, impermeabilização do solo, a sobrecarga do sistema de abastecimento e coleta e a dificuldade do acesso à água potável. A falta de planejamento é mencionada como um dos principais fatores agravantes desta crise. O Ministério das Cidades, órgão oficial criado para transformar as cidades em espaços mais humanizados, aponta ainda a falta de reparos e obras para acompanhar esse crescimento e o desperdício de mais de 30% de toda a água tratada pela companhia de saneamento do estado.

Para entender o papel da indústria nesse atual contexto e ajudar a encontrar soluções contundentes para a falta de água que assola várias regiões do Brasil, conversamos com o vice-presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp, Nelson Pereira dos Reis. Para ele, se os estudos que indicavam o possível estresse hídrico tivessem sido considerados, seguramente estaríamos mais preparados para enfrentar esse momento de seca.

Veja essa e outras declarações do especialista sobre a crise de água:

Há mais de 15 anos, especialistas anunciavam os fatores que poderiam ocasionar uma crise hídrica em São Paulo. Por que esses estudos não foram considerados?

Nelson Reis – Se os estudos e as boas práticas de gestão de água em regiões onde sabidamente há estresse hídrico tivessem sido considerados, seguramente, estaríamos mais preparados para enfrentar esse momento de seca, que está ocorrendo não somente no Brasil, mas também em outras regiões do mundo, como na Califórnia.

A importância de um sistema de gestão de demanda e oferta hídrica é muito importante, pois a população mundial, em contínuo crescimento, necessita de água para sobreviver, seja apenas para beber, para preparar e produzir alimentos ou ainda para a produção de bens de consumo que necessitam de água em seus processos produtivos. Portanto, se o volume de oferta de água, contida em reservatórios, continua a mesma ao longo de anos, a matemática apenas nos indica que um problema sério de abastecimento estava anunciado e ainda foi acelerado por fatores climáticos.

Na sua opinião, o que é possível fazer no curto prazo para mitigar essa crise?

Nelson Reis – Nesse momento, é muito importante criar ações visando a relevante redução do consumo de água; a eliminação de toda e qualquer perda nas redes de abastecimento; investimentos em fontes alternativas – subterrânea e de captação da chuva e sistema de reuso. Dessa forma, para auxiliar as ações da indústria, a Fiesp e o Ciesp têm trabalhado fortemente nesse sentido por meio de reuniões, seminários e principalmente na divulgação de informações sobre a implantação de Planos de Contingência (documento onde estão definidas as responsabilidades estabelecidas em uma organização), reavaliação de processos industriais, medidas para garantir a segurança de sistemas de incêndio e resfriamento. Outra ação simples é a instalação de redutores de vazão, peça desenvolvida pelos alunos do SENAI, para ser instalada em torneiras a fim de reduzir o consumo.

Geograficamente, São Paulo está localizada numa bacia, há 700 metros de altitude, que recebe muita água da chuva. Porém, ao mesmo tempo, existe uma população muito concentrada e principalmente muita atividade industrial. Como as indústrias podem fazer sua parte para reduzir de forma eficiente o consumo de água?

Nelson Reis – O setor industrial não é o principal demandador de água, antes dele estão os usos urbanos (abastecimento público, serviços e comércio). Na bacia hidrográfica do Alto Tiete, por exemplo, que abastece parte da região metropolitana de São Paulo, o consumo de água outorgado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), o consumo da indústria é equivalente a 10,6% do total, sendo 88,3% usos urbanos.

De acordo com a experiência que temos na indústria, para reduzir o consumo de água em um estabelecimento, é importante que haja um trabalho interno de gestão, começando pelo entendimento de toda a linha de abastecimento de água, desde a entrada no empreendimento até a última ponta da tubulação, pois assim é possível mapear a existência de vazamentos, necessidades de manutenção e, principalmente, identificar oportunidades de reutilização interna de água, o que a indústria já pratica vastamente.

