Brasil tem modelo pronto para impulsionar energia nuclear

Mariana Ribeiro, Agência Indusnet Fiesp

Carlos Cavalcanti, diretor do Deinfra. Foto: Alberto Greiber Rocha

Apesar de a fonte termonuclear representar 16% da produção mundial de eletricidade, no Brasil sua participação ainda é modesta. O País produz cerca de 400 toneladas de urânio por ano, para atender às usinas de Angra 1 e 2, enquanto o volume global atinge a marca de 51 mil toneladas anuais.

O Programa Nuclear Brasileiro propõe que, até 2030, sejam construídas de quatro a oito novas usinas, além de Angra 1, 2, e 3 – esta última deverá entrar em operação comercial em dezembro de 2015, com investimentos de R$ 9,2 bilhões.

“O Brasil é um dos poucos países que têm a tecnologia para todas as fases de enriquecimento, geração e guarda do combustível. Mas o fato de se construir uma usina a cada 15 anos aponta para deficiências no nosso programa nuclear”, afirmou Carlos Cavalcanti, diretor-titular do Departamento de Infraestrutura e Energia da Fiesp, na abertura do 1º Encontro de Negócios de Energia Nuclear, nesta terça-feira (23).

O evento foi organizado em conjunto pela Fiesp/Ciesp, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) do Ministério da Ciência e Tecnologia e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).

O diretor defendeu a adoção do modelo do setor elétrico, reformulado em 2003, para dar consistência ao desenvolvimento da energia nuclear no País. Desde o apagão energético em 2001, sublinhou Cavalcanti, o Brasil saltou à frente da média mundial e dos parceiros do Bric – Rússia, Índia e China – em oferta de energia.

“A remodelagem revolucionou o setor em quatro ou cinco anos. Isso se deveu à capacidade do Estado em planejar energia, o formato dos leilões – colocando em igualdade empresas públicas e privadas – e o respeito ao consumidor, com o critério da menor tarifa. Temos um modelo pronto, que pode funcionar para toda a infraestrutura”, frisou Cavalcanti.

Agenda

Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Foto: Alberto Greiber Rocha

Os projetos do Programa Nuclear Brasileiro (PNB) somam um total de R$ 50 bilhões nos próximos 20 anos. Segundo o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Odair Dias Gonçalves, o principal objetivo da agenda é internalizar gastos com o desenvolvimento de tecnologia própria.

Estudo inédito realizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) identificou inúmeros serviços, matérias-primas e equipamentos que deverão ser fornecidos ao setor nuclear por empresas nacionais e estrangeiras, com a retomada do PNB.

“Sabemos que a empresa nacional está capacitada para isso. É uma oportunidade de sair da esfera governamental e trazer novos personagens para esse cenário. Há um campo enorme para as pequenas e médias empresas participarem”, garantiu Odair Gonçalves.

A participação privada na geração de energia termonuclear é exatamente o pleito da Fiesp/Ciesp para impulsionar o setor. Pelo artigo 21 da Constituição, a União detém o direito exclusivo sobre toda a cadeia do urânio, da exploração à produção de energia.

“Não há porque a iniciativa privada não possa financiar a geração de energia de fonte termonuclear. Em absoluto isso se confunde com o ciclo do combustível, que é estratégico e de segurança nacional, e isso não se questiona”, ressaltou Carlos Cavalcanti. “Mas se dependermos exclusivamente do investimento estatal, avançaremos em velocidade muito lenta”, emendou o diretor da Fiesp.

Leonam dos Santos Guimarães, da Eletrobrás Eletronuclear. Foto: Alberto Greiber Rocha

A agenda do setor nuclear promete movimentar toda a cadeia nacional de suprimentos. Segundo Leonam dos Santos Guimarães, da Eletrobrás Eletronuclear, a indústria brasileira tem mercado garantido nesse filão: Angra 2 teve um índice de nacionalização de 50,4% – a taxa saltou para 54% em Angra 3, que já iniciou a fase de concretagem.

“Para os próximos projetos, nossa meta é que 70% dos investimentos em bens e serviços sejam gastos no Brasil”, garantiu Guimarães.