De olho no agronegócio, empresas investem em telecomunicações em áreas isoladas

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

O desafio de levar sistemas de telecomunicações para áreas isoladas foi debatido por empresários do setor nesta quinta-feira (22/05), durante um dos painéis da Semana da Infraestrutura (L.E.T.S.), evento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A coordenação do debate foi feita por Marco Antonio Ginciene.

Samuel Lauretti, da WxBR: são 30 milhões de pessoas vivendo em lugares em que o acesso às telecomunicações é difícil.”. Alberto Rocha/Fiesp

A necessidade de implantar redes de telecomunicações fora das áreas urbanas tem como motivação principal o agronegócio, segundo Samuel Lauretti, da WxBR. “Mais de 90% da população está próximo à costa brasileira e apenas 16% vivendo em áreas rurais. Não parece muito, mas se pensarmos na dimensão da população brasileira representa 30 milhões de pessoas, onde o acesso às telecomunicações é difícil.”

“Apesar de ser uma parte menor da população, as áreas rurais estão diretamente relacionadas com o agronegócio no Brasil, o que representa mais de 20% do PIB [Produto Interno Bruto] do país. São áreas remotas, mas com atividade econômica forte e muito peso para a economia brasileira”, disse Lauretti, que defendeu o uso da banda de 450Mhz.

“A tecnologia é um meio e não um fim. O usuário, na casa dele, quando vai usar a internet, ele não está preocupado qual a frequência ou qual a tecnologia utilizada. Ele quer ter um bom serviço, confiável e com custo competitivo.”

Outra motivação para o investimento em áreas remotas, de acordo com o executivo, é a expansão do mercado machine-to-machine. “Uma série de estudos de mercado e todos concordam que, nos próximos 10 anos, vamos chegar a vários bilhões de dispositivos conectados no mundo todo. Essa é uma oportunidade para a rede de 450 Mhz.”

Francisco Ziober Filho: “Telebras não vai ao usuário final, mas trabalha em parceria com os pequenos e médios provedores de internet e chegamos às áreas mais remotas por meio deles.” Foto: Alberto Rocha/Fiesp

Francisco Ziober Filho, presidente da Telebras, falou sobre o movimento de interiorização da empresa. “O agronegócio vem exigindo esse movimento. Várias cidades que, praticamente, não existiam há 20 anos, hoje são potências econômicas”, comentou.

“A Telebras não vai ao usuário final, mas trabalha em parceria com os pequenos e médios provedores de internet e chegamos às áreas mais remotas por meio deles. É como a Telebrás contribui para levar as telecomunicações para esses lugares.”

Ziober Filho também falou sobre a construção de um satélite de defesa e comunicação, que vai colaborar para esse acesso às áreas isoladas. “Estamos fazendo um trabalho em parceria porque o satélite vai cumprir uma função estratégica militar e também para uso comercial.”

Com base na experiência da empresa, Cicero Olivieri, da TIM Brasil, falou dos pontos críticos e das necessidades do mercado. “Primeiro, as empresas têm que estar comprometidas com o Brasil, porque é um investimento a longo prazo, é preciso um compromisso com o Brasil”, afirmou.

Cícero Olivieri: “agilidade e simplicidade vão trazer grandes benefícios para o país.” Alberto Rocha/Fiesp

“Além disso, é preciso de uma construção conjunta. A competição tem que estar nos produtos, na capacidade e na qualidade da gestão da rede e não na infraestrutura para chegar. Também é fundamental investimentos na infraestrutura básica. Não adianta subir uma rota de fibra óptica e ela cair todo dia porque não tem energia.”

Olivieri também destacou a importância das autorizações de todos os tipos para instalações das estruturas, como as licenças ambientais. “Agilidade e simplicidade vão trazer grandes benefícios para o país.”

Tendo as áreas rurais e remotas como nicho de mercado desde a criação da empresa, Eduardo Neger falou sobre a experiência da Neger Telecom. “Assim como nós, grande parte do atendimento na área rural é feito por empresas de pequeno porte locais, seja um provedor de acesso à internet, ou uma empresa de telefonia local, geralmente com abrangência regional.”

Ele ressaltou a oportunidade de mercado nessas áreas, já que a zona rural tem apenas 4% de penetração de acesso à internet, o que mostra uma possibilidade de crescimento muito grande. E é uma demanda exigente.

“Quem já acompanhou um técnico de campo fazendo instalações de internet em áreas rurais percebe que, assim que ele termina, o usuário corre no computador e entra no Youtube para ver se está baixando vídeo”, conta. “Não basta dar uma conectividade básica, mas é preciso prover um serviço com mais desempenho.”


L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico.

O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets

Aumento de oferta e qualidade de serviço de banda precede debate sobre preço, diz presidente da Telcomp

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

João Moura. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Antes de pensar em um preço adequado para os serviços de telecomunicações no Brasil, empresas do setor, autoridades e sociedade precisam avaliar se há um serviço de qualidade ao menos razoável. A opinião é do presidente-executivo da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), João Moura.

“Primeiro eu preciso ter o serviço. Mas mesmo em São Paulo falta banda larga, e não só nas residências, mas também para as empresas”, afirmou Moura nesta quarta-feira (07/08).

Ele participou do painel “Plano geral de metas de competição e Programa Nacional de Banda Larga: serviço a preço justo?”, parte da programação do 5o Encontro de Telecomunicações, organizado pela Federação das Industrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), no quarto trimestre de 2012, a cobertura de banda larga fixa alcançou 5.565 municípios brasileiros. No quarto trimestre de 2011, 5.548 utilizavam serviços de banda larga fixa.

Caio Bonilha. Foto: Julia Moraes/Fiesp

O debate contou com a participação do presidente da Telebras, Caio Bonilha. Ele reafirmou o objetivo do “Plano Nacional de Banda Larga” é atender a 40 milhões de domicílio até 2014. Atualmente, 24,3 milhões de domicílios contam com acesso à internet.

“Embora tenhamos gargalos de infraestrutura de rede, a qualidade dos serviços tanto para a população quanto para empresas já está crescendo”, afirmou Bonilha.

Especialistas em telecomunicações e empresários do setor discutiram sobre as mudanças na concorrência do segmento com a aprovação do “Plano Geral de Metas de Competição” (PGMC), aprovado em 2012.

Elena Scaramuzzi. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Elena Scaramuzzi, da Cullen International, apresentou o modelo de competição na Europa. De acordo com a executiva, a cobertura em zonas rurais permanece um desafio. “E ainda não há uma resposta econômica para isso.”

Na avaliação do professor Marcos Paulo Veríssimo, professor do Departamento de Direito do Estado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), o PGMC  tem mais medidas regulatórias do que para estimular a competição, mas “provavelmente trará benefícios importantes e aliviará a necessidade de intervenção do governo”.