Teatro do Sesi-SP: acervo de 50 anos de figurinos é organizado para ser aberto ao público

Isabela Barros

As luzes do teatro já se apagaram e a plateia está em silêncio. Cortinas abertas, o palco vai sendo iluminado e a primeira impressão que se tem do espetáculo é, além da trilha sonora, o brilho da roupa que os atores surgem em cena usando. Para perpetuar esse encantamento, o Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) está organizando o seu acervo de figurinos. Assim, a memória dos 50 anos do Teatro do Sesi-SP poderá ser contada a partir de saias, vestidos, bordados, chapéus, um trabalho que tem como objetivo expor esses itens ao público mais adiante.

Além disso, esses materiais também podem ser vistos no livro Figurinos – Memória dos 50 anos do Teatro do Sesi-SP, organizado pelo cenógrafo e figurinista J.C. Serroni e publicado pela Sesi-SP Editora. Na obra, é possível acompanhar fotos dos figurinos de 41 peças e um perfil dos profissionais responsáveis por eles. O espetáculo mais antigo registrado é Caprichos do Amor e do Acaso, de 1964, e o mais recente é O Homem de La Mancha, atualmente em cartaz.

Responsável pela organização do acervo no Sesi-SP, o agente de Atividades Culturais Leonardo Candido da Silva conta que esse trabalho começou nos bastidores, com funcionários do Teatro do Sesi-SP abrindo as caixas de roupas lá guardadas. Em 2010, esse material começou a ser separado e enviado para o Centro de Atividades (CAT) da instituição na rua Catumbi, no Belenzinho, em São Paulo.

Ao centro, peça vermelha da peça "Caprichos do amor e do acaso". À direita, camisola de "A Falecida" e, à equerda, figurino de "Lampião e Lancelote". Ao fundo, vestidos de “Clarão nas estrelas”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Em 2014, teve início a identificação e a higienização dos figurinos, agora dispostos em araras e cabides. “Temos um acervo de 5 mil peças entre roupas e acessórios”, diz Silva.

Ele explica que foram consultados os programas dos espetáculos para saber a quais deles os figurinos pertenciam. Uma garimpagem que exigiu e exige ainda toda a atenção. “Alguns vestidos apareciam volumosos nas fotos devido às saias colocadas por baixo”, afirma Silva. “Mas, no nosso acervo, sem essas saias, deram trabalho para serem identificados”.

A ideia é, no futuro, disponibilizar esses materiais para consulta pública. “Podemos ser uma referência para figurinistas e profissionais de moda, por exemplo”.

Para isso, está sendo reformada uma sala onde essas peças ficarão expostas. E isso a partir de uma série de cuidados, como o controle da entrada de luz e ventilação especial, com ar condicionado.

Vestidos de diferentes montagens de "A Falecida", de Nelson Rodrigues. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Há mais de um ano vivendo entre vestidos, saias e itens de época, Silva conta que tem um carinho especial pelas peças usadas em O Avarento, de 1966. “Foram as primeiras roupas que eu consegui identificar”, diz.

Os figurinos de O Mambembe também foram destacados. “São muitas peças coloridas, brilhantes, bem feitas”, explica Silva.

Referência nacional

O capricho nas produções a que o agente de Atividades Culturais se refere também é citado pelos figurinistas que já trabalharam em produções exibidas no Teatro do Sesi-SP. “O Sesi-SP talvez seja a instituição, no Brasil, onde há mais incentivo à qualidade das peças, o acabamento é sempre de primeira linha”, afirma o produtor geral da peça Menor que o mundoe diretor da Companhia Cênica Nau de Ícaros, Marco Vettore.

O livro com o registro dos figurinos do Teatro do Sesi-SP: memória. Foto: Reprodução

Produtor de Lampião e Lancelote, Edinho Rodrigues conta que o espetáculo venceu vários prêmios na categoria figurino, entre os quais o Bibi Ferreira em 2013 e o Femsa  de Teatro em 2014. Algumas das roupas inclusive estão registradas no livro publicado pela Sesi-SP Editora.

“As vestimentas do núcleo do cangaço foram muito elogiadas pela fidelidade ao visual dos cangaceiros”, explica Rodrigues. “Além disso, os tons de cobre e prata, com muitos bordados, fizeram a diferença no palco”.

Segundo ele, detalhes assim, pensados com toda a atenção, são uma marca das produções do Teatro do Sesi-SP. “O cuidado é grande com tudo: figurino, cenário, som e assim por diante. Quem trabalha no Sesi-SP tem qualificação, sabe exigir dos artistas”, conta. “Tenho muito orgulho de fazer parte dessa memória”.