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Artigo: Sustentabilidade – Um Caminho Sem Volta


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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por José Ricardo Roriz Coelho

Não é mais assunto exclusivo de ambientalistas. A questão da sustentabilidade envolve hoje consumidores, poder público, terceiro setor, indústria, empresas privadas e, especialmente em se tratando do problema do lixo nos mares e oceanos, todos os elos da cadeia produtiva do plástico. Os números mostram que o tema e seus desdobramentos são tão importantes atualmente que deixaram o círculo dos engajados no assunto. Todos precisam assumir sua respectiva responsabilidade.

Os consumidores já revelam grande engajamento na questão: mais da metade (55%) das páginas acessadas relacionadas ao tema referem-se a organizações e a figuras públicas que divulgam e promovem a sustentabilidade. Quem se interessa por esse universo termina por escolher e apoiar alguma causa ou iniciativa. Pesquisa do Instituto Akatu mostra que a via da sustentabilidade é mais desejada: entre os 10 maiores desejos dos consumidores, 7 seguem esse caminho.

A indústria de transformação e reciclagem de material plástico, por sua parte, avança gradualmente rumo às melhores práticas. O setor tem se dedicado a buscar uma solução prática para a questão do lixo nos mares por meio da economia circular. Esse modelo circular, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, tem como foco não gerar resíduos e manter produtos em utilização pelo maior tempo possível – seja por reutilização, remanufatura ou reciclagem.

Para praticar a produção sustentável, é preciso revisar algumas práticas. Iniciativas que podem levar à adaptação do setor incluem: a promoção do uso mais eficiente de recursos; a análise de ciclo de vida de produto; o chamado “ecodesign” – que já leva em conta, desde o desenvolvimento do produto, fatores como uso mínimo de recursos, peso, volume, facilidade descarte, reaproveitamento e reciclagem; a adoção do conceito de “environmentally friendly” – caso dos bioplásticos derivados de fontes renováveis (como a cana-de-açúcar); investimento em pesquisa e parcerias com universidades; desenvolvimento e bem-estar dos trabalhadores do setor; gestão da fase pós-consumo (tratamento adequado das embalagens após o uso final dos produtos); adesão voluntária a iniciativas do desenvolvimento sustentável nacionais e internacionais; e parcerias com todos os atores envolvidos.

Do ponto de vista dos negócios, essa revisão de processos produtivos sob o foco dos aspectos ambientais, além de todos os ganhos socioambientais, gera valor aos produtos e crescimento sustentável, além de facilitar a inserção de empresas nos mercados nacional e internacional.

Os problemas ambientais que enfrentamos, no entanto, não se resolverão apenas com as mudanças na indústria. A Iswa (Associação Internacional para Resíduos Sólidos, na sigla em inglês), organização não governamental baseada na Áustria, publicou um estudo que aponta que 25 milhões de toneladas de lixo são despejadas por ano nos oceanos. Desse volume, 80% são fruto da má gestão dos resíduos sólidos nas cidades (ausência de saneamento básico e de coleta de lixo). Sem descarte adequado, acabam indo para os lixões ou, em cidades à beira-mar ou de cursos d’água, para os mares.

No âmbito nacional, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010, determinou o fechamento de todos os lixões do País até agosto de 2014. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e do IBGE, no entanto, apenas 38% dos municípios informaram, até 2017, haver colocado em prática a Política Municipal de Saneamento Básico. Ao menos 56% dos municípios brasileiros recorrem a depósitos inadequados para descartar lixo. Em 2016, os lixões eram a solução para descarte de resíduos sólidos urbanos de 2.692 cidades. Outros 427 municípios descartam seus resíduos em “aterros controlados” — espaços que, embora com alguma tentativa de reduzir o impacto ambiental, ainda são altamente poluentes. Hoje há ainda quase 3.000 lixões no Brasil.

Uma grande parte desses resíduos são materiais que poderiam ser reciclados. Segundo a Abiplast, o volume de material reciclado no País, que hoje é de 26%, poderia ser muito maior se fossem implantadas pelos municípios a coleta seletiva e medidas de incentivo ao uso do reciclado, por meio de desoneração tributária. O potencial econômico desperdiçado de plástico gira em torno R$ 5 bilhões.

Sendo assim, é necessária uma visão sistêmica do assunto, ampliando a análise a questões como descarte correto dos consumidores, demanda por produtos que contenham plástico reciclado, melhora na coleta seletiva e resolução de disparidades tributárias que dificultam a competitividade. Quanto aos materiais plásticos, nossa indústria faz questão de assumir o protagonismo no desenvolvimento da consciência e da responsabilidade socioambiental, mas precisamos contar com o engajamento de todos.

*José Ricardo Roriz Coelho é presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico)