Susan Schwab classifica Doha como “deserto que impede o progresso”

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A ex-representante comercial da Presidência dos Estados Unidos, Susan Schwab, afirmou nesta segunda-feira (17) que as negociações da Rodada de Doha – das quais o Brasil faz parte desde a sua formação, em 2001 – estão congeladas e que o País precisa encontrar uma maneira de seguir em frente.

“Os políticos nunca vão conseguir declarar que Doha morreu, a não ser que insistamos nisso. Nós temos que ir além desse deserto que está impedindo o progresso e o desenvolvimento”, afirmou Schwab, atualmente consultora estratégica de Comércio Internacional e Relações Governamentais da consultoria Mayer Brown LLP.

“Não importa se existe desde 2001. Doha está congelada e, como resultado, todas as questões muito importantes que a Organização Mundial do Comércio (OMC) deveria estar discutindo também estão congeladas. Os países estão tendo que lidar com esses problemas que não se prestam a soluções unilaterais”, argumentou.

Schwab participou do seminário “A Nova Agenda Brasil-Estados Unidos: Comércio, Negociações e Mecanismos de Defesa da Indústria”, realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na sede da entidade.

Da esq. p/ dir.: o embaixador dos EUA, Thomas Shannon, o presidente do Coscex da Fiesp, Rubens Barbosa, e a negociadora Susan Schwab

Ela reconheceu oportunidades de negócios bilaterais entre EUA e Brasil na pauta de segurança alimentar, energética e cooperações em formulação de política no Fundo Monetário Internacional (FMI). “São segmentos em que vemos potencial na relação comercial Brasil-Estados Unidos.”

A consultora alertou, no entanto, sobre as principais preocupações globais: a fracassada recuperação da crise financeira internacional e o consequente desequilíbrio global. “A liquidez de mercado afeta a todos nós. Formuladores de política têm trabalhado para conter isso.”

Obstáculos

Schwab avaliou ainda que o Brasil impõe alguns obstáculos para o progresso das relações bilaterais e multilaterais de comércio. “Temos 73 países que assinaram o acordo de Tecnologia da Informação, mas o Brasil não é um deles. Eu diria que isso atrapalhou a competitividade do País”, afirmou a consultora.

O Acordo da Tecnologia da Informação, de 1996, eliminou as tarifas entre os 73 países que respondem por mais de 97% do comércio mundial de produtos de tecnologia da informação.

“Nós temos a impressão que os exportadores brasileiros não são bons parceiros de negociação. O Brasil tem liberdade e acesso livre como exportador, mas se pune como consumidor”, disse Schwab.

Mais cedo, o ministro interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira, informou que quase 90% da pauta de importação é manufaturada. A Fiesp divulgou, em agosto, que a participação de produtos importados no mercado brasileiro chegou a um patamar recorde na série histórica iniciada em 1997, com 22,9%, indicando a dificuldade de concorrência dos produtos nacionais.