Brasil pode se beneficiar com a relação de complementariedade com a China

Dulce Moraes, Agência Indusnet

Um dos temas em debate, durante o Seminário Comemorativo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet), na tarde desta sexta-feira (22/08), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, foi qual deve ser a estratégia brasileira em relação a China.

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Seminário da Sobeet na Fiesp: a economista do Bradesco, Fabiana D’Atri, o diretor da BRF, Marcos Jank, e o ex-embaixador do Brasil na China, Clodoaldo Hugueney. Foto: Everton Amaro/FIESP

O diretor executivo global de assuntos públicos e governamentais do conglomerado BRF (Brasil Foods), Marcos Jank, refutou o pensamento corrente de que o Brasil perde ao exportar principalmente commodities para a China. “Eu concordo que a pauta brasileira é commoditizada, com exportações do agronegócio e minérios, porém, não há nada errado nisso”, afirmou.

Segundo ele, embora esses produtos possam ter baixo valor adicionado, tem alta qualidade (high skill). “Para se produzir uma soja é feito muita pesquisa. Aliás, a soja, apesar de ser considerada uma commodity, é um produto de alto “skill” e não tem baixo dinamismo”, explicou

Dando outro exemplo, Jank relembrou que, enquanto a soja cresce mercadologicamente, o preço de chip eletrônico cai. “O Brasil é inovador nas suas commodities. Mas a gente pode fazer muito mais”, afirmou.

Desafios e oportunidades

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Fabiana D'Atri: "Brasil é hoje o maior fornecedor de alimentos para a China". Foto: Everton Amaro/FIESP

O painel contou com a apresentação da economista sênior do Bradesco, Fabiana D’Atri, que apresentou o panorama atual do mercado chinês e sua interação com o Brasil. “Embora haja uma desaceleração da produção industrial chinesa desde 1996, a China ainda é a maior exportador mundial”, destacou a especialista.

A economista ressaltou ainda que a estratégia chinesa já foi dada e que o Brasil deveria se questionar como pode se inserir ou se beneficiar nessa estratégia. Como exemplos, ela destacou que o Brasil é hoje o maior fornecedor de alimentos para a China. Por outro lado, mais da metade do que a China exporta hoje é high skill. “Ou seja, a bugiganga chinesa vem perdendo espaço e,hoje, se exporta mais máquinas”, alertou.

Os três desafios na relação entre Brasil e China são o de romper o protecionismo existente nos dois lados; o espaço atual do comercio mundial; e os custos de produção que são bastante diferentes entre os dois países.

Mas, o Brasil pode vislumbrar algumas oportunidades, segundo a especialista. “O Brasil é considerado um país seguro em termos alimentos e energia. Está aí uma oportunidade que a China busca, inclusive devido a questão ambiental”. A economista também recomendou atenção aos setores dos quais a China quer receber empresas estrangeiras que agreguem tecnologia, como infraestrutura e agronegócio.

Deve-se olhar a China de hoje e amanhã

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Clodoaldo Hugueney: "Oque o Brasil quer da China, além da complementariedade?”. Foto: Everton Amaro

Temos um enorme desconhecimento sobre a China e como ela funciona e qual a visão estratégia dela em relação ao mundo”, afirmou Clodoaldo Hugueney, ex-embaixador do Brasil na China

E conhecer a China, segundo ele, é um enorme desafio, pois o ritmo de mudança naquele país é espantoso. “Deve-se olhar a China de hoje e também de amanhã. O comercio exterior das cadeias produtivas hoje está caindo e o que está acontecendo é a agregação de valor de uma forma muito rápida”, explicou.

Algo que não se tem claro ainda, segundo o diplomata, é quanto às reformas. “Como a China implantará as reformas estruturais que ela pretende fazer. Eu não tenho certeza como isso vai acontecer. O próprio governo chinês também dúvidas sobre isso. Há muitas interrogações”, avaliou.

Hugueney comentou ainda que, embora a China seja uma prioridade para o mundo — mais de 30% do crescimento mundial depende da China –, o Brasil não tem ainda uma visão clara de sua prioridade em relação a China. “E sabemos que os chineses são grandes estrategistas, desde Sun Tzu [autor de A Arte da Guerra]. E a estratégia da China em relação ao Brasil está clara e tem a ver com a complementariedade”.

