A ignorância e a prepotência nos leva ao fundo do poço social e político, diz Marcia Tiburi

Raisa Scandovieri, Agência Indusnet Fiesp

A escritora Marcia Tiburi abre a temporada de bate-papos do InteligênciaPontoCom, encontro mensal promovido pelo Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) para aproximar o público dos principais pensadores e artistas da cena cultural brasileira.

Com entrada gratuita, o encontro desta terça-feira (31/3) com Marcia Tiburi começa às 20h no Espaço Mezanino do Sesi-SP, na Avenida Paulista.

Leia entrevista concedida pela escritora:

Em uma entrevista para o G1 você disse que “as pessoas temeram a complexidade do pensamento e abdicaram de pensar por conta própria. Hoje, esta vontade de pensar, de entender, se renova. Eu faço o que quero em termos de filosofia”. Você acredita que essa renovação permanece e é uma tendência no mundo? Como isso pode influenciar na nossa sociedade como um todo?

Marcia Tiburi: Naquele contexto a questão era o interesse das pessoas por filosofia, interesse que a meu ver permanece. Houve um momento em que esse interesse pareceu moda, sobretudo porque programas de televisão, rádios e jornais deram espaço ao campo da filosofia e aos filósofos. Mas há muito interesse por filosofia para além do que é publicitado. No entanto, a tendência autoritária dos meios de comunicação de massa, cujas brechas à liberdade de expressão são cada vez mais raras, evitam a filosofia hoje. Penso que as forças coabitam. Que há desejo de pensamento contra a ignorância e ignorância contra o desejo de pensamento. Verdade que, pelo estado social, econômico e político em que vivemos, temos tudo para fazer uma interpretação pessimista da realidade, mas não creio que esse julgamento esgote uma interpretação atual da sociedade. Fato é que, sem pensamento reflexivo, crítico e voltado ao diálogo que nos ensina a ouvir o outro, caímos cada vez mais na barbárie. Essa sociedade em que direitos básicos não estão assegurados, é uma sociedade sem futuro enquanto sociedade.

Você acha que na nossa sociedade, marcada pela cultura do trabalho e do lucro, o tempo do ócio criativo, do pensamento em si, perdeu espaço?

Marcia: Isso que estamos chamando de “nossa sociedade” refere-se à sociedade brasileira atual, mas também às sociedades capitalistas de um modo geral. Nessas sociedades não se visa apenas o lucro. Poderíamos discutir o significado do lucro. O que caracteriza essas sociedades é o abandono real da dimensão sócio-política, a aniquilação da noção de sujeito de direito e de cidadania. A dimensão sócio-política perde lugar para a econômica. O uso do tempo é voltado a um tipo de trabalho que não realiza as pessoas. A devoção ao dinheiro, ao capital, destrói a dimensão subjetiva de nossa existência. Podemos dizer que a ausência de criatividade é destruída junto com a destruição do tempo livre das pessoas porque essa destruição é a destruição da subjetividade. Mas é mais sério ainda. Perder a complexa dimensão do tempo, que não se esgota na duração, que é sempre experiência vivida, da qual o ócio é uma espécie de abertura radical, é aniquilar a vida. O ócio, nesse contexto, não existe. Não existindo o ócio pode parecer que não existe o pensamento livre. Mas creio que somos capazes de perfurar o sistema e inventar o pensamento apesar da falta de tempo para pensar. Essa é uma das utopias nas quais vale a pena investir energias e esforços.

Cada pensamento é diferente de acordo com cada sociedade, mesmo que estejamos inseridos em um contexto globalizado?

Marcia: A história da filosofia é a história do desejo de um pensamento que vá além do senso comum, do imediato. Quando falamos de pensamento em filosofia, falamos de método, ou seja, do caminho, ou melhor ainda, do processo pelo qual pensamos. Como conhecemos o pensamento? Pela linguagem que o expressa. Mas isso não quer dizer que o pensamento venha antes da linguagem. Ele acontece junto com a linguagem. E a linguagem não é uma coisa, não é uma espécie de software, mas é o todo que envolve nosso corpo e nossa experiência. No entanto, o conteúdo dos pensamentos, esse sim, se modifica nas culturas, ideologias, visões de mundo e valores morais.

Você acredita que o excesso de informações, como o provocado atualmente pelas mídias sociais, pode estimular ou inibir o livre pensamento? As pessoas se tornam mais superficiais em suas análises ou esse turbilhão de dados estimula o debate?

Marcia: Ainda não é possível saber no que estamos nos tornando em termos ontológicos, ou seja, do que somos essencialmente, em meio a essa experiência com as microtecnologias eletrônicas e de comunicação. O ser humano é hoje o animal que, diante da tela, perde a sua animalidade, perde o seu corpo. O importante nesse contexto é pensar na diferença entre conhecimento e informação, pois não são a mesma coisa.

Para você, quais os maiores desafios relacionados ao pensamento hoje?

Marcia: Produzir pensamento crítico e reflexivo que possa combater a queda no fascismo. A ignorância aliada à prepotência nos levam ao fundo do poço social e político.

Você que propôs o tema dessa edição. De onde surgiu essa ideia e por quê você quis falar de pensamento, especificamente?

Marcia: Na verdade, foi em uma troca de mensagens com Sueli que surgiu o tema. Na verdade, Sueli queria saber em que âmbito eu me encaixava. Eu poderia ter ficado na literatura, em função da minha obra ficcional. Mas fechamos em pensamento que é, a meu ver, uma área, um campo. Filosofia é seu sinônimo especializado.