Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp busca inspiração no Vale do Silício

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

“Este é um ano de grande crise no Brasil, e a crise é uma oportunidade para inovação”, disse Rodrigo Loures na abertura, nesta sexta-feira (10/2) de reunião do Conselho Superior de Inovação e Competividade da Fiesp (Conic, presidido por ele). Loures explicou a intenção do Conic de se aprofundar no estudo de ecossistemas de inovação e propôs um encontro paulista para discutir o tema.

A reunião do Conic teve como tema o Silicon Valley Institute for Business Innovation (SViBi), representado por seu diretor no Brasil e América Latina, André Cherubini Alves, e de cujas atividades participaram outros três palestrantes do evento – entre eles, José Eduardo Mendes Camargo, vice-presidente do Ciesp e diretor do Departamento do Agronegócio da Fiesp (Deagro).

Cherubini Alves lembrou que a Fiesp foi uma das primeiras instituições visitadas por sua organização. O Silicon Valley Institute for Business Innovation, explicou, é uma iniciativa primordialmente acadêmica, mas com foco na execução, ideia de David Teece, professor conceituado em inovação, especializado em capacidades dinâmicas. A abordagem busca a junção entre academia, empresas e instituições interessadas em ir além da sala de aula, aplicando e levando para dentro das empresas conceitos, práticas e conhecimento sobre inovação. Um dos objetivos do instituto é criar o engajamento de longo prazo entre especialistas em inovação, universidades e empresas.

O SviBi pretende ser uma comunidade global de inovação, com foco em preparar as empresas para atuar no século 21, disse Alves. É uma startup, porque o Svibi está aprendendo com a experiência.

Professores brasileiros poderão integrar a rede de inovação, que em seu início teve Harvard, Stanford, Berkeley, Universidade de Chicago e outras referências no ensino de economia.

A primeira etapa da atividade (chamada de jornada) oferecida pelo SviBi, a un-conference, teve lugar de 10 a 12 de janeiro, na Califórnia. Entre as empresas brasileiras participantes estiveram a Embraer, o Itaú-Unibanco, o grupo Boticário, a QueenNut, a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Na abertura da un-conference, David Teece explicou que o Vale do Silício não é simplesmente um local – é um estado de espírito que abraça a diversidade, questiona o status quo e procura soluções inovadoras para problemas da sociedade. Essa busca leva à formação de grandes empresas, afirmou. Também falou sobre o emprego da teoria das capacidades dinâmicas na análise da prosperidade das empresas no longo prazo.

Outra apresentação foi de Michael Tushman, sobre ambidestria estrutural, ou seja, o que fazer para cuidar dos negócios atuais e ao mesmo tempo gerar inovação. Clayton Christensen descreveu quatro tipos de inovação: do tipo get the job done, a de eficiência, a sustentável e a disruptiva.

Gary Hamel apresentou os desafios do século 21 e falou sobre a necessidade de levar para dentro das grandes corporações o espírito do Vale do Silício, com abordagens gerenciais mais diretas, abertas, horizontais, simples e livres.

Daniel Diermeier, cofundador do SviBi, falou no terceiro dia, sobre os desafios da gestão em lidar com a reputação ao longo do processo de inovação e como aproveitar uma crise para fazer a coisa certa e melhorar a imagem da empresa no mercado.

Nos encontros one-on-one as equipes empresariais conversaram com os professores, em diversas reuniões, sobre seus principais desafios em relação à inovação e sobre um plano de inovação a ser executado ao longo de 12 meses.

O próximo passo da jornada estende-se por 12 meses, com a elaboração pelos participantes de uma carta representando um plano de execução da inovação.

Gabriel Cherubini, CEO da P&C Arte Mobili e participante da jornada, disse que os conceitos de capacidades dinâmicas e ambidestria mereceram sua atenção. A questão hoje está em criar o envolvimento de todos, em todos os níveis da empresa, afirmou. Em sua opinião, todas as pessoas na empresa são estratégicas e devem pensar em inovação.

José Eduardo Mendes Camargo, vice-presidente do Ciesp e diretor do Deagro, disse que foi levado a participar da jornada da SviBi por ter vontade permanente de inovação. Antes, visitou o Napa Valley, outro ecossistema de inovação. Ali foi criado um espírito de parceria, destacou.

O curso, sob um olhar empresarial, foi muito interessante, disse. Há no Silicon Valley uma sistematização. A criação de uma rede, envolvendo empresas, universidades e consumidores, faz parte disso.

