ENTREVISTA: RAFAEL LUCCHESI FALA SOBRE JOVENS, EDUCAÇÃO E MERCADO DE TRABALHO

Foto de José Paulo Lacerda

Por Karen Pegorari Silveira

Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), sugere como é possível contribuir com a inclusão de jovens no mercado de trabalho e na educação, e ajudar a atingir a meta 8.6 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Para ele, o Brasil precisa eleger a educação profissional como política de Estado, entre outras ações.

Leia Mais na íntegra da entrevista:

A meta 8.6 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) sugere que é preciso reduzir a proporção de jovens sem emprego, educação ou formação. Como o Senai, em parceria com as indústrias, têm contribuído com esta meta do ODS?

Rafael Lucchesi – Temos um grande desafio, já que o desemprego entre os jovens no Brasil chega a quase 30%. Com a recente aprovação da reforma do ensino médio, esse cenário poderá se reverter nos próximos anos, a fim de ampliar o acesso à educação profissional, já que apenas 9,3% dos estudantes brasileiros estavam no ensino médio em 2016. Apesar disso, o SENAI vem contribuindo significativamente com grande parte da formação profissional dos jovens brasileiros. A instituição é o maior complexo de educação profissional da América Latina e, desde que foi criado, há 75 anos, formou 71 milhões de brasileiros em 28 áreas da indústria brasileira, da iniciação profissional até a pós-graduação tecnológica. Pesquisa de egressos aponta que a cada dez estudantes formados pelo SENAI, sete conseguem vaga no mercado de trabalho no primeiro ano de formado. Em 2016, o SENAI formou 2,6 milhões de profissionais e esse número deve se expandir nos próximos anos, sobretudo, pelo crescimento da oferta da educação a distância.

Qual a importância da inclusão desses jovens para o crescimento econômico do país?

Rafael Lucchesi – Os jovens bem preparados e com formação sólida são fundamentais para a competitividade das indústrias e para o crescimento econômico por serem uma força de trabalho criativa, com grande capacidade de trabalho, de absorção de conhecimentos e novas tecnologias. É no mercado de trabalho que os profissionais se desenvolvem e adquirem experiência para se tornarem ainda mais qualificados e produtivos. Além disso, a convivência de várias gerações no ambiente de trabalho permite a troca de experiências e conhecimentos indispensáveis à inovação e ao aumento da produtividade nas empresas. No entanto, é importante destacar que só a formação de mão de obra não é suficiente. O desafio é fazer com que o país retome o crescimento econômico para criar empregos. Nesse sentido, é preciso uma agenda mais ampla, que torne o país mais competitivo, com menor custo de financiamento, melhoria da infraestrutura, entre outros fatores.

Quais ações, na sua opinião, são necessárias para diminuir o número de jovens sem emprego e sem formação e atingir esta meta até 2020?

Rafael Lucchesi – O fundamental para o Brasil é eleger a educação profissional como política de Estado, uma forma de oferecer oportunidades de carreira e de renda aos jovens e aumentar a competitividade das empresas. O país gasta cerca de 6% do PIB em educação, acima de alguns países desenvolvidos. Então, não se trata de uma questão de recursos, mas de inserir a educação profissional como projeto de Estado e trabalhar para atingir a meta prevista no Plano Nacional de Educação (PNE).

Países industrializados, como a Alemanha por exemplo, têm aproximadamente 50% de jovens cursando o ensino técnico, enquanto no Brasil apenas 9,3% estão matriculados neste tipo de curso. O senhor acredita que o sistema alemão é o caminho para que o Brasil alcance a meta 8.6 dos ODS? Como este sistema poderia ser aplicado no país?

Rafael Lucchesi – O SENAI foi criado com base no modelo alemão e suíço de educação profissional, inclusive com o modelo de financiamento e institucional semelhantes. É uma experiência que deu certo no Brasil e que, inclusive, colocou o país no topo do ranking mundial no WorldSkills, o torneio de educação profissional do mundo, ficando à frente de países que são referências na área, como a Coreia do Sul e a própria Alemanha. Por isso, acredito que o sistema alemão é uma boa inspiração para construirmos o sistema no país. O maior desafio aqui seria estruturar as escolas levando-se em conta as especificidades desse tipo de formação. É preciso ter escolas de educação profissional que fluam no tempo nas competências que se modificam. Todos os principais estudos mostram que governos em todo o mundo têm dificuldade de responder aos desafios da educação profissional, que possui uma questão fundamental: formar pessoas com a habilitação exigida pelo mercado de trabalho, que se modifica muito rapidamente.

