Importação, carga tributária e juro alto travam atividade; indústria gravita na estagnação

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A atividade da indústria paulista mostrou outro quadro de estagnação pelo quarto mês consecutivo, reflexo de agressões de várias naturezas, entre elas a mais óbvia e de maior peso que é sobrevalorização do Real frente ao dólar, barateando as importações e travando produção nacional.

A pesquisa Sensor da Fiesp, que mede a percepção dos empresários com relação ao cenário econômico, revela que os estoques do setor produtivo, com 49,7 pontos em julho contra 47,8 no mês anterior, estão perto do equilíbrio, 50 pontos, recuperando a sobre estocagem ocorrida nos meses anteriores.


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Embora a taxa de câmbio seja fator determinante para o desempenho da atividade industrial, Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas (Depecon) da Fiesp, alerta para outras agressões à produção brasileira como o custo do crédito. “Ofendem a indústria diretamente, mas também começam a ofender a demanda.”

“E tem aquele outro ponto que se associa à questão tributária, onde continuam os incentivos concedidos pelos estados às importações”, disse Francini sobre as travas para o crescimento da produção.

O Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria paulista registrou leve queda de 0,1% em junho sobre maio, na série com ajuste sazonal. Sem o ajuste, o índice recuou 0,9% na comparação com o mês anterior.

No acumulado de 12 meses, o nível de atividade da indústria sem ajuste sazonal foi de 4,3%. De janeiro a junho de 2011 o índice acumula variação positiva de 3,4% em relação ao mesmo período de 2010 sem ajuste sazonal

O fraco desempenho apontado pelo indicador sugere uma estagnação da atividade que dura há pelo menos quatro meses. A previsão do Depecon para a expansão da indústria de transformação nacional este ano é de 3% e 3,5% para o INA, considerada modesta.

“Não é estagnação para todos, dentro da estagnação você tem setores que estão caindo e outros que estão se mantendo positivos. Mas a estagnação é a melhor palavra”, pois atinge a maioria dos setores, afirma o diretor do departamento.

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Dificuldade

Compreender a trajetória de perda da indústria requer uma avaliação do passado. Para Francini, o País vem percorrendo esse caminho nas duas últimas décadas, momento em que houve uma deterioração da indústria de transformação, que já correspondeu a 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e hoje responde por 15%.

“Mas por que percorreu esse caminho tão ruim? De certa forma, o Brasil deixou de ter aquilo que os outros países fazem uso: a sua indústria como motor propagador do seu crescimento”, avalia o diretor do Depecon.

A Solução

Para reverter o quadro de fraco desempenho da atividade industrial, a saída é promover a “reindustrialização”. Na avaliação de Francini, esse processo de reconstrução colocaria a indústria como “vetor forte” da economia.

Para retomar o fôlego, a indústria precisa de condições favoráveis como a taxa de juros baixa, facilitando o acesso ao crédito e sustentando o crescimento, carga tributária baixa, e especialmente isonômica, alem de taxa de câmbio amigável.

Na quarta-feira, o governo decretou uma taxação de 1% sobre as operações de derivativos cambiais feitas por investidores brasileiros e estrangeiros no País. A medida pretende conter a desvalorização do dólar.

“É difícil prever o impacto, a extensão. Ainda não sabemos o que isso vai resultar, mas torcemos para que dê certo”, disse o diretor, completando que usar a taxa de câmbio para promover crescimento é válido e uma prática comum de países em fase de expansão.

Condição preponderante ao crescimento da indústria, o juro emperra o desempenho da atividade. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros da economia brasileira, para 12,5% ao ano.

Apesar do aumento, o Banco Central sinalizou nesta manhã que vê melhores perspectivas para a inflação em junho. A postura da autoridade monetária reforça expectativas do fim do ciclo de aperto monetário. “Não deve haver inspiração de crescimento adicional da taxa Selic”, estimou Francini, lembrando que se trata apenas de uma expectativa.