E o cliente é olhado de forma diferente, uma lição bem ensinada por Steve Jobs, da Apple, que observava atentamente seus possíveis consumidores e ia além do que eles queriam, explicou Camargo.

Questionar o status quo faz parte do segredo das empresas inovadoras. Culpa não faz parte do vocabulário delas, mas velocidade sim. Nos riscos é possível criar hedge, mas para as incertezas isso não ocorre, disse, e isso é um conceito mostrado no curso. Preparação para reagir rapidamente frente a um problema pode até levar a ganho de prestígio numa crise, em vez de perda. Olhar para dentro, sem esquecer de olhar para fora, foi outro conceito importante transmitido, na opinião de Camargo.

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Reunião do Conic que teve como tema o Silicon Valley Institute for Business Innovation. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp


Mudança à vista

Também palestrante na reunião do Conic, Humberto Humberto Pereira, vice-presidente de Engenharia e Tecnologia da Embraer, considerou muito interessante o curso, com o cumprimento de toda a agenda e a logística bem resolvida. O contato com pensadores da área e o tratamento dos dilemas empresariais foram destaque.

A ambidestria, a capacidade de tocar a operação e enxergar opções, segundo Pereira, é importante e deve ser seguida na composição do conselho de uma empresa.

Pereira ressaltou que a velocidade de mudança é alta. Para breve deve haver uma disrupção no setor de energia. Empresas de petróleo, lembrou, investem em sistemas de armazenamento, em baterias. Eder Trevisan, diretor do Dempi, pediu comentário adicional sobre isso. Pereira exemplificou com a rendimento energético da cana, de 1%, o que já é atingido por células fotovoltaicas. As baterias estão ganhando capacidade e diminuindo de preço de forma exponencial, disse.

Na opinião de Pereira, não vamos replicar aqui em curto prazo o ambiente do Vale do Silício. Perdemos o tempo, não temos a ciência básica. O mesmo acontece em hardware, e talvez nos reste ter papel importante como integradores, em vez de ser integrados. É preciso ter foco nesse cenário, disse o diretor da Embraer.

Criar mercados, ser disruptivo, é o que gera valor, foi uma das lições aprendidas. Apenas se manter competitivo num mercado não basta. E também a educação, necessária, não é mais suficiente. Necessário fazer a integração de tecnologia. E está nas startups, dentro ou fora da empresa, a inovação necessária, está em sua natureza empreender e gerar valor.

O tema despertou o interesse dos conselheiros do Conic e outros participantes da reunião. A plateia estava lotada, e os participantes se manifestaram. Roberto Paranhos do Rio Branco, vice-presidente do Conic, disse que os depoimentos reforçam que falta ao Brasil levar às indústrias de menor porte a noção de que há caminhos, que é possível inovar.

Donizete Duarte da Silva, diretor do Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria da Fiesp (Dempi), lembrou a falta de capital intelectual nas fábricas brasileiras, especialmente nas micro, médias e pequenas, que são maioria. Algo promissor, em sua opinião, são as impressoras 3D, que ameaçam a manufatura, e que são fabricadas por poucas empresas. A indústria brasileira deveria se mobilizar para fabricá-las, disse.

Marco Antonio dos Reis, diretor titular adjunto do Dempi, explicou o empenho do departamento em levar as indústrias de menor porte a inovar.

Inovação é coisa difícil, disse Russ Rosenzweig, CEO da SviBi, que entrou via Skype. A difusão do conceito de inovação, explicou, é um dos objetivos das un-conferences. E a ida dos executivos ao Vale do Silício é outro, para que eles respirem o ar local, sintam o ambiente.

Os três pilares do curso são conteúdo, encontros diretos com os professores e a formação de grupos de pares não concorrentes.

Para criar um ecossistema de inovação os países emergentes precisam cuidar da difusão do conhecimento, os conceitos essenciais da inovação, que podem ser aprendidos, afirmou. Um grupo de empresas inovadoras pode tomar a frente. Há literatura sobre a criação desses ecossistemas, e isso pode ser conseguido no Brasil. “Não é copiar o Vale do Silício.”

Adriana Baraldi, conselheira do Conic, pediu comentário sobre capital humano, as pessoas, que Rosenzweig considera que devem ser transformados em empreendedores. A disseminação disso na empresa inteira é possível, havendo literatura disponível, estudos de caso. Há diferenças culturais não apenas entre países, mas entre empresas, e isso deve ser considerado, aconselhou.

O conceito essencial do Vale do Silício é criar e disseminar conhecimento. No Brasil, as empresas tendem a não se comunicar, a não interagir, lembrou André Alves.