Para diretor do Senai Nacional, educação profissional ‘ainda é uma realidade de poucos’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

Há um paradoxo entre a opinião da sociedade brasileira em relação à formação profissional e a realidade da participação efetiva neste tipo de ensino.  A opinião é de do diretor geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Rafael Lucchesi, durante a coletiva de imprensa que apresentou a Olimpíada do Conhecimento 2014, na manhã desta quinta-feira (31/07), no Hotel Tivoli, em São Paulo.

“Atualmente, apenas 6% dos jovens brasileiros, até 25 anos, cursam educação profissionalizante, enquanto que nos países desenvolvidos este número é de 35%”, afirmou Lucchesi.

Lucchesi:“O desafio é importante: temos que treinar e qualificar milhões de trabalhadores que estão na indústria e milhões de jovens que estarão amanhã na indústria”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Essa porcentagem, segundo ele, representa apenas 10% da população brasileira, contra 48% da população de países desenvolvidos.

“Países como Finlândia, França, Alemanha, entre outros, possuem índices extremamente elevados, o que influencia fortemente na produtividade do trabalho”, destacou.

Mas  o que chama atenção é que pesquisas realizadas pelo Senai indicam que a população brasileira aprova o ensino profissionalizante. “Atualmente, 90% da sociedade brasileira reconhece que o ensino técnico cria oportunidades no mercado de trabalho”, destacou Lucchesi, ao acrescentar que 82% acreditam que ensino profissional melhora a remuneração.

Para ele, isso é um paradoxo.  “A educação profissional emancipa oportunidades de carreira estável e inserção no mercado de trabalho. É um diferencial importante.”

Competitividade

Durante sua apresentação, Lucchesi falou sobre a agenda da CNI apresentada aos candidatos à presidência da República, nesta quarta-feira (30/08).

“Um item fundamental nesta agenda é a produtividade”, disse, acrescentando que a produtividade média de um trabalhador brasileiro corresponde a 20% da apresentada, em média, por um trabalhador dos Estados Unidos.

De acordo com ele, a indústria se moderniza, investe, adota equipamentos mais modernos e isso modifica o perfil do trabalhador. “O desafio é importante: temos que treinar e qualificar milhões de trabalhadores que estão na indústria e milhões de jovens que estarão amanhã na indústria”, disse.

“A indústria brasileira, para avançar e gerar empregos, precisa ser forte e competitiva”, concluiu.

Olimpíada do Conhecimento

Lucchesi: Olimpíada existe para repensar o nosso sistema educacional e redimensionar sonhos para a grande maioria da população brasileira. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo o diretor geral, o Senai está absolutamente comprometido com o ensino profissional.

“Em 2010, tínhamos dois milhões de matrículas e houve um enorme esforço para ampliar a capacidade de formação de pessoas. Encerraremos 2014 com quatro milhões de alunos matriculados em todo o país”, disse.

Na opinião de Lucchesi, o Senai vem ao encontro com uma indústria que se moderniza e se amplia.

“O Brasil é um dos poucos países emergentes com um parque industrial amplo. Por isso a necessidade de estabelecer padrões de excelência técnica para estimular a produtividade da indústria brasileira, a fim de torná-la mais competitiva.”

Nesse sentido, o diretor geral enxerga a Olimpíada do Conhecimento com um papel fundamental.

“A competição é de uma significância maior, no sentido de cidadania, de equidade social. Ela existe para repensar o nosso sistema educacional e redimensionar sonhos para a grande maioria da população brasileira. Não há nada mais dignificante do que isso”, afirmou.

Parceria internacional

Para o diretor geral do Senai, a parceria com o WorldSkills é muito importante. “Nós temos aprendido muito com padrões de excelência da WorldSkills e isso é fundamental para assegurar a competência técnica que o Senai tem”, disse.