O diplomata destacou ainda os interesses dos chineses no Brasil, tanto como destino para a sua manufatura, como localização de investimentos. “A penetração de investimentos já faz parte da estratégia chinesa há algum tempo. E está dentro da estratégia de penetração da América Latina”.

Outra característica estratégica chinesa apontada é quanto a multipolaridade e o Brasil é um dos atores nesse cenário.
Segundo o embaixador é preciso eliminar a discussão de que a complementaridade conflita com a qualidade das nossas exportações. “As perguntas que o Brasil precisa se fazer são: O que quer da China hoje e daqui a vinte anos? E o que a gente quer, além da complementariedade?”, concluiu.

‘Temos que ter consciência do nosso potencial’, afirma diretor do Banco Central

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Para avaliar as expectativas do ambiente macroeconômico global em um contexto de redução do PIB mundial, o diretor de assuntos internacionais e de gestão de riscos corporativos do Banco Central (Bacen), Luiz Awazu Pereira da Silva, foi um dos palestrantes do Seminário da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), nesta sexta-feira (22/08).

O evento foi realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a palestra teve a mediação de Octavio de Barros, economista chefe do Bradesco/Câmara de Comércio Brasil França (CCFB)/Conselho Empresarial Brasil China (CEBC).

Segundo Awazu, sua proposta é apresentar uma visão realista da questão, sem excesso de euforia, mas também sem pessimismo. “O Brasil é um país extremamente maduro, do ponto de vista institucional. Sabemos encarar nossos desafios sem desanimar e podemos também valorizar alguns dos nossos êxitos sem cair na complacência”, afirmou.

O diretor do Bacen traçou um panorama da economia global, além de uma análise mais específica em relação aos países emergentes. “Sabemos que a economia global está em situação de recuperação apenas gradual e assincrônica entre os três grandes do mundo: Estados Unidos, a zona do euro e o Japão, com os Estados Unidos um pouco na frente”, avaliou.

Awazu: desaceleração das perspectivas de crescimento. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Awazu: desaceleração das perspectivas de crescimento. Foto: Beto Moussalli/Fiesp


“Do lado dos países emergentes, podemos dizer que a situação mais dramática prevista, o perfect storm, não aconteceu. Mas houve uma desaceleração das perspectivas de crescimento em muitos desses países.”

Centro regional

Sobre o Brasil, Awazu considera que o país tem potencial para servir de centro regional de produção e ser um grande receptor de investimento estrangeiro direto. “Em um quadro complexo para a economia global e para os países emergentes, o Brasil tem atuado com pragmatismo. Temos que ter consciência do nosso potencial em termos de produtividade e crescimento, porque temos coisas factíveis de serem implementadas que podem nos trazer um crescimento mais robusto”, afirmou.

Lembrando a capa da revista The Economist que mostrava o Cristo Redentor decolando como um foguete, o economista reforça que havia um excesso de euforia e iria haver altos e baixos com a relação do Brasil com mercados financeiros, mas que o país foi prudente.

Para comprovar isso, o diretor do Bacen citou a manutenção da taxa de câmbio, a adoção de medidas preventivas, a manutenção de níveis sólidos de capital, além das medidas de política monetária adotadas para controlar pressões inflacionárias e implementação do, bem sucedido, programa de leilões cambiais.

“Temos um quadro econômico global ainda complexo, mas de recuperação gradual. Precisamos estar atentos às oportunidades, mas sem ficar refém dos dados de alta frequência, de curto prazo, que vão criar volatibilidade e excesso de pessimismo ou euforia”, alerta.

Segundo ele, o Brasil sofreu com a crise, mas soube reagir. “Mantivemos nossa estabilidade macrofinanceira, continuamos recebendo investimentos diretos, temos uma estratégia clara de desenvolvimento de aumento de produtividade, com investimento em infraestrutura e capital humano”, disse.

“Precisamos reconhecer que temos desafios como todos os países, mas estamos, em muitos aspectos, como concessão, infraestrutura, investimento, programa de educação. E isso com a determinação de manter a nossa estabilidade social, institucional e, obviamente, macroeconômica.”

