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ARTIGO: O QUE AS CRIANÇAS TÊM A VER COM A SUA EMPRESA?


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Foto: Fernando Martinho

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por Mariana Luz

Ações de apoio a quem cuida das crianças levam as empresas a ganhos de engajamento, percepção de marca e à certeza de estarem investindo em mudanças sociais estruturantes e sustentáveis

O mundo do trabalho é uma das muitas coisas que a pandemia desmantelou, derrubando a crença de que as empresas parariam com o trabalho remoto. Os receios que pautavam os mais resistentes ao modelo flexível de trabalho foram postos à prova, mostrando que os profissionais não se tornaram menos engajados, muito pelo contrário: quando o trabalho tomou conta da sala das casas, foi o espaço da vida privada que perdeu território.

A mistura da vida pessoal e profissional também deixou evidente o tamanho da tarefa de delimitar o espaço de cada um desses papéis. A necessidade de nos trancarmos dentro de casa com crianças, afazeres domésticos, alimentação e o trabalho nos levou à fase mais aguda desse desafio.

Acredito que o saldo final dessa circunstância de exceção pode ser positivo para o mundo do trabalho, desde que tenhamos a sensibilidade de olhar para essas lições e a coragem de promover as mudanças necessárias para apoiar nossos colaboradores, principalmente aqueles que não têm o privilégio do trabalho remoto.

A minha proposta é de aposta na primeira infância, uma agenda sustentável e transversal, que impacta as pautas mais diversas, como saúde, educação, segurança pública, e economia.

Estudos comprovam que o retorno do investimento nesta pauta vai muito além da melhora no ambiente de trabalho, aumento da produtividade e redução da rotatividade. Adotar práticas focadas na primeira infância traz mudanças sociais importantes, melhora a imagem da companhia e atrai clientes. Então, qual empresa não quer uma equação com investimento inicial baixo, retorno rápido e impacto positivo de longo prazo? Primeira infância é a resposta.

Mudanças culturais levam tempo para serem alcançadas. Nesse processo de transformações, políticas que reafirmem o caminho que a companhia quer seguir são fundamentais. Nós, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, trabalhamos pela primeira infância, período que vai até os seis anos de idade e em que 90% das conexões do nosso cérebro são estabelecidas,

abrindo uma janela de experiência, descobertas e aprendizados que criam as bases para o resto da vida.

Sabemos que o bem-estar do pai e da mãe é importantíssimo para que a criança receba os cuidados e os estímulos necessários para o seu desenvolvimento nesta fase, mas, para cuidar das crianças, precisamos cuidar daqueles que cuidam delas. E quem pode ter maior impacto na vida familiar se não as empresas que empregam esses profissionais?

Dados do IBGE apontam que, ao investir na primeira infância, as companhias impactam diretamente 102 milhões de pessoas – quase metade da população brasileira. Se as empresas ampliarem as ações para além de seus muros e envolverem toda a cadeia produtiva, elas atingem uma parcela ainda maior de pessoas. Garantir um ambiente de apoio às famílias com filhos na primeira infância, com compreensão e acolhimento às necessidades das crianças, é transformar a empresa em parte atuante dessa rede de apoio tão potente.

Iniciativas para inspirar

As empresas têm procurado formas de apoiar a primeira infância e várias delas tornaram-se signatárias do Programa Na Mão Certa, da ChildHood Brasil, que visa a garantir que assuntos como o abuso e a exploração sexual sejam pauta de políticas públicas e privadas. Outras extinguiram perguntas sobre se o candidato tem ou não filhos ou se pretende tê-los de suas entrevistas. Cresce também o número de instituições que investem em palestras, cursos para apoiar gestantes e profissionais homens cuja esposa é gestante.

Outra iniciativa para dar visibilidade e fomentar boas práticas foi a criação do ranking das Melhores Empresas na Atenção à Primeira Infância do Great Place to Work (GPTW), que apoiamos em 2019. Também focado em gestores corporativos, a Fundação Maria Cecília, em conjunto com a United Way Brasil, lançará ainda este ano uma plataforma completa de boas práticas de primeira infância nas empresas.

No Brasil, temos a Natura como importante referência desta causa, que oferece benefícios como licença maternidade e paternidade estendidas, berçário para as mães e pais colaboradores. E, para além de seus muros, a empresa desenvolve, desde o ano passado, conteúdo de apoio às mães consultoras a partir de sua plataforma digital.

Nos Estados Unidos, você já se perguntou por que o novo presidente, Joe Biden, criou um plano centrado em torno de cuidados infantis, licença remunerada, saúde e pré-escola gratuita? O plano tem foco na família, mas seu objetivo fundamental é a recuperação da economia. Exatamente pela primeira infância ser o investimento que vai na causa raiz dos problemas e traz os maiores retornos.

A lista de ganhos que a proteção da família representa é vasta para as companhias, a começar por aquela cujo benefício é incalculável: a satisfação de seus funcionários, o aumento do engajamento e da produtividade. Além disso, a percepção externa sobre o compromisso social da marca e, sobretudo, a contribuição real com a construção de uma sociedade mais saudável e produtiva.

* Mariana Luz é CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial