Sistema elétrico vai ter que se adaptar à geração distribuída de energia, mostra workshop na Fiesp

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

A participação cada vez maior da energia das fontes solar fotovoltaica e eólica na matriz elétrica brasileira vai obrigar o Sistema Interligado Nacional (SIN) a se adaptar. Essa foi uma das conclusões do workshop A Operação do SIN com a Expansão das Fontes Intermitentes na Matriz, realizado nesta quinta-feira (24/3) pelo Departamento de Infraestrutura da Fiesp (Deinfra).

Paulo Cézar Tavares, diretor do Deinfra e moderador do evento, apontou a geração distribuída (por exemplo, de fonte solar fotovoltaica numa casa ou numa empresa) como um dos fatores de mudança. “Acredito piamente na geração distribuída”, afirmou. Para ele, já são viáveis a fonte eólica e a fotovoltaica. “E o sistema elétrico vai ter que se adaptar a essa megatendência.”

Tavares defendeu no workshop a correção do que é considerado horário de pico de demanda no sistema elétrico. Ele mostrou que a maior demanda ocorre entre 14h e 15h, mas a sinalização econômica está equivocada, indicando o pico como no final da tarde. “O horário de ponta está fora da ponta”, afirmou. Isso inviabiliza a geração solar fotovoltaica. “Sol é de dia, não é lunar. Jogar a ponta para o horário certo pode viabilizar milhares de empreendimentos distribuídos, com a produção vendida pelo preço mais alto na hora de sua maior geração.” A solução é simples: “Bota a ponta na ponta…”

Leontina Pinto, diretora da Engenho Consultoria, apontou entraves à geração distribuída. “O payback [tempo de amortização do investimento] de energia solar é de 5 a 6 anos, mas consumidor desconhece o produto”, disse. Um desafio é fazê-lo investir em tempos de crise. Também destacou a falta de tradição entre as empresas da área, o que torna interessante a certificação. Disse que grande parte das distribuidoras despreza esse novo negócio, que chama de florescente.

O grande nó está no consumidor, disse. É preciso dar sinais críveis a ele e criar instrumentos que lhe digam como comprar e vender energia. Considera necessário mudar o paradigma, considerando o consumidor parte do sistema.

Momento é agora, afirmou, com redução da demanda, que permite respirar e se preparar para o futuro.

Amilcar Guerreiro, diretor de Estudos de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), também acha que é necessária mudança de paradigma. Até agora o Brasil tem sabido lidar com a intermitência, afirmou, mas se não se antecipar, vai acabar tendo problemas.

A geração eólica, explicou, tem pequena diferença entre geração prevista e verificada (3%) no mês, mas a média diária pode ter diferença de 40%.

Entre dias de muito ou pouco vento, há variações momentâneas de até 100% da capacidade instalada, o que traz problemas para a operação, porque o consumo não para junto com o vento. Melhora muito no conjunto de parques, mas ainda há intermitência, disse. E há muita variação também na geração solar fotovoltaica.

Listou desafios a enfrentar com a participação crescente das fontes renováveis não controladas e revelou que a EPE imagina que na geração distribuída se poderá chegar a 80 MW.

Isso cria um novo mercado. Dez anos atrás, disse, não havia demanda pelo serviço de armazenamento de energia (energy storage). As opções disponíveis são hidrelétricas reversíveis, baterias, geradores/motores de partida rápida, CSP (Concentrated solar power).

Baterias  

Sistemas de armazenagem de energia despertaram o interesse do público no workshop. Tavares destacou que a questão para as baterias no Brasil é custo. Considera que ficará economicamente viável ter no país, em casa, produção solar fotovoltaica e armazenagem, até saindo do grid, mas não é possível prever quando.

Rodrigo D’elia, da AES Brasil, apresentou o que chamou de solução para intermitência, a energy storage, que pode ser usada no Brasil, para qualidade e redução de custo. Lembrou que o crescimento da oferta se dará nos próximos anos em energia eólica fotovoltaica e solar, à taxa de 10% ao ano. Isso torna a operação mais complicada, com necessidade de monitoramento mais rápido.

D’elia disse que baterias de grande escala já são usadas no mundo, e a AES já faz isso há 8 anos fora do Brasil, com plantas em vários locais, com capacidade total de 1,6 GW. No Brasil ainda não há seu uso. O Chile, por necessidade específica, está na frente. Seu uso, afirmou, torna mais gerenciável, mais confiável e menos custosa a matriz.

No Brasil, a AES estuda basicamente a aplicação em unidades consumidoras e numa usina hidrelétrica (um projeto piloto pequeno).

Workshop A Operação do SIN com a Expansão das Fontes Intermitentes na Matriz, na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

A questão da intermitência

Leontina Pinto, diretora da Engenho Consultoria, falou sobre variabilidade no sistema brasileiro. Lembrou que a sazonalidade de água, sol e vento favorece o Brasil, com constância na oferta de energia de fontes renováveis. “Na média, ao longo do tempo, em termos energéticos, o Brasil é um país abençoado.” Mas ressalvou que há a possibilidade de perda de segurança no sistema, devido à distância entre as fontes e o mercado consumidor.

Além de ter energia, é preciso haver qualidade, o que exige planejamento e precificação, defendeu.

Para assegurar sistema de qualidade com 5% de margem de risco, estima a necessidade de 18 GW adicionais de oferta até 2022. Defende leilões por serviços, para o que considera precificação justa, permitindo a sustentabilidade sem risco.

Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), citou os 9,3 GW de capacidade eólica instalada, representando 6,3% da matriz brasileira, número que varia bastante. Conforme a participação dessa fonte aumenta, cresce a preocupação com o operador, mas já são encontradas soluções, disse.

Ressaltou a grande complementariedade entre fonte eólica e hidroelétrica. “A fonte eólica é, sim, muito importante para o sistema e o ajuda muito”, disse, lembrando que sua geração é muito próxima da de Belo Monte.

A expansão da matriz elétrica brasileira vai se dar a partir das fontes renováveis complementares, disse. “É fato.” Por volta de 2025, afirmou, a matriz será a mais renovável e a mais competitiva. Será também a mais segura, pela correlação inversa. Outra vantagem que destacou é a existência de conhecimento muito grande dos planejadores sobre a matriz. “O Brasil segue trajetória muito adequada de política energética, em relação à criação da matriz.”

Simulações

Alberto Francato, professor da Unicamp, explicou o projeto Smart-SEM, de simulação do sistema elétrico nacional com presença de geração intermitente.

Afirmou que o crescimento das fontes renováveis é certa e destacou a boa distribuição geográfica da geração. Traz para a operação o desafio de suprir a necessidade de oferta em grande escala em curto intervalo.

A pesquisa propõe desenvolver software de simulação que emule as regras de despacho e operação do sistema elétrico. Deve avaliar a capacidade do sistema de garantir confiabilidade e identificar necessidade de promover expansão da capacidade de transmissão da rede, expansão da geração ou recursos de armazenamento distribuídos na rede.

É, afirmou, um projeto de P&D que pode trazer novos talentos para o setor elétrico.