Estratégia para crescer no mercado externo em debate durante seminário na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Trabalhar em nome da diferenciação de produtos e da agregação de valor para ganhar espaço no mercado global. Ao lado de outras ideias tão relevantes quanto, o tema foi debatido no Seminário de 20 Anos da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), realizado, nesta sexta-feira (22/08), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.

Com o questionamento geral sobre qual a inserção internacional do Brasil esperada para os próximos anos, o evento reuniu personalidades como o presidente do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Fiesp, Delfim Neto, o diretor presidente da Sobeet, Luís Afonso Lima, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, o conselheiro sênior do Banco Mundial Otaviano Canuto e o diretor do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Paulo Francini. Estiveram presentes ainda os embaixadores Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp e Sérgio Amaral, do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC).

Barbosa, ao centro, com os debatedores do seminário da Sobeet: mais comércio exterior. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Barbosa, ao centro, com os debatedores do seminário: mais comércio exterior. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Convidado a discutir as cadeias globais de valor, Coutinho explicou que há diferentes formas de conexão a essas estruturas, o que muda conforme os setores. Nas empresas baseadas no agronegócio, por exemplo, a internacionalização é uma forma de ganhar mercado se observada a lógica de “diferenciar produtos e firmar marcas, agregando valor”. “Já com aquelas de química e siderurgia, predomina a economia de escala”, afirmou.

Outra lição importante nesse sentido, adotada por fabricantes de vestuário da Europa, é trabalhar “a questão da marca e da sofisticação dos produtos”. “Foi a solução que os europeus encontraram para não perder espaço”, disse.

Seja como for, vale a meta de buscar a “qualificação da inserção internacional a partir do trabalho das cadeias produtivas”. “Que a engenharia de produtos no Brasil participe da engenharia de processos, vamos olhar essas oportunidades”, destacou o presidente do BNDES.

Também debatedor do assunto, Canuto lembrou que “o país está menos integrado do que poderia estar”. Segundo ele, mesmo assim, ainda somos o quinto no mundo no ranking de polos de atração de investimento estrangeiro direto. “Muitos investidores falam de nós com um sorriso aberto”, explicou o conselheiro sênior do Banco Mundial. “Um grande fator para isso é a força do nosso mercado, seu tamanho, principalmente na base da pirâmide. Ninguém pode se dar ao luxo de ficar fora”.

Canuto: “País está menos integrado do que poderia estar”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Canuto: “País está menos integrado do que poderia estar”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

No plano externo, de acordo com Canuto, alguns dos principais obstáculos ao comércio não estão nas barreiras tarifárias. “Temos outros obstáculos, como as barreiras físicas e as dificuldades de desenvolver estratégias empresariais”.

Resumindo o tom geral das apresentações, Neto destacou: “o que o Brasil precisa é de política econômica razoável, adequada e que deixe o mercado funcionar”.

Para quebrar o isolamento

O segundo painel de debates do seminário discutiu a visão estratégica do Brasil no que se refere à sua inserção internacional. E teve como participantes Rubens Barbosa e Sérgio Amaral. A discussão foi mediada pela diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), Sandra Polónia Rios.

Para Barbosa, a “visão estratégica do governo” no plano externo nos últimos 12 anos foi “equivocada” ou “não existiu”. “O objetivo foi mudar o eixo da dependência externa brasileira, reduzindo a influência dos países desenvolvidos em detrimento daqueles em desenvolvimento”, explicou. “Foi a chamada política ‘sul-sul’”.

Barbosa: discussão sobre a política ‘sul-sul’. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Barbosa: discussão sobre a política ‘sul-sul’. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Com isso, o Brasil teria ficado “isolado em termos de acordos comerciais”. “Precisamos quebrar o isolamento a que estamos submetidos, ampliar a nossa competitividade e as nossas exportações”.

Na mesma linha, Amaral afirmou que “desconfianças em relação aos Estados Unidos e ao México não são boas para a política externa brasileira”. “O Mercosul deve ser tendência natural pela proximidade, mas isso não deve ser decidido unicamente por questões políticas, como uma certa tolerância acima da média à Argentina”, disse.

De acordo com o embaixador, “temos condições de ter boas relações com os Estados Unidos e a União Europeia”.