imagem google

Entrevista – ESG na Prática


Imagem relacionada a matéria - Id: 1634825751

Por Karen Pegorari Silveira

Coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV/ EAESP), Claudia Emiko Yoshinaga, sugere que as empresas, independente do porte, se inspirem em bons exemplos e pratiquem micro ações de ESG.

Leia Mais na Íntegra da Entrevista:

Por que é importante que as empresas entendam a relevância da estratégia ESG? 

Claudia Yoshinaga – Quando a gente fala de ESG, essa pauta com as vertentes ambiental, social e de governança tem crescido muito de importância nos últimos tempos. Temos que lembrar que o guarda-chuva principal de ESG é a sustentabilidade de longo prazo. E se formos pensar que a expectativa de uma empresa é durar para sempre, para além do nosso tempo, é fundamental que as empresas entendam que pensar em sustentabilidade, condições ambientais melhores, condições sociais melhores para as pessoas e relações da empresa com o mercado e com a sociedade que sejam transparentes, éticas dentro de um espírito de governança, é a base fundamental para que essas empresas durem para sempre. Para que a gente viva relações sustentáveis no longo prazo, que exista um planeta, que existam pessoas, e que existam empresas no longo prazo, essa é a lógica principal de porque a sustentabilidade é tão importante e deveria ser buscada por todas as empresas.

Como as empresas podem integrar ESG em seu negócio, independente do porte que ela seja?

Claudia Yoshinaga – Esse é um ponto muito importante porque quando a gente vai falar dessas primeiras tentativas de medidas de ESG no geral são muitas medidas que englobam centenas de indicadores. Se a gente perguntar para uma pessoa o que é que define uma empresa ser sustentável, serão faladas vários itens dos pilares ambiental, social e de governança, com possibilidade de se expandir para uma infinidade de aspectos que podem e devem ser medidos. Isso não pode de maneira nenhuma virar um desincentivo para as empresas pequenas fazendo-as desistir. Eu acho que o ponto é justamente esse, de conseguir convencer que mesmo as empresas pequenas podem pensar sobre questões sociais que envolverão principalmente promoção de diversidade da força de trabalho, não usar mão-de-obra escrava. Isso inclui ter uma relação importante com a sociedade como um todo, pensar em equilíbrio de homens e mulheres, diferentes faixas etárias, diversidade de formação e racial também. Então, eu acho que existem algumas micro ações que podem influenciar e servir de referência para todo tipo de empresa. Na pauta ambiental, a gente vai falar de preocupação em não gerar lixo além do necessário, preocupações de usar mão de obra, matéria-prima que sejam adequadas, se não estão destruindo a natureza de alguma maneira mais perversa, entre outros aspectos. E na pauta de governança, seguir os princípios gerais de governança: evitar conflitos de interesse, prezar pela ética e transparência nas relações, ter um bom regulamento e boas políticas de funcionamento. Essas são coisas que as empresas, independentemente do tamanho, podem se pautar.

Muitas empresas focam no E e no G mas esquecem do S. Quais são os riscos para um negócio que não leva em consideração o S do ESG?

Claudia Yoshinaga – Talvez desses 3 pilares do ESG, o G seja o pilar mais consolidado. Existe uma discussão e uma preocupação sobre questões de governança há mais tempo, reflexo de pressões do mercado financeiro inclusive. O pilar E vem ganhando mais visibilidade, porque quando a gente vai falar da pauta ambiental a gente lembra de acidentes ambientais, como o que aconteceu em Mariana, Brumadinho e as queimadas florestais que vem sendo notícia não só no Brasil, mas também na Califórnia (Estados Unidos). Clamores por redução de emissões de gases de efeito estufa, não se jogar dejetos em rios e afluentes, o ativismo da Greta Thunberg são sinais de que existe uma preocupação importante que também vem florescendo nessa pauta E (ambiental). O pilar S talvez seja o mais difícil de pessoas de fora observarem – como analisar a diversidade de gênero, promoção de minorias, preocupações com a força de trabalho, gaps de diferenças de salário por conta de  gênero, idade ou raça de empresas, olhando de fora? As evidências acadêmicas mostram que a diversidade influencia. Mas o ponto é que é mais difícil para quem está de fora observar que a empresa cumpre ou não essa pauta S, até porque estamos falando de relações entre os funcionários da empresa, das paredes para dentro. Aí acaba sendo algo que é mais difícil de ser notado, mas não quer dizer, de forma nenhuma, que essa preocupação com esse pilar não deva ser considerada.

Quais são os benefícios de integrar o S para a gestão de um negócio?

Claudia Yoshinaga – Existem inúmeros estudos que discutem sobre diversidade nos conselhos. Conselho é um grupo consultivo de pessoas que vai ajudar a direção da empresa a tomar decisões melhores. A ideia é formar um grupo de pessoas com diversidade de gênero, raça, formação, em diversas dimensões. Ter uma força de pessoal (vertente social) bem estruturada na empresa tem se provado muito importante, especialmente num momento desses de pandemia. Algumas empresas viram, em um primeiro momento, o quão era importante para os seus empregados ter a sinalização de, por exemplo, no ano de 2020 não seriam mandados embora, não seriam demitidos. Isso acaba dando tranquilidade e mais ânimo, motivação inclusive para os funcionários trabalharem melhor. Os cuidados para gerenciar o estresse emocional e o suporte dado por parte das empresas para os seus empregados no momento de pandemia é fundamental.

Qual sua experiência ao orientar empresas na inclusão da ESG? Qual conselho você daria para o empresário que deseja inserir a ESG em sua gestão? 

Claudia Yoshinaga – Acho que a grande recomendação que eu poderia dar pra quem quer incluir ESG na sua empresa no seu modo de trabalhar é se inspirar em bons exemplos. A grande questão é a gente lembrar dos 3 pilares básicos – estamos falando de pensar em questões ambientais, questões sociais e questões de boa governança. São muitas frentes para serem trabalhadas, mas se a gente pensar que toda decisão que for tomada por um/a dono/a de empresa que queira ser mais sustentável é se perguntar se essa nova decisão está favorecendo, está promovendo um mundo melhor em questões ambientais, sociais e de governança. Eu acho que esse é um bom parâmetro. Além dessa parte de bom senso, eu diria que mirar em bons exemplos de empresas que são tidas como empresas referência nessa pauta ESG é um outro caminho. Talvez os casos mais conhecidos sejam de empresas grandes, mas a gente pode olhar o que essas empresas vêm fazendo. Isso pode virar uma inspiração para essas empresas menores, que têm que começar por algum lugar, com passos inicialmente pequenos.