“Nossa meta é trabalhar em todas as 48 ocupações da WorldSkills. E nosso objetivo é que, na soma das medalhas e dos pontos, possamos alcançar a primeira colocação”, afirmou.

Na opinião de Lucchesi, o Senai e o Brasil são fundamentais para o conceito da etapa internacional. “O Brasil, representado pelo Senai, é uma grande força dentro da WorldSkills”, encerrou.

CNI e Senai apresentam nova edição da Olimpíada do Conhecimento

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Departamento Nacional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) apresentaram na manhã desta quinta-feira (31/07), no hotel Tivoli, em São Paulo, em coletiva de imprensa, a edição 2014 da Olimpíada do Conhecimento.

O embaixador da Olimpíada, Luciano Huck, com alguns dos alunos que irão participar da competição. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Maior competição de educação profissional das Américas, a Olimpíada do Conhecimento chega à oitava edição a partir de 31 de agosto, data da solenidade da abertura, com atividades até 7 de setembro, quando estão programadas as cerimônias de premiação e encerramento, na cidade de Belo Horizonte (MG). A disputa contará com mais de 800 competidores e deve atrair cerca de 300 mil visitantes no ExpoMinas, na capital mineira.

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Para o presidente da CNI, Robson Braga, a grande importância de um evento como a Olimpíada do Conhecimento é a oportunidade de os jovens mostrarem o seu talento para os empresários.

Robson Braga: objetivo é que Brasil conquiste a primeira colocação na WorldSkills 2015” Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“Na Olimpíada, está cheio de ‘olheiro’ da indústria, que buscam os melhores talentos e procuram aqueles que podem fazer a diferença na indústria e em alguma atividade empresarial”, disse Braga no evento que contou com a presença do diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Rafael Lucchesi, e o apresentador  Luciano Huck – nomeado embaixador da competição.

“Eu tenho certeza de que faremos da Olimpíada do Conhecimento 2014 a maior de todas, e preparar os jovens para a etapa internacional, pois nós temos um único objetivo: sermos os primeiros colocados na WorldSkills 2015”, acrescentou, referindo-se ao torneio considerado o campeonato mundial no setor.

Entre as dezenas de convidados do evento  estavam a diretora regional do Senai-SP, Débora Cypriano Botelho; o diretor técnico do Senai-SP, Ricardo Terra; e o diretor de relações externas do Senai-SP e vice-presidente do WorldSkills, Roberto Spada.

Mudança de cultura

Em seu discurso, Braga destacou a importância da educação profissional para a indústria. “Há alguns anos, nós da indústria achávamos que se atualizar era uma questão de ter máquinas modernas e preparadas, processos estruturados e uma gestão competente. Hoje, temos certeza absoluta que tudo isso é importante. Mas se não tivermos profissionais capacitados que, muito mais que preparação técnica, tenham comprometimento com a indústria e com o desenvolvimento da nação, não vamos dar o salto de qualidade e competitividade que precisamos”.

Além da necessidade constante de inovação, segundo o presidente da CNI, a indústria convive com exigência dos consumidores, que buscam produtos de melhor qualidade e com preços mais competitivos.

“O Senai não prepara apenas bons profissionais, competentes e preparadas do ponto de vista de tecnologia para trabalhar na indústria; mas prepara o cidadão brasileiro e pessoas comprometidas com o setor da indústria brasileira e com o desenvolvimento do país”, afirmou Braga.

“Os alunos do Senai são pessoas que podem transformar o Brasil em uma grande nação, inserida num contexto mundial cada vez mais competitivo”, destacou.

Hoje, conforme números apresentados na coletiva, o Senai chegou à  marca de 4 milhões de matrículas em todo o Brasil, atraindo jovens entre 16 aos 21 anos, inscritos nos diversos cursos da instituição.

“Hoje, 67% dos cursos oferecidos pelo Senai são gratuitos”, informou o presidente da CNI ao destacar que o objetivo é que os jovens saiam do Senai como “cidadãos que possam contribuir para esse desenvolvimento”.

Braga destacou ainda o programa da Região Amazônica, onde há dois navios do Senai para atender os jovens que moram nas cidades ribeirinhas e não têm como estudar.

