Entrevista: Rafael Cervone fala sobre os desafios da indústria neste mês de comemoração

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Por Karen Pegorari Silveira

No mês em que a indústria comemora seu aniversário, conversamos com o vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) para relembrar os principais desafios já enfrentados por este segmento e os que ainda estão por vir, em sua opinião.

Para ele, alguns dos principais entraves enfrentados hoje pelos industriais são a falta de previsibilidade do país e a crise de valores, que precisa ser encarada de frente.

Veja na íntegra a entrevista:

Como primeiro vice-presidente do Ciesp, o senhor vivenciou muitos momentos marcantes da indústria paulista, como a necessidade de uma gestão mais sustentável dos recursos naturais, a mecanização da mão de obra e as grandes inovações tecnológicas. Pode nos contar qual fase mais marcou sua permanência no mercado industrial e por que?

Rafael Cervone – Em todos esses anos, passamos realmente por muitas fases, porém em todas elas, o que mais me marcou, e ainda continua a me incomodar, é a falta de previsibilidade no Brasil. E isso remonta de lá de trás, dos anos 60 aos nossos dias. Essa é a maior dificuldade do empresário porque se você tem uma crise econômica, uma crise política, ou escassez de recursos naturais como a falta de água e a crise energética, que estamos vivenciando agora, você consegue superar se houver um planejamento para isso, se o governo direcionar com honestidade quais os caminhos que serão tomados. O problema é quando essas coisas acontecem de surpresa, quando o caminho que o governo apontou não se realiza, ou, pior, quando ele volta atrás e altera o que tinha prometido. Nessa situação, você não tem condições de planejar a médio e a longo prazo. Os problemas foram mudando, mas a forma do governo enfrentar, de orientar, não muda e ao longo das décadas convivemos com essa falta de previsão. Na época da hiperinflação você não conseguia planejar nem o dia seguinte. Hoje, esse problema foi superado, mas você não tem previsibilidade jurídica, tributária, trabalhista, de recursos naturais como a água, de energia. Aliás, o problema de energia tem duas questões: se vai haver e a que preço. Veja as ações recentes do governo em relação a dois temas que são importantes à indústria, como a desoneração da folha de pagamento e o reintegra. Quem, em 1º de dezembro, acreditou na perenização da desoneração da folha ou da perenização do reintegra e fechou um contrato de exportação de 1 ano, três semanas depois o que era permanente virou indefinido de novo. Isso é um caos pra indústria, um caos que os nossos concorrentes lá fora não têm. Os concorrentes europeus, os norte-americanos, os asiáticos gozam de todas as garantias possíveis para produzir, levando muita vantagem em relação a nós. Então, esses sãos os grandes problemas: a falta da previsibilidade e a insegurança que isso causa nas pessoas jurídicas. Um Plano de País, que não se tem desde a época dos militares, é outro fator estratégico que nos falta, uma visão estratégica de longo prazo projetando o que o Brasil deseja ser daqui a 30 ou 40 anos e determinando com clareza e bom senso ações factíveis para a realização da mesma. Outro enorme problema é a gestão, tanto na esfera municipal, estadual quanto federal. A má gestão que desperdiça recursos, permite uma brutal corrupção, encarece obras e permite no Brasil o absurdo de 23.000 cargos comissionados no Governo. E compensa toda esta brutal incompetência e ineficiência com uma carga tributária impossível de suportar.
São inconsistências como essas que fazem eternamente do Brasil o país do futuro, slogan que escuto desde que eu nasci.

Com estes momentos, muitos desafios também existiram, como a baixa oferta de água e energia, a falta de mão de obra qualificada e a entrada da mulher mais fortemente no mercado. Qual foi o principal deles enfrentado pelas indústrias em sua opinião e como o senhor acredita que as indústrias devam se preparar para os futuros desafios?

Rafael Cervone – O principal desafio hoje é a enorme ausência de lideranças políticas capazes de conduzir a nossa sociedade às mudanças imediatas (repito : imediatas) que corrijam o rumo do nosso país e resgatem os valores que estão sendo brutalmente banalizados, como ética, moralidade, altruísmo, dignidade e respeito ao ser humano e às coisas públicas.
E a mulher tem papel preponderante neste contexto, pois hoje elas ocupam cargos de destaque nas empresas, muitas delas presidem grandes grupos empresariais. Na entidade em que atuo, no setor têxtil, 70% dos trabalhadores são mulheres, sendo que 40% são chefes de suas famílias. Isso mostra a relevância do seu papel. A começar pela presidente do Brasil, que é mulher, isso veio para ficar e muda também o papel do homem nas empresas, que tem que compartilhar o poder e isso é algo que nunca foi muito fácil para os homens. Porém, eles vão ter que se acostumar com isso. Outro grande desafio para o Brasil e para as indústrias é mudar a crise de valores que estamos vivendo hoje, onde a ética, a responsabilidade e o trabalho não são mais encarados como algo em condição sine qua non para os negócios. Haja vista os escândalos de corrupção que estamos enfrentando e todo mundo achando que isso é normal. Corrupção não é normal, incompetência não é normal, decapitar as pessoas na TV não é normal. Então esta crise de valores precisa ser revertida rapidamente. A sociedade civil tem que reagir a essa inércia. A corrupção invade o dia a dia das empresas e inviabiliza negócios, aumenta o custo e isso não é normal. Nós temos que combater com toda a nossa energia este problema.

