‘Os brasileiros me ajudam todos os dias, nem que seja com uma palavra’, diz refugiado sírio em palestra no Congresso do CJE

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Hora de aprender com quem veio de longe e precisou empreender na marra, fora de seu país. Na primeira palestra da tarde no Congresso do Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da Fiesp, foi aberto espaço para que quatro imigrantes falassem sobre “A reinvenção na adversidade”. O evento segue até o final desta terça-feira (01/11) na sede da Fiesp, em São Paulo. O debate foi moderado pelo membro do CJE Henrique Olivan.

Thái Quang Nghiã, fundador da fabricante de bolsas e calçados Goóc, falou sobre o seu passado de dificuldades no então Vietnã do Norte, o que levou sua família a enviá-lo para fora, por medo que suas posições críticas ao regime lhe causassem problemas.

Isso foi em 1978. Na viagem, seu navio teve que ser resgatado. A ajuda veio de um barco brasileiro. Depois de um período em Cingapura esperando a liberação de documentos, chegou ao Brasil em 1979, em pleno Carnaval. E isso sem estrutura para receber imigrantes. Aos 21 anos, sem família e sem falar português, sendo o vietnamita diferente de todos os outros idiomas.

“Sempre gostei de estudar e de ler”, disse Nghiã. Sem saber o que fazer, e como falava um pouco de francês, começou a fazer a chamada tradução triangular:  do vietnamita para o francês e então para o português. Depois, foi atrás dos cursos do Sesi-SP e do Senai-SP, pelo que agradeceu aos paulistas. E então entrou na USP, quatro anos depois de chegar ao Brasil. Até que veio o Plano Cruzado, em 1986. “Um amigo para quem tinha emprestado dinheiro quebrou, não conseguiu saldar a dívida e me deu máquinas em troca”, afirmou. “Foi então que me senti empurrado a começar um negócio, mesmo sem ter planejado”. Assim, vendeu a sua produção inicial de bolsas rapidamente e concluiu que seria melhor empreender, ganhando mais do que deixando o dinheiro no banco e, de quebra, não tendo chefe.

Tantos anos depois, ele reflete que muito aprendeu sobre tolerância e diversidade no Brasil. “Mesmo com a crise, tudo segue bem na minha família”, contou. “Até a minha ex convive bem com a minha mulher”, brincou. “Com os meus parentes que vivem fora do Brasil não é assim, não há tanta tolerância e diálogo”.

‘O Brasil me escolheu’

Refugiado sírio vindo de Damasco, Talal Altinawi tem um restaurante de comida árabe na capital paulista. Prestes a completar três anos no Brasil, ele fugiu da guerra e veio com a mulher e os filhos. Tinha somente noções do que é o país e veio para cá porque as portas estavam abertas para a entrada de sírios sem documentos. “Por isso escolhi o Brasil. Ou o Brasil me escolheu”. Antes, fez uma escala de dez meses em Beirute, no Líbano.

Decidiu ficar em São Paulo e foi recebido por três meses por um brasileiro descendente de sírios. Começou em fevereiro de 2014 um negócio de roupas para vender na Feira da Madrugada, no Brás, o que durou até agosto. Em maio já trabalhava como engenheiro, sua área de formação, mas meses depois a empresa fechou. Agora trabalha como cozinheiro. “Fiz uma festa de aniversário e recebi a sugestão de fazer comida árabe como negócio”, afirmou. “Comecei com eventos como a Festa da Imigração e aniversários”.

O dinheiro para abrir seu restaurante, seu próximo passo, num total de R$ 72.000, foi arrecadado num site de crowdfunding, mais que os R$ 60.000 de sua meta inicial. Em janeiro de 2016, com os recursos em mão, escolheu o Brooklin para instalar o restaurante, porque em outubro tinha feito palestra num colégio do bairro, que ofereceu bolsa de estudos para os seus filhos.

“Minha vida é boa, mas eu quero que fique melhor”, afirmou Altinawi.

Também sírio, Anas Obeid é outro empreendedor que diz ter sido escolhido pelo Brasil. Depois de ter ido para o Líbano sem passaporte, foi ao consulado brasileiro e conseguiu passaporte do país. Um ano e quatro meses depois, sente-se bem aqui. Jornalista, começou a enviar reportagens para uma publicação em Londres. Paralelamente, cozinhava. “Indo a um evento, aluguei um box para vender produtos árabes, ainda sem saber o que seria”, contou. “Na Síria é comum fazer na hora os perfumes, misturando as essências e o fixador. Quis fazer o mesmo aqui e trabalho com isso até hoje”.

Para ele, o segredo é “trabalhar mais e gastar menos”. “Os brasileiros me ajudam todos os dias, nem que seja com uma palavra”, disse.

Direto do Bênim

Vinda do Bênim, na África, Ozias Japhette La Blessed chegou aqui num programa de estudos para a graduação em Design Gráfico. Além disso, estudou português. Encontrou no Brasil estereótipos sobre a África com as quais não se identificava.

Assim, juntou-se a outras meninas conterrâneas e começou a apresentar em Bauru, no interior paulista, desfiles culturais. O próximo passo foi abrir a sua marca, a Modukpê, confecção especializada em roupas de inspiração africana.

“Tinha um sonho de menina de trabalhar com moda”, contou. “E faltava um trabalho com moda africana no Brasil”.

Os próximos planos? Voltar para casa e abrir a sua confecção lá depois de formada, em 2017, mas “sempre mantendo o Brasil como uma base de comercialização”.

Para o coordenador do debate, foram apresentadas quatro histórias inspiradoras aos participantes do congresso. “Vimos quatro exemplos de pessoas que vieram, venceram, estão vencendo e encontrando novas formas de vencer”, afirmou Olivan.

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Os empreendedores que se estabeleceram no Brasil: lições de tolerância e superação. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp