MPI 2014: cooperação produtiva estimula a competitividade das empresas

Ariett Gouveia e Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

As possibilidades oferecidas pela chamada cooperação produtiva para as empresas foram debatidas, na tarde desta segunda-feira (26/05), no  9º Congresso da Micro e Pequena Indústria (MPI), organizado pelo Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria (Dempi) da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp). O evento foi realizado no Hotel Renaissance, na capital paulista.

Um dos convidados para discutir o assunto, o professor titular e chefe do Departamento de Engenharia da Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), João Amato Neto, explicou que a cooperação produtiva rende bons frutos desde a década de 1980 em países como os Estados Unidos, Itália e Japão. “As redes de cooperativas formadas por pequenas empresas são formas de desenvolver economias regionais”, disse. “Um impulso para a competitividade das empresas”.

No Brasil, conforme Neto, são boas experiências do tipo as redes de cooperativa de agricultura familiar e as redes de cooperativas solidárias para a pesca em Santa Catarina e as redes de farmácias do Rio Grande do Sul, entre outras iniciativas.

Neto: iniciativas de cooperação em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Neto: iniciativas de cooperação em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Foto: Everton Amaro/Fiesp

De que forma a cooperação produtiva é feita? A partir de ações como “os consórcios de exportação, as cooperativas de crédito, o desenvolvimento de inovação tecnológica, as compras conjuntas de insumos e o compartilhamento de infraestruturas como laboratórios”, entre outras opções.

Para o professor, a lógica é a de “cooperar para melhor competir”.

O poder da multidão  

Segundo a diretora no Brasil da consultoria Mutopo, Marina Miranda, também participante do painel do MPI, é impossível ignorar, hoje, o poder da multidão manifestado por meio da colaboração, das atividades de crowdsourcing, ou seja, da inteligência e cooperação coletivas.

“As mudanças no mercado agora acontecem de forma muito rápida”, explicou ela. “E essa multidão pode nos proporcionar co-criação, compartilhamento, revisão, financiamento coletivo, acesso a informações”, explicou.

Marina: impossível ignorar o poder da multidão. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Marina: impossível ignorar o poder da multidão. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Nessa linha, empresas como a finlandesa Lego, de brinquedos de montar, simplesmente pararam de investir em publicidade. “A Lego agora investe em comunidades, nos clientes como parceiros, desenvolvendo um trabalho colaborativo com os seus fãs”, disse Marina.

Para ela, “em vez de falar, às vezes é melhor escutar”. É o caso, por exemplo, de iniciativas como o Waze, sistema de localização e roteiros para celular. “Eles não têm funcionários nas principais ruas e semáforos”, afirmou. “Todo mundo trabalha para o Waze fornecendo informações, por isso eles são competitivos”.

Ferramentas de colaboração

Fernanda Mascher, gerente da área de ferramentas, aplicativos e enterprise do Google, falou sobre as ferramentas de colaboração. Para explicar melhor a importância dessas ferramentas, ela buscou a definição de produtividade no dicionário e concluiu que ser produtivo é ter na empresa pessoas que utilizem melhor o seu tempo com menos capital investido.

Para a gerente, esse desafio pode ser respondido por meio da tecnologia. “O trabalho costumava ser local. Antes eu saía da minha casa e ia para o trabalho porque era ali que eu tinha todas as informações, as pessoas com quem eu trabalhava estavam presentes e eu desenvolvia a produção. Isso não acontece mais”.

Fernanda: apenas a versão “agora”.  Foto: Everton Amaro/Fiesp

Fernanda: apenas a versão “agora”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Ela destaca que não é apenas uma questão de ler e-mails de casa, mas de ter uma experiência rica de trabalho, com todas as informações necessárias, de qualquer dispositivo. Que seja possível fazer uma conferência por meio de computadores e celulares, com cada pessoa em um lugar diferente. Ou que várias pessoas trabalhem juntas no mesmo documento, sem produzir uma série de versões, apenas a versão “agora”.

“Quantos de vocês conseguem visitar três clientes em uma manhã em São Paulo?”, desafiou Fernanda, que reforçou a necessidade da mudança de cultura das empresas. “A cultura da colaboração tem que vir antes da ferramenta. Se não tem processo, não tem ferramenta que resolva o problema. Só assim as pessoas vão poder colaborar de fato, o que vai aumentar a produtividade.”

Gestão de pessoas

Para tratar de gestão de pessoas, Sergio Nery, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), afirmou que o avanço da tecnologia resultou em um descompasso com a gestão de pessoas. “Há as pessoas que farão as coisas acontecerem, as que acham que já fazem, as que observam, as que se surpreendem quando as coisas acontecem e aquelas que nem saberão o que aconteceu”, brincou.

“O crescimento das pequenas e médias empresas nunca esteve tão associado aos conceitos de grandes empresas, como competitividade, tecnologia, qualidade, meio ambiente, competência gerencial”, afirmou Nery. “É preciso saber gerenciar as competências das várias gerações que trabalham em um mesmo ambiente, para satisfazer um cliente cada vez mais exigente.”

Nery: pessoas que farão as coisas acontecerem. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Nery: pessoas que farão as coisas acontecerem. Foto: Everton Amaro/Fiesp

O professor também falou sobre a necessidade de mudança de cultura. “Quem faz a mudança não é o processo, mas as pessoas. Muitas vezes, pensamos que estamos mudando, mas estamos fazendo tudo do mesmo modo. É preciso quebrar paradigmas”, alertou Nery, chamando atenção para a questão de retenção de talentos.

“Micros, pequenas e médias empresas têm dificuldade nessa guerra de talentos, porque as grandes investem milhões de dólares para buscar e manter essas pessoas, com possibilidade de oferecer melhores salários e oportunidades de carreiras internacionais”, disse o especialista, que ressaltou que a mudança de cultura pode fazer com que as PMEs consigam manter seus talentos por meio do engajamento com a marca.

Nery concluiu sua apresentação deixando algumas reflexões ao público. “Temos uma visão e valores compartilhados para o crescimento? Temos capital humano para crescer? Temos comprometimento e engajamento dos nossos funcionários? É nisso que precisamos pensar sobre a gestão de pessoas.”

O melhor caminho para a mudança

Participante do mesmo debate, o diretor do Dempi Carlos Bittencourt foi outro a defender a cooperação produtiva entre as empresas. “Os próprios colaboradores podem ser divulgadores das ações das empresas nas redes sociais, por exemplo”, disse.

E mais: “É possível até fechar parcerias com a concorrência em áreas nas quais não há competição, como nas atividades de transporte, por exemplo”, explicou.

Segundo Bittencourt, a “informação é o melhor caminho para a mudança”.