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Entrevista: Novas Tecnologias e Seus Benefícios para o Agronegócio


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Por Karen Pegorari Silveira

Conversamos com a pesquisadora Silvia Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, para entender como as novas tecnologias e as agrotechs podem ajudar o setor de agronegócio e as micro e pequenas indústrias.

Para ela, as novas tecnologias podem aumentar a produtividade e reduzir custos, entre outros benefícios; e as agrotechs têm o papel de dinamizar a economia.

Leia mais na íntegra da entrevista:

Como as agrotechs vêm mudando o cenário do setor agroindustrial brasileiro?

Silvia MassruháAs agrotechs vêm atuando como players importantes na implantação da transformação digital no setor agroindustrial. Focadas em inovação e tecnologia, elas possuem grande capacidade de dinamização da economia, promovendo um novo modelo de negócio. Antenadas com as novas tecnologias disruptivas, têm a capacidade de desenvolver soluções criativas e inovadoras de forma a atender as demandas emergentes e na velocidade que se espera no meio agroindustrial. Elas imprimem celeridade, inovação e flexibilidade ao setor.

Quais os benefícios e desafios de incluir novas tecnologias nas agroindústrias?

Silvia Massruhá Tecnologias disruptivas e a maior capacidade de computação viabilizam fábricas inteligentes que são altamente eficientes e têm cada vez mais dados integrados. A maior disponibilidade de dados em conjunto com novas ferramentas de análise, interpretação e tomada de decisão viabilizam uma maior integração e autonomia nos sistemas de produção. O uso das novas tecnologias permite remover trabalhadores de ambientes perigosos, viabiliza a manutenção preventiva dos equipamentos e possibilita a automação de linhas de produção, o que permite seu funcionamento contínuo, aumentando sua produtividade e reduzindo custos. A interpretação dos dados coletados por sensores no processo produtivo, aliada às análises viabilizadas por ferramentas de inteligência artificial, permite um maior acompanhamento e monitoramento do processo, e possibilita predições e indicações que podem evitar perdas e melhorar a relação custo-benefício dos processos. Os maiores desafios são o investimento em novos equipamentos, a alteração na cultura das empresas em adotar novas formas de produção, e mão de obra especializada para trabalhar com as novas aplicações que envolvam as tecnologias disruptivas.

Como as pequenas e micro indústrias do setor agrícola podem se beneficiar das novas tecnologias?

Silvia Massruhá As novas tecnologias permitem monitorar e gerenciar operações a centenas de quilômetros de distância, rastrear bens que cruzam o oceano, monitorar linhas de produção, indicar necessidade de manutenção no maquinário, estimar quantidade a ser produzida, indicar o frescor dos alimentos e muitas outras aplicações que são comuns a qualquer tipo de empresa. Dessa forma, elas podem ser aplicadas nos diversos segmentos do setor e por empresas de qualquer tamanho. O custo para sua implantação pode ser alto uma vez que muitos equipamentos são importados. De acordo com o estudo do BNDES, intitulado “Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil”, as maiores indústrias, em geral, são as primeiras a adotar as soluções no processo produtivo por causa da grande escala de produção e da capacidade de investimento. Entretanto, para as pequenas e micros indústrias, as associações e cooperativas do setor fazem o papel de fomentar a adoção de novas tecnologias, organizando grupos ou consórcios para compartilhamento de soluções (por exemplo, de conectividade), maquinários, entre outras. É relevante considerar os diferentes modelos de negócios que podem ser adotados para viabilizar o uso de novas tecnologias geradoras de saltos de produtividade não só para as grandes empresas, mas também para as pequenas e micros, de maneira a incrementar a eficiência do Brasil no setor.

O que as pequenas e as micro indústrias do setor têm a aprender com as agrotechs?

Silvia MassruháO primeiro desafio é se capacitar no uso das novas tecnologias e entender como elas alteram e se inserem no contexto de trabalho. É um novo modelo de negócio e as empresas têm que rever sua cultura e sua forma de produção para adotar esse novo modelo. As empresas devem se tornar antenadas para captar os sinais das demandas que vão surgindo. Ao inserir as novas tecnologias no ambiente produtivo, vão ser geradas outras demandas, sendo necessário prover uma resposta rápida a elas. É um ciclo virtuoso que as agrotechs vão captando e se adaptando. A indústria, para se manter competitiva, tem que participar desse ciclo.

Com a mecanização houve grande migração de trabalhadores para as cidades. Como fica este cenário com a inclusão de agrotechs?

Silvia Massruhá As novas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas e implantadas pelas agrotechs irão permitir a automação de vários processos e a consequente substituição da mão de obra atual. Seja porque o processo automatizado se torna autônomo e, dessa forma, sem a intervenção humana, seja porque a implantação dessas tecnologias demanda um novo perfil de profissional que não necessariamente vai ser preenchido pelos trabalhadores atuais. A substituição do homem pela automação é um problema que vem afligindo todos os setores da economia e devemos estar atentos para prover mais capacitação para esses trabalhadores para que possam ser inseridos nesse novo cenário. Um grande desafio mundial será como aproveitar a mão de obra que será liberada com a automação dos processos produtivos. Essa questão vem sendo discutida em várias esferas, mas ainda não há uma solução que abranja todo esse conjunto de recursos humanos que se tornará disponível.

Um grande desafio é aumentar o acesso de alimentos de qualidade à população, com especial ênfase para as crianças. Como as agrotechs podem contribuir neste tema?

Silvia MassruháAs agrotechs, com o uso das tecnologias digitais, possibilitam ao produtor possuir uma informação mais detalhada, mais precisa e obtida em menor tempo sobre sua propriedade e sua produção. Com isso, ele pode tomar decisões com maior celeridade e mais segurança permitindo que ele produza mais alimentos com maior qualidade. Entre as vantagens tem-se o uso mais eficiente da terra, dos recursos naturais e dos insumos visando gerar aumento de produtividade; otimização do uso de máquinas agrícolas gerando a diminuição de custos de manutenção e de operação; monitoramento da saúde de animais melhorando o controle de doenças e o processo de manejo; redução de custos por meio de irrigação inteligente, aplicação de fertilizantes de forma mais precisa e aplicação de pesticidas somente quando necessário; monitoramento de doenças e pragas e de incêndios evitando perdas nas safras; monitoramento das condições de estocagem em silos evitando perdas no armazenamento; monitoramento na cadeia de logística de distribuição melhorando o rastreamento dos produtos e aumentando a previsão das entregas. Essas condições, possibilitadas pelas agrotechs e o uso das novas tecnologias, permitem aumentar a produtividade e a qualidade dos alimentos possibilitando uma maior oferta para o consumidor final. Nesse ponto vale a pena citar também que não basta produzir mais alimentos; é necessário promover o seu escoamento e distribuição evitando desperdícios.

Com o objetivo de diminuir o desperdício de alimentos surge o movimento “foodtech” preocupado por conectar os diversos atores da cadeia alimentar visando garantir o acesso à comida para todos de forma mais sustentável. Nesse sentido existem startups que promovem a entrega mais rápida de alimentos ou que possibilitam a venda ágil de produtos que estão para vencer com preços mais acessíveis ou mesmo frutas e legumes que estão em boas condições de consumo, mas que não estão com boa aparência. Ou seja, em todos os elos da cadeia produtiva existem movimentos de startups como, por exemplo, as agrotech e as foodtech que estão se empenhando em prover mais alimentos de melhor qualidade para as pessoas.