Atualmente, muitas indústrias perceberam que ser sustentável e socialmente responsável pode oferecer perenidade e diferencial competitivo. O senhor acredita que essa estratégia de gestão pode ser um meio eficaz para que a indústria se mantenha competitiva perante as indústrias europeias e asiáticas?

Rafael Cervone – Eu não vejo como um problema a competição com as empresas norte americanas e europeias. Com elas a gente pode competir de igual para igual. Claro que com a desvantagem do custo Brasil, falta de gestão e de planejamento dos governos, que nas últimas décadas fizeram com que esse custo fosse fato preponderante na perda de competitividade e, consequentemente, de produtividade. Então, hoje, temos que fazer o Brasil voltar a ser competitivo e ainda fazer com que a indústria recupere sua produtividade. Agora, com relação às empresas asiáticas o jogo é outro, pois temos que enfrentar uma competição desleal, porém, sejamos justos, muito bem planejada. A China, por exemplo, tem uma estratégia de longo prazo, com plano de país que é muito bem executado, até porque lá não é necessariamente uma democracia. O governo estadista, militar, impõe sua vontade e faz a coisa acontecer. Numa democracia isso às vezes não é tão simples, não é na mesma velocidade. E fora isso, os chineses mantêm sua economia artificialmente competitiva, dando uma série de subsídios, remunerando mal, controlando a moeda, etc. Portanto, com esses produtores asiáticos temos que nos proteger contra o dumping cambial, trabalhista e ambiental que eles claramente praticam. Agora, gestão de sustentabilidade pode sim ser um diferencial de produto, de País, agregando valor e buscando nichos que fujam da competição asiática das commodities. O Brasil não vai conseguir exportar e alcançar o mundo competindo com asiáticos nas commodities. Até porque os asiáticos já estão até saindo das commodities, buscando agregação de valor. Então esse é um desafio que a indústria precisa superar.

Sua experiência industrial lhe permite observar os erros e acertos das pequenas, médias e grandes indústrias. Qual conselho o senhor daria para um empresário da indústria obter sucesso nos negócios, independente do porte da empresa?

Rafael Cervone – Buscar diferenciação, adaptar-se rapidamente à velocidade das mudanças que ocorrem em escala global, entender a inserção da sua empresa, do seu negócio e do seu produto nas redes globais de valor, o que inclui o gerenciamento da informação. A informação é essencial não somente para a tomada de decisão quanto para a adaptação do modelo de negócio, que hoje inclui o setor de serviço como algo que agrega valor e fideliza o cliente. Atualmente, se fala de empresas na nuvem, onde se usa a informação desde o consumidor, do comércio eletrônico, do comercio físico, etc., interagindo na cadeia produtiva dele. O que eu estou dizendo é o seguinte: a informação junto ao cliente fica imediatamente disponível para o gerenciamento dos dados, de forma global e se ajusta ao processo produtivo online do empresário. Essa nova sistemática industrial permitirá a produção customizada e com valor agregado e, ao mesmo tempo, em grande escala. É uma revolução na indústria. Produtos quase individualizados, numa estratégia de produção em massa. É a máquina se ajustando à individualidade na cadeia produtiva, integrando com outras cadeias produtivas. Essa última etapa traz também uma outra revolução, como por exemplo as ações do setor têxtil interagindo e integrando-se com calçados, joias, couro, gastronomia, arte, maximizando resultados e otimizando recursos.

No mês em que é comemorado o Dia da Indústria e o mercado tem sofrido uma forte crise, como o sistema indústria tem ajudado os industriais a serem mais inovadores e sustentáveis?

Rafael Cervone – O sistema indústria ajuda integrando os elos da cadeia, trazendo informações globais para o empresário, conectando-o ao que acontece de mais moderno no mundo, ajudando a enxergar oportunidades em outras esferas produtivas, integrando vários segmentos com os maiores centros mundiais de inovação. Muitos desses centros internacionais continuam produzindo tecnologia, inovação e design, porém muitas vezes nos países desenvolvidos onde eles estão inseridos, não é mais possível implantar essa inovação porque esses países se desindustrializaram, principalmente na união europeia, EUA e Japão. O desafio que nós temos agora é de conseguir transferir esse know-how lá de fora para cá, talvez por meio de joint venture com grandes produtores, produzindo aqui no Brasil junto com empresas brasileiras. Sem falar o papel que o sistema indústria tem em defender o País dos nossos próprios governos, que tantas vezes aumentam gastos, impostos, tributos, energia, burocracia, tornando o ambiente de negócios hostil ao empreendedorismo. A defesa tem sido feita no Governo e no Congresso Nacional, como o atual debate sobre a terceirização.