“Há 24 mil vagas para que esses jovens também possam participar de alguma atividade industrial”,  afirmou, assinalando que esses navios oferecem uma série de atividades profissionalizantes para proporcionar dignidade e melhorar a qualidade de vida.

Braga ressaltou que é a indústria brasileira quem contribui com recursos financeiros para que o Senai possa participar dessa qualificação.  Um retorno positivo, avaliou, já que, “85% dos jovens que fazem algum curso no Senai saem empregados na indústria brasileira ou em alguma atividade econômica do país”.

“A grande maioria dos nossos jovens são muito valorizados. Todo país forte e rico tem uma indústria forte e competente”, disse.

Programação especial

Paralelo à Olimpíada do Conhecimento haverá uma série de eventos sobre educação e tecnologia. Entre eles, “Uma profissão, uma escolha (01/09); “Festival Internacional de Robótica FLL” (02 a 04/09), “Brasil Fashion” (03 e 04/09), “Exposição Indústria do Futuro”(03 a 06/09), Inova Senai (03/09) e “Praça do Conhecimento”(23/08 e 24/08 e 30/08 e 31/08).

Indústria brasileira vai demandar 7 milhões de profissionais capacitados, afirma diretor do Senai Nacional

Edgar Marcel Agência Indusnet Fiesp

No Brasil, menos de 15% dos 24 milhões de jovens brasileiros entre 18 e 24 anos chegam ao ensino superior, ou seja, apenas 3,4 milhões ingressam na universidade. Mais de 20 milhões deste público podem buscar outro caminho profissional.

Os dados apresentados nesta quinta-feira (20/09) por Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) Departamento Nacional, durante a coletiva de lançamento da Olimpíada do Conhecimento 2012, fazem parte do Mapa do Trabalho Industrial – levantamento da necessidade de profissionais entre 2012 e 2015, feito pela entidade. Segundo Lucchesi, mais de 7 milhões de trabalhadores qualificados serão demandados no período.

Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai Departamento Nacional. Foto: Everton Amaro

Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai Departamento Nacional

“Historicamente, nosso sistema educacional não fez um grande investimento em educação profissional, por isso temos esses números tão desbalanceados. A média dos países desenvolvidos integrantes da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] mostra que metade dos alunos ficam na educação geral e metade em educação profissional”, informou Lucchesi.

O diretor explicou que, no Brasil, esse índice cai drasticamente: 6,6% dos jovens de 15 a 19 anos fazem educação concomitante entre educação geral e educação profissional. “Algumas iniciativas de políticas públicas têm melhorado isso, como a expansão da rede de escolas federais e o Pronatec [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego], um programa importante de expansão da educação profissional do qual o Senai é parceiro”, ressaltou.

Cultura do bacharelado

Para Lucchesi, o sistema educacional brasileiro é muito voltado para uma lógica acadêmica. “No Brasil se criou uma cultura do bacharelado. Mais de 15% da população vai para a universidade por não ter um projeto de vida social e uma boa educação profissional.”

Ele destacou que o mercado de trabalho para os profissionais de nível técnico remunera bem, e que há uma onda jovem crescente da nova classe média, que cada vez mais se afirma com carteira de trabalho assinada e educação profissional. “Em 21 ocupações, o salário inicial é de 2 mil reais. A média gira em torno de 6 mil, podendo chegar, em alguns casos, a 8 mil reais”, revelou Rafael Lucchesi.

“Os salários são maiores do que as de muitas profissões de nível universitário, e é importante haver este nível de informação para a juventude e para as famílias, que a educação profissional pode ser, sim, uma excelente aposta de futuro”, completou o diretor-geral do Senai.

Expansão

A pesquisa ‘Mapa do Trabalho Industrial’, segundo Lucchesi,  é uma das maiores e mais intensas experiências de identificação no mapa de trabalho no Brasil. “Isso é extremamente importante para coordenar as ações de expansão futura no nosso sistema, que está se expandindo aceleradamente, e atender melhor aos principais vetores de expansão de desenvolvimento da indústria brasileira”, assinalou.

“Correlaciono isso com a Olimpíada do Conhecimento, para que as duas pautas estejam associadas à principal agenda empresarial do Brasil e à principal agenda do projeto de país, que é a competitividade. É importante relacionar estes temas no mapa do trabalho industrial brasileiro”, pontuou.