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Artigo: A Sustentável Leveza da Moda


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foto: MARCELO SOUBHIA/AG/FOTOSITE

Rafael Cervone *

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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Quando se fala em moda, logo pensamos em roupas. Mas quando falamos do setor têxtil e de confecção, uma complexa cadeia produtiva, com inúmeras aplicações, se abre à nossa frente, com sua ampla rede de designers e engenheiros, fornecedores de fibras químicas e naturais, produtores de fios, tecidos, malhas geotêxteis, wearables,  beneficiadores com nanoinsumos, tratamentos inteligentes e varejo.

Sendo o Brasil a quinta maior indústria têxtil do mundo e a maior cadeia produtiva integrada do ocidente, ficam evidentes as infinitas possibilidades de tipificação ambiental do setor têxtil e de confecção já que os insumos, a fabricação e até o uso são muito diversificados.

Portanto, ao tratarmos de sustentabilidade do setor, não podemos pensar somente em moda ou roupas, mas também em toda gama de produtos têxteis que estão, muitas vezes, imperceptíveis aos olhos. Há, por exemplo, mais de 100 itens têxteis dentro de um automóvel. E também muitos itens nos aviões, nas rodovias, no agronegócio em edificações e na área hospitalar, como substituição de órgãos humanos.

Em um estudo feito com a consultoria WayCarbon em 2017, foram levantados 21 indicadores de maior magnitude para este setor no contexto da sustentabilidade. A plataforma Tex Index Brasil, criada pelo Texbrasil (parceria entre Abit e Apex-Brasil que visa a internacionalização da Indústria Têxtil e de Moda brasileira), foi norteada pelos 21 indicadores da WayCarbon e são subdivididos em três dimensões, a saber : governança, responsabilidade ambiental e responsabilidade social.

Com cerca de 30 mil empresas, de microempreendedores até unidades de grande porte, o setor têxtil e de confecção (T&C) é extremamente pulverizado; entretanto, muitas políticas sustentáveis relevantes estão sendo praticadas por diversas dessas empresas.

Vamos exemplificar:

Na área de governança corporativa, uma maior clareza e conscientização quanto à sustentabilidade em todos os setores da empresa, buscando maior eficiência, minimização de riscos e a busca de novas oportunidades de negócios, vem ganhando cada vez mais força, repensando os processos em toda sua extensão, no ciclo de vida do produto – desde a sua concepção até a destinação final, reaproveitando-o novamente quando possível (cradle to cradle). Considerar a responsabilidade socioambiental tem sido uma estratégia fundamental nos processos decisórios. Tais decisões levam em conta, inclusive, os valores e propósito de muitas empresas, buscando também conscientizar os colaboradores e stakeholders sobre o posicionamento da empresa a nível global. Desta forma, dentro da governança sustentável, a publicação das conquistas e desafios da empresa, incluindo o combate à corrupção, de forma transparente junto à comunidade, ganha relevância na melhoria do diálogo entre todos os públicos interessados, de clientes a acionistas.

No setor T&C, a rastreabilidade se tornou uma ferramenta obrigatória na cadeia de produção, buscando confirmar e atestar a conformidade em todo o processo produtivo, desde a atração e retenção de talentos da cadeia de suprimento, bem como se as relações trabalhistas, de saúde e segurança, estão dentro destas exigências. Da mesma forma, a verificação de produtos químicos banidos ou proibidos pelas mais diferentes certificações e normas regulatórias, também são rigidamente rastreadas.

Na área de responsabilidade ambiental, é prioritário o controle de impactos ambientais que vão, muitas vezes, além da legislação vigente, apesar de entendermos que ainda há importantes metas a serem alcançadas por algumas empresas, em um país com tantos problemas e de dimensões continentais. Os aspectos ambientais monitorados pelas empresas, abrangem temas como água, emissão de gases de efeito estufa, energia, resíduos sólidos e tratamento de efluentes. Importante ressaltar que os maiores produtores brasileiros são referência mundial na redução e reuso de água. Porém, muitos países que não têm a mesma rigidez ambiental que o Brasil, continuam tingindo rios pelo mundo e acabam por prejudicar toda a imagem do setor T&C.

Por último, na dimensão da responsabilidade social, destacamos as várias normas brasileiras que o setor T&C vem adotando para garantir segurança física às crianças no uso de produtos infantis, repensando o uso de cordões, alguns tipos de aviamentos, capuz e uso de baterias embutidas nas roupas interativas, com eletrônica incorporada.

Além dos produtos, as empresas devem assegurar condições adequadas para os colaboradores atuarem dentro das plantas fabris, minimizando riscos de acidentes de trabalho e possíveis impactos à saúde física e mental do trabalhador.

Não faltam exemplos de boas práticas, mas também de desafios para a indústria têxtil e da moda, no Brasil e no mundo. Certamente, as novas tecnologias ajudarão, cada vez mais, aliadas à criatividade de designers e engenheiros têxteis, tornar nossas vidas cada vez mais sustentáveis.

(*) Presidente Emérito Abit e Sinditêxtil-SP; 3º vice-presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP/CIESP); Diretor Executivo do Programa Texbrasil