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Artigo: O Impacto Econômico e Comercial da Sustentabilidade


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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por Roberto Ignacio Betancourt

Até recentemente, a palavra sustentabilidade representava o desejo das empresas de serem economicamente viáveis, socialmente corretas e ambientalmente responsáveis. Por muitos anos, porém, a ausência de métricas reconhecidas internacionalmente e amparadas por indicadores técnico-científicos que permitissem a comprovação da sua efetividade no que diz respeito ao aspecto ambiental, fez com que as diferentes atividades produtivas passassem a adotar sistemáticas próprias de mensuração, o que, não raro, tornou o tema apenas uma ferramenta de marketing junto aos consumidores mais exigentes.

O mundo, no entanto, começa a formatar uma estrutura mais robusta para a sua mensuração, com grande potencial de impor custos e barreiras para as empresas, setores e produtos que não apresentem métricas de sustentabilidade ambiental em linha com o esperado pelos principais mercados compradores.

Dessa forma e por força da opinião pública, a cobrança por sustentabilidade passou a ser majoritariamente na área ambiental e a principal métrica balizando setores e produtos passou a ser a emissão de CO2 equivalente. Esta emissão engloba a emissão direta de CO2, assim como outros gases do efeito estufa como o metano, que são contabilizados como CO2 equivalentes. Com este critério bem definido, a comunidade internacional pôde realizar equiparações entre empresas, setores e produtos. As mais diversas commodities podem ser comparadas, tais como a emissão de CO2 equivalente para produzir 1 kg de carne bovina, 1 kg de etanol, 1 kg de soja ou até mesmo um kg de aço.

Para o agronegócio, foi desenvolvida uma ferramenta para mensurar a sustentabilidade de cada produto em diferentes mercados, portanto, com sistemas produtivos diferentes: a ACV (análise do ciclo de vida) ou LCA (life cycle analysis) em Inglês. Nela são medidas as emissões, considerando tudo o que um animal ou planta precisam utilizar ao longo da sua vida até chegar à mesa do consumidor final. Para exemplificar, a ACV de um grão, como o milho, precisa contabilizar o CO2 equivalente gerado ao longo da cadeia produtiva, a partir da utilização, por exemplo, de fertilizantes, combustíveis, defensivos agrícolas, entre outros insumos e serviços necessários à produção e distribuição. Assim, quando enviamos o grão de milho para determinado país, saberemos exatamente quanto foi a sua emissão de CO2 equivalente.

Para o setor não agrícola o raciocínio é semelhante. No final, teremos um resultado que poderá ser utilizado por qualquer país ou empresa, a partir de uma linguagem mais uniforme, para explicar aos consumidores qual é o impacto do produto nas emissões de gases do efeito estufa que estão de alguma forma afetando o nosso planeta.

Com este conceito de emissões de CO2 equivalentes bem definido, o mundo se prepara para implantação de uma nova etapa da relação comercial, na qual os produtos mais poluidores serão onerados ou, no limite, até mesmo impedidos de chegar aos consumidores de determinados mercados. Esta fase está sendo liderada pela Europa e será bastante restritiva, a partir de novas e crescentes exigências, ao considerarmos as métricas em que se baseia para a tomada de decisões.

Na atualidade há uma corrida global por determinar as emissões de CO2 equivalentes de todos os produtos seguindo uma metodologia que tenha aceitação global e que possa ser auditada por certificação. As empresas sabem que quanto menor as emissões mais competitivas serão no mercado global.

O problema é que em grande parte das vezes, as metodologias realizadas não levam em consideração as particularidades de cada sistema produtivo nos diferentes mercados.

Um bom exemplo é a soja brasileira, considerada poluidora pela métrica adotada pela Agência para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas, FAO, por emitir 3,5 kg de CO2 equivalente por kg de matéria seca, contra 1,5 kg de CO2 equivalente da soja norte-americana. Por este exemplo preocupante e totalmente dissonante da nossa realidade produtiva, é fundamental que o Brasil participe das discussões globais sobre as metodologias para quantificar as emissões e imputar a sua realidade produtiva nos modelos, sobe pena de sermos imensamente prejudicados.

Os empresários e o governo brasileiro devem entender, com a urgência necessária, que um país e suas empresas serão mais competitivos quanto mais sustentáveis ou, mais precisamente, quanto menores forem as emissões de CO2 equivalentes. Devem compreender também que essa mensuração a nível global, por trás das suas sofisticadas planilhas, responde a interesses econômicos muito bem definidos. O ditado, “quem chega antes, bebe água limpa” se encaixa aqui com perfeição.

Dessa forma, não é minimamente razoável que o Brasil, com uma das produções agropecuárias mais sustentáveis do mundo, com duas ou até três safras por ano na mesma área; pioneira no sistema que integra produção florestal, pecuária e lavoura (ILPF) em uma propriedade; que é exemplo no plantio direto na palha; que possui um extenso programa de controle biológico de pragas; que mantém mais de 60% do seu território preservado, sendo percentualmente a maior parte nos próprios imóveis rurais; que possui dados históricos dos últimos anos apontando para reduções significativas do nível de desmatamento, arque com o ônus de uma metodologia feita pelos europeus e para as condições da Europa, por simples falta de uma ação ou de uma participação mais efetiva do Governo Federal, bem como das entidades de representação, que têm a obrigação aportar recursos para imputar em qualquer sistema de mensuração, de forma técnico-científica, os inúmeros diferenciais sustentáveis do agronegócio brasileiro.

O Brasil precisa trabalhar desde já para evitar que custos financeiros sejam futuramente impostos à nossa produção, em razão das emissões geradas pelas diversas atividades do agronegócio. Neste momento, teremos que demonstrar que a nossa capacidade vai muito além da competitividade produtiva, imbatível em alguns casos, mas que temos diferenciais suficientes para pautarmos o mundo quando o tema é sustentabilidade.

* Roberto Ignacio Betancourt é diretor titular do Departamento de Agronegócio da Fiesp e presidente do Sindirações – Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal.