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Artigo: Fatores ESG e os desafios da governança no mundo pós-pandemia


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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por Pedro Melo

Estamos há quase dois anos testemunhando uma pandemia histórica, com profundas consequências para toda a população mundial. Assim como outros setores da sociedade, é indiscutível atestar que a governança corporativa foi diretamente afetada pelo novo coronavírus. Qual cenário teremos a partir de 2022? Os fatores ESG serão incorporados em definitivo pelas empresas e seus líderes? O que falta para as organizações compreenderem com profundidade sua responsabilidade social?

Ao longo desses quase dois anos, tenho sempre procurado colocar em evidência os princípios da governança, seus desafios e potencialidades. Seja em debates ou em reuniões com outros líderes, faço sempre questão de destacar um ponto fundamental e irreversível para o contexto em que vivemos: empresas com boas práticas ESG tiveram menos perdas durante a pandemia. Aquelas que já exerciam boas práticas de governança e contavam com um grau elevado de responsabilidade social mostraram, em geral, maior desenvoltura para lidar com crises dessa dimensão.

Muitos de nós vivenciamos perdas irreversíveis no decorrer da pandemia. Precisamos ser sensíveis em relação a essa nova realidade. No âmbito corporativo, temos visto que um posicionamento sólido em ESG se tornará um padrão mínimo exigido. Esses fatores precisam ser incorporados ao propósito e aos valores da empresa, tornando-se um pilar da estratégia corporativa. O planejamento e a execução de uma agenda completa, com temas ambientais e sociais, dependem de um compromisso robusto das organizações com as boas práticas de governança corporativa.

Acabamos de acompanhar as discussões da COP26, na Escócia. Temos a percepção de que cada vez mais as mudanças climáticas vão exigir novas práticas de governança corporativa. Espera-se também um aumento gradativo da convergência de padrões nessa esfera ambiental.  É crescente a demanda por informações sobre compromissos com a gestão das emissões de gases de efeito estufa, o consumo de recursos naturais, a produção e o descarte adequado de resíduos. É possível tratar desses temas sem transparência e prestação de contas?

O Global Risks Report 2021, publicado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial, trouxe pela primeira vez as questões ambientais no topo dos riscos a serem enfrentados nos próximos dez anos. Na mesma direção seguiu a carta anual de Larry Fink aos CEOs das empresas investidas pela Blackrock. Na edição deste ano, o CEO da gestora dedicou boa parte de suas reflexões às mudanças climáticas e seus impactos.

É preciso, entretanto, reconhecer que esses temas não são novos. A responsabilidade corporativa, princípio de governança preconizado pelo Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, há muito prevê que os agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômico-financeira das organizações, bem como reduzir as externalidades negativas de seus negócios e suas operações e aumentar as positivas.

Apesar de todo esse contexto prévio, o que mudou? A crise desencadeada pela pandemia não trouxe problemas ou soluções novos, mas potencializou ambos. Cada vez mais, desafios sociais e ambientais globais, regionais e locais influenciam a atuação das organizações, afetando sua estratégia e cadeia de valor, com impactos na sua reputação e no valor econômico de longo prazo. Mudanças climáticas, a ampliação da desigualdade social e inovações tecnológicas, entre outros fatores, têm imposto transformações na vida das organizações. Tais circunstâncias impõem a necessidade de uma visão ampliada do papel das organizações e o seu impacto na sociedade e no meio ambiente.

Para quem tem acompanhado esse debate, é muito claro que, sem transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa (que são os princípios básicos da governança corporativa), o compromisso com o meio ambiente e a sociedade não se sustentam.

O princípio da transparência consiste na disponibilização das informações exigidas por leis e regulamentos, mas não é só isso. A organização precisa praticar diariamente a intenção de ser transparente e isso significa que a pauta vai além dos dados de desempenho econômico-financeiro. Já o princípio da prestação de contas pressupõe que os agentes de governança prestem contas de forma clara, compreensível e com uma atuação irrepreensível.

Os fatores referentes ao ESG são inadiáveis e fundamentais para reconstruir um mundo com tantas sequelas econômicas e sociais. É papel de cada líder incluir em seu repertório pessoal, com urgência e profundidade, conhecimentos sobre os desafios que a governança corporativa terá daqui por diante. As mudanças afetarão diretamente os nossos negócios. Compreender os elementos que compõem o mundo pós-pandemia será um fator decisivo de sucesso para fortalecer nossa sociedade.

*Pedro Melo é diretor geral do Instituto Brasileiro Governança Corporativa (IBGC) e membro independente do conselho de administração do Banco Santander Brasil. Foi presidente da KPMG no Brasil e na América do Sul. Dedicou-se à profissão de auditoria de 1981 a 2020. É formado em contabilidade e pós-graduado em análise contábil-financeira.