Outro caminho a ser considerado é a possibilidade de usar água proveniente do próprio tratamento de efluentes da indústria ou mesmo comprada de tratamentos externos, lembrando que esses usos devem estar em conformidade com as exigências de padrão de qualidade da água onde será aplicada.

Na cartilha “Gerenciando a Escassez de Água na Indústria” é possível obter mais dicas para o enfrentamento da crise.

Como a produtividade e competitividade da indústria podem ser afetadas com a falta d’água? O que pode ser feito para reverter o impacto imediato?

Nelson Reis – A água é um insumo extremamente importante para a atividade industrial, não somente para o processo produtivo em si, mas também para seus funcionários que fazem uso de sanitários e refeitórios. Desta forma, se a indústria não conseguir se manter enquanto há interrupção em seu fornecimento de água, ela terá relevantes impactos em sua produção e venda de produtos. A crise da água ainda não trouxe impactos mais significativos para a atividade industrial porque o Brasil passa por uma crise econômica e, com isso, a indústria não está utilizando 100% de seu potencial produtivo. Entretanto, um agravante à crise é que as duas regiões mais afetadas, as bacias hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí e do Alto Tietê, abrangendo as regiões metropolitanas de São Paulo e administrativa de Campinas, respondem por cerca de 50% do PIB da indústria do Estado de São Paulo. O impacto econômico da paralisação da produção nessa região é muito representativo.

Qual a responsabilidade de toda a sociedade, inclusive das indústrias e do setor de serviços, frente a esta crise hídrica?

Nelson Reis – Sempre houve uma cultura ilusória de abundância de água, principalmente pela característica tropical do Brasil, com clima úmido e rios caudalosos. Temos que melhorar nossos hábitos de uso e conservação de água com medidas simples, como o uso da água de máquinas de lavar para limpeza de quintais e em vasos sanitários, realizar a limpeza de calçadas e outras áreas utilizando a vassoura ao invés de mangueiras, manter espaços permeáveis que permitam a infiltração do solo, entre outros. Devemos evitar desperdícios e priorizar o uso da água para atividades essenciais, principalmente enquanto há previsão de interrupção em seu fornecimento. Confira mais dicas no folder produzido pelo sistema indústria, acesse aqui.

O senhor mencionou que outros países também estão enfrentando problemas em relação ao abastecimento da água, como a Califórnia, nos EUA. Pode citar algumas as soluções de destaque que foram encontradas e implementadas em outros lugares do mundo para reverter a situação?

Nelson Reis – Em outros lugares do mundo, onde a escassez de água é relevante, com certeza há experiências e boas práticas que podem e devem ser adaptadas para o Brasil. Esses exemplos incluem tecnologia, políticas públicas e incentivos fiscais entre outros.

Diferentemente do Brasil, em Israel, cerca de 80% do esgoto sanitário gerado pelo país é tratado e reutilizado em agricultura e outras atividades que não exigem altos padrões de qualidade. O país possui modernos processos de dessalinização de água do mar, sendo essa uma fonte essencial já que 60% de seu território está em área de deserto. Os Estados Unidos também já enxergaram a importância dessa fonte alternativa e investiram na construção da maior estação de tratamento de água do mar do mundo, que será finalizada em 2016, abastecendo principalmente a Califórnia, estado americano que enfrenta uma crise hídrica tão intensa como a do Brasil. Esse Estado da costa oeste americana também tem boas práticas a serem reproduzidas, como por exemplo na cidade de Fresno, onde o governo incentiva a população a reduzir o consumo de água por meio da distribuição de hidrômetros e sistemas automáticos de rega de jardim que funcionam apenas a noite, subsídios para compra de sistemas de captação de água de chuva, entre outras ações.

Na contramão está o Brasil. Aqui existem vários projetos de lei de incentivos fiscais para a compra de equipamentos para promover o tratamento de água para reuso que estão parados no Congresso sem a mínima previsão de votação.