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Entrevista: A reinvenção de um Setor


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Na foto Antonio Filosa, Presidente da FCA. Foto: Leo Lara/Studio Cerri

Por Karen Pegorari Silveira

Em meio a grandes transformações o setor automotivo precisa se reinventar e trilhar novos caminhos.

De acordo com o presidente do Grupo FCA, Antonio Filosa, o veículo continuará a ser necessário para o deslocamento físico, o que mudará será a relação com o usuário.

Saiba mais, nesta entrevista exclusiva, sobre as ideias e opiniões de um líder que está comandando o maior ciclo de investimentos da empresa no Brasil, destinando R$ 16 bilhões ao desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias até 2024.

Leia na íntegra da entrevista:

Apesar do crescimento nas vendas de veículos no último ano, podemos observar globalmente um movimento de retração do uso de transporte individual e maior demanda por soluções compartilhadas. Como as montadoras estão se preparando para esse futuro?

Antonio FilosaDe fato, a forma como o mundo se movimenta está mudando, mas os automóveis continuam a ter um papel importante na matriz de mobilidade. O mundo é composto de uma enorme variedade de necessidades de deslocamento, de características geográficas, de densidades populacionais, de poder aquisitivo, de modo que há espaço para diversas soluções combinadas em múltiplos modais. Temos observado a tendência nos grandes centros urbanos de compartilhamento de veículos, privilegiando o uso ou serviço em lugar da posse do veículo. É parte do que chamamos de Transportation As A Service (Taas) ou Mobility As A Service (Maas). Mas é preciso lembrar que atrás de cada aplicativo, como Uber ou serviço de táxi, há uma frota de veículos em expansão. O veículo continua a ser necessário para o deslocamento físico; o que muda é a relação com o usuário. Por outro lado, em muitas regiões do Brasil e do planeta, o automóvel continua a ser uma aspiração de consumo. O mercado, portanto, continua a existir. Em 2018, as vendas globais de veículos ficaram estáveis na faixa de 96 milhões de unidades e as perspectivas de volumes são positivas.

Isto não quer dizer que o futuro do setor automotivo será tranquilo. Ao contrário. Os próximos dez anos da indústria serão tão emocionantes e decisivos quanto os dez primeiros. Temos grandes desafios pela frente: diferentes modalidades de propulsão, inclusive elétrica, direção autônoma, serviços de conectividade que transformem o veículo em uma plataforma a partir da qual se pode trabalhar, comprar, divertir-se, acessar as redes sociais e tudo mais. A Fiat Chrysler Automobiles está investindo globalmente 45 bilhões de euros até 2022 para ajudar a moldar este futuro.

O futuro dos trabalhadores das indústrias do setor também prevê grandes mudanças. De acordo com pesquisas recentes, mais de dez milhões de trabalhadores precisarão ser requalificados até 2023 para atuar na indústria 4.0. Quais habilidades você acredita que serão imprescindíveis para o trabalhador da indústria do futuro?

Antonio FilosaNo ambiente VUCA (Volatility, Uncertainly, Complexity e Ambiguity), característico da Indústria 4.0, as empresas mudam e o perfil dos trabalhadores também evolui. Adaptabilidade, capacidade de coligar e pensamento sistêmico são diferenciais e competências cada vez mais importantes no mundo do trabalho. Isto representa o desafio de qualificar as pessoas adequadamente. Quem construir os melhores times, terá a grande vantagem sobre os concorrentes, porque as pessoas são o fator diferencial. A grande habilidade que se espera cada vez mais dos gestores é a capacidade de estruturar times que respondam às necessidades de inovação.

Segundo informações divulgadas pela Federação Internacional de Robótica, mais de 3500 robôs industriais foram adquiridos neste ano no Brasil, um aumento de quase 200% se comparado a três anos atrás. Como as indústrias e a sociedade podem atuar para o aumento da competitividade sem agravar a atual realidade de desemprego no país?

Antonio FilosaO desafio é criar o ambiente propício para que as pessoas possam desenvolver as habilidades e competências necessárias, dentro do ecossistema da Indústria 4.0. No World Class Center (WCC), que é o espaço de inovação aberta e colaborativa que a FCA criou  para o desenvolvimento de novas soluções da Indústria 4.0 no “chão de fábrica”, existe uma área específica chamada “Process Center”, que tem o propósito de formar pessoas. Em uma minilinha de montagem, são realizados treinamentos para compartilhar conhecimentos e ferramentas, integrando metodologia, tecnologia e pessoas, com foco na transformação digital da manufatura. O futuro da manufatura integra cada vez mais pessoas, máquinas, sistemas e dados, com o suporte da internet das coisas e da inteligência artificial.

Em sua opinião, como essas transformações impactarão o país nos próximos anos e o que pode ser feito para que tenhamos mais impactos positivos do que negativos?

Antonio FilosaA primeira tendência que vejo é o crescimento da geração de postos de trabalho qualificados. Isto decorre da complexidade cada vez maior dos processos produtivos, decorrentes da demanda cada vez mais exigente dos consumidores e da abertura dos mercados à oferta global de produtos e serviços. O nível de exigência será puxado para cima. O país pode se beneficiar tremendamente deste processo se conseguir posicionar-se como um player competitivo. Isto significa a necessidade de uma injeção permanente de educação na sociedade, para que possamos desenvolver uma cultura empreendedora, criativa e inovativa, incluindo de fato todos neste processo. Também pressupõe a consolidação de um ambiente competitivo, com boas soluções logísticas, infraestrutura confiável, estrutura tributária simplificada e segurança jurídica. Parece um desafio tremendo, mas muitos países deram estes passos antes de nós e hoje se destacam como potências econômicas, referências em tecnologia e sociedades com poder aquisitivo crescente.