Rastreabilidade sistêmica diminui perdas para indústria, diz especialista

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

O painel de encerramento do seminário “Rastreabilidade de Produtos: A ilegalidade e seu impacto na competitividade da Indústria Brasileira”, realizado nesta quarta-feira (22/10) na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), contou com a apresentação do especialista em segurança de documentos e fraudes em sistemas de pagamentos e gerente nacional de vendas da RR Donnelley, Antonio Rebouças de França Filho, que expôs experiências bem sucedidas aplicadas em diversos segmentos industriais.

Antonio Rebouças de França Filho, da RR Donnelley. Foto: Helcio Nagamine?Fiesp

 

Rebouças destacou que a rastreabilidade ajuda o país a estancar “a sangria que é a ilegalidade” e traz benefícios para as indústrias e para os consumidores.

Para explicar o conceito e a aplicação da rastreabilidade, ele sugeriu uma série de perguntas: “Se o consumidor entrar em contato com a empresa para descrever problema em um produto, quais serão as respostas? Temos ferramentas para verificar se o produto foi realmente produzido por nossa empresa? Quando e onde o produto foi fabricado? Em que fase da produção houve erro? Quem foi que vendeu esse produto ao consumidor final? E o mais importante: quem é esse cliente, quais as características e preferências dele?”

Para o especialista, a resposta a tudo isso está na rastreabilidade, que, hoje, permite uma “singularização” dos produtos.

“O problema é macro mas tem que ser tratado no aspecto do micro”, explicou Rebouças, declarando que, hoje, quem sabe fazer isso está ganhando muito dinheiro e satisfazendo seus clientes.

Se antes o conceito da rastreabilidade levava em conta apenas a origem da matéria-prima e logística, hoje tem o valor adicionado ao marketing do produto e marcas.

Contudo, segundo o especialista, independentemente da tecnologia usada (RFID ou outros sistemas), a rastreabilidade deve ter uma organização sistêmica.  “Além da proteção da marca, ela traz outros benefícios como a prevenção de perdas para empresa. Quem controla sabe o que perde em cada etapa do processo, seja no corte de material na marca, por exemplo.”

O especialista ressaltou que, nesse processo, a garantia de procedência passar ter uma consequência direta, pois o produto passa a ter um ID (código de identificação). “Essa identidade cria uma interface com o consumidor, de ida e volta. Na ida traz a garantia de qualidade e na volta a satisfação do cliente.”

Contudo, segundo o especialista, não basta a rastreabilidade por lote ou por amostragem, como muitas vezes é feito. “Quando se tem rastreabilidade sistêmica, é possível identificar, por exemplo, qual garrafinha de água está com o problema. Você consegue a ter a identidade de cada produto.”

Relação do consumidor

Um dos diferenciais da rastreabilidade sistêmica é que ela pode embasar toda a relação da indústria com o consumidor. “Essa relação em cadeia é analisada pelo pessoal do Marketing como ‘sell-out’, pois o consumidor direto muitas vezes tem uma relação direta com o ponto de venda e não com a indústria”, explicou.

Rebouças destacou que a Logística Reversa permite que as indústrias não sejam penalizadas por um produto que elas não tenham feito. No futuro, o ideal é que quando um consumidor digitar o ID de um produto possa saber em qual local esse produto poderá ser descartado.

“A relação de trade marketing com relação direta com a indústria pode ter um ganho de marketing também via internet, trazendo interface com o consumidor”, avaliou.

Exemplificando como a rastreabilidade sistêmica pode ser usada nas estratégias de marketing de uma empresa, ele citou uma loja da marca Companhia da Moda que visitou e que tem sua porta um painel com um QRCode. Ao acessar esse código com seu smartphone, ele conseguiu ver na tela o site empresa. Em seguida lhe é solicitado o preenchimento de algumas informações de sua preferência. “Este é um exemplo simples, mas, em lojas nos Estados Unidos, isso vai muito além, pois se a vendedora da loja consegue visualizar minha localização dentro da loja, pelo celular, pode me indicar os produtos que mais me interessam.”

Outro ponto destacado pelo especialista é que a rastreabilidade engloba e registra diversos controles de qualidade, via consumidores, e gera indicadores, ajudando nas tomadas de decisões de diversas áreas de uma empresa.

Para todos produtos

O ID pode ser marcado em produto de qualquer tamanho, afirmou Rebouças. “Se o produto for muito pequeno pode ser usado nanotecnologia; se for um produto mais delicado poderá ser usado holografia, ou outras tecnologias, mas, sem dúvida, sempre haverá um verificador, isto é um ID do produto.”

Entre os exemplos bem sucedidos ele destacou o Selo de Pureza Abic da Associação Brasileira do Café, que buscou o controle de qualidade por rastreabilidade, inicialmente por lotes.

Também citou a rastreabilidade de medicamentos, já normalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e que será obrigatória a partir de 2015, usando a tecnologia matriz. “Há laboratórios que já estão antecipando a incorporação desses sistemas pois também visualizam os ganhos em termos de marketing.”

Outro exemplo bem sucedido citado é o de uma indústria automobilística que, há cinco anos, aplicou a rastreabilidade nas caixas de câmbio de seus veículos. Segundo ele, o consumidor percebeu o benefício da tecnologia e optou por pagar mais pelo produto. A marca Lacoste, com o uso da rastreabilidade, obteve redução de 50% dos custos de produção e ampliou os ganhos em produtividade.

Segundo o especialista, o uso de rastreabilidade sistêmica é bastante utilizado no mercado internacional. “Por questão de segurança, depois dos atentados do 11 de setembro, para exportar para os EUA é obrigatório ter rastreabilidade”, afirmou o especialista, citando o certificado de origem da Fiesp, como um exemplo que permite atestar a origem dos produtos.

Ele destacou também a certificação digital que ajuda nesse processo de sistematização das informações e elogiou iniciativas como a da Fiesp em ajudar as associações setoriais em disseminar informações relevantes, como o controle da pirataria e rastreabilidade de produtos, entre as indústrias.

Ao final do evento, que com a presença do vice-presidente da Fiesp e do diretor titular do Departamento de Segurança (Deseg) da entidade, Ricardo Lerner, foi aberto um espaço para debates e perguntas dos participantes aos palestrantes.