Na Fiesp, professor da USP explica slow medicine, que privilegia relação médico-paciente

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

A fragmentação da medicina, com o excesso de exames médicos e a dependência de tecnologias, em contraponto à análise clínica deficiente, são pilares da arquitetura catastrófica desenhada no campo da saúde. Esses foram alguns dos pontos tratados por Dario Birolini, professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) no Conselho de Estudos Avançados da Fiesp (Consea), nesta segunda-feira (21/11), ao tratar de um novo conceito, o slow medicine.

O presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder, lembrou que o livro O doente imaginado, de Marco Bobbio, introduziu esse conceito ao retratar como a medicina se acelerou a tal ponto que qualquer paciente recebe uma lista de exames em sua visita ao médico e uma correspondente lista de medicamentos em seu retorno. Assim, é necessário um novo olhar sobre essa relação médico, paciente e medicina.

“O que o médico faz hoje é ver exames, quanto mais sofisticados, melhor”, disse Birolini, ao criticar a chamada medicina defensiva, que leva ao incentivo de práticas medicinais duvidosas e a criação e a comercialização de novas doenças. Transtornos comuns são classificados como doenças e levam à medicalização, em sua opinião. A tecnologia impede que médicos e pacientes se conectem.

Para ele, o homem é fruto da evolução de milhões de anos. Mas se nos últimos 10 mil anos houve a ocorrência de cerca de 300 gerações, em comparação, 300 gerações de uma bactéria se dão em uma ou duas semanas. Ou seja, uma bactéria pode sofrer em um dia a evolução que nós sofremos em mil anos, segundo sinalizou o professor. Portanto, o uso indiscriminado de antibióticos é um risco. Dos 7,2 bilhões de habitantes do planeta cada um tem um perfil genômico diferente, mas os remédios são utilizados para todos. As vendas de antibióticos subiram 36% entre 2000 e 2010, e o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul responderam por 76% desse aumento.

Esse cenário torna-se mais complexo com o envelhecimento populacional mundial: 75% a 80% da população acima de 60 anos sofre de pelo menos uma doença crônica. Em 2027, serão 27 milhões de idosos; em 2050, 50 milhões.

Nesse sentido, Birolini questionou quem elabora os protocolos, os guidelines. Assim, deve-se estar atento ao que há de interesse nos tratamentos médicos e na indústria farmacêutica.

A acomodação é outro problema. “As pessoas querem mudar com medicamentos, mas não com suas atitudes e novos hábitos de vida”, avaliou ao tratar do disease mongering (comercialização de doenças, Lynn Payer, 1992) termo pejorativo para a prática de ampliar os limites diagnósticos de várias doenças e promover a sua divulgação junto ao público com o intuito de ampliar o mercado dos que vendem e oferecem tratamentos, o que pode incluir companhias farmacêuticas, médicos e outros profissionais.

Isso significa transformar distúrbios comuns em problemas médicos; adotar formas convincentes de divulgação para que eles pareçam perigosos; propor medidas terapêuticas exaltando suas vantagens e subestimando os riscos. Apresentar dados numéricos (quanto maiores, melhor, ainda que questionáveis…). Despertar receios a respeito da possível gravidade e de suas repercussões. Induzir a realização de cascatas de exames, quando não de intervenções. Banalizar a solução, pois “aquele” medicamento resolve tudo.

Ele também criticou a fragmentação da assistência, a medicina baseada em evidência, que auxilia o médico, mas não pode substituir a experiência clínica. Portanto, estabelecer um novo relacionamento é fundamental e uma via é a slow medicine, um contraponto ao uso excessivo de recursos destinados à saúde, iludindo-se que fazer mais é sempre melhor a fim de garantir a melhoria da saúde.

Em sua análise, os interesses da medicina contemporânea estão focados na tecnologia, enquanto o perfil do paciente, bem como suas relações familiares e seu envolvimento social são negligenciados. Isto é fast medicine.

Na slow medicine, fundada em 2011, na Itália, envolvem-se médicos, pacientes, profissionais de saúde, cidadãos, com o viés de respeitar o relacionamento entre médicos e pacientes, incentivando ao compartilhamento das decisões. Entende-se que uma medicina sóbria implica a capacidade de agir com moderação, de forma gradual. Desse modo, os valores, desejos e expectativas das pessoas são diferentes e invioláveis e se deve promover cuidados adequados e de boa qualidade para todos.

Entre seus princípios, dedicar mais tempo para ouvir, compreender, avaliar e oferecer suporte emocional ao paciente; investir na individualização e não na generalização, respeitando as opções do paciente; compartilhar as decisões com o paciente levando em conta suas características pessoais, familiares e sociais.

Dario Birolini apresentou no Consea, da Fiesp, o conceito de slow medicine. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp