Fraldas para prematuros extremos criadas no Senai-SP recebem apoio para chegar ao mercado

Isabela Barros

Nos cinco anos em que trabalhou numa UTI Neonatal, a enfermeira Lia Souza Costa era uma das encarregadas de cortar fraldas descartáveis para adaptar ao tamanho dos bebês prematuros. No improviso, essas peças ficam sem a proteção lateral dos modelos tradicionais, provocando vazamentos, e ainda podem machucar esses recém-nascidos, já que os adesivos colocados para segurar o acessório ficam em contato direto com a pele sensível deles. E isso para não falar dos riscos de contaminação trazidos pelo próprio manuseio. Foi com essas ideias em mente que, tão logo entrou no curso técnico em Vestuário do Serviço Nacional de Aprendizagem de São Paulo (Senai-SP), Lia pensou em desenvolver um produto específico os pequenos que nascem antes da hora, com peso entre 500 gramas e 1 quilo.

Assim, os chamados prematuros extremos ganharam fraldas específicas. Com projeto da enfermeira e da aluna do Senai-SP Marcia Boyko, sua parceira na iniciativa, essas peças foram feitas de TNT e fibra natural, sendo totalmente adaptadas ao tamanho e às necessidades desses bebês. A ideia deu tão certo que venceu o concurso de planos de negócios Liga dos Campeões, organizado pela Endeavor, a maior ONG de empreendedorismo do mundo. Como prêmio, as alunas do Senai-SP ganharam um ano de mentoria, sendo orientadas com o objetivo de produzir as fraldas, que podem chegar ao mercado no futuro.

“Durante esse processo, já recebemos vários e-mails de pessoas interessadas em comprar as fraldas”, conta Lia.

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As fraldas para prematuros extremos desenvolvidas no Senai-SP. Foto: Divulgação


Hoje aluna da pós-graduação em Produção e Gestão de Negócios da Moda no Senai-SP, ela segue trabalhando como enfermeira e abriu uma confecção especializada em artefatos de cozinha. E sonha em, além de fabricar as fraldas para prematuros, produzir roupas para os pequenos. “São sonhos que eu ainda vou realizar”, diz.

Inova Senai  

O reconhecimento da Endeavor não foi o único que as estudantes da Escola Senai “Francisco Matarazzo” receberam pela iniciativa, que venceu também o concurso Inova Senai em 2014, campeonato que premia projetos inovadores de todo o país.

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A equipe responsável pelo projeto das fraldas comemora a vitória no Inova Senai. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp


Integrante da equipe de inovação encarregada de orientar Lia e Marcia na escola, a professora de Ensino Superior Dilara Rúbia Pereira lembra que as fraldas para prematuros extremos não são adaptadas apenas quanto ao tamanho, mas consideram uma série de critérios, como o formato do corpo dos bebês que nascem antes da hora e a necessidade de manipulação criteriosa na hora da troca, feita pelas enfermeiras apenas encaixando as mãos na incubadora. “Não é só uma adaptação de tamanho”, explica.

Outro ponto importante é o fim do desperdício a partir da oferta de um modelo específico, afinal, adaptando os modelos convencionais, boa parte do material é jogado fora, sem possibilidade de reciclagem por se tratar de lixo hospitalar. “Dois terços da fralda tradicional são jogados fora”, afirma.

Redução de custos

Também integrante da equipe de inovação que hoje trabalha para viabilizar a entrada do produto no mercado, a instrutora de ensino Natália Toledo destaca a redução de custos proporcionada pelas fraldas específicas para os prematuros extremos. “As nossas fraldas saem por R$ 0,75 a unidade, para uma média de pouco mais de R$ 1 das tradicionais”, explica. “Como cada criança fica internada em média 55 dias e são realizadas 12 trocas diárias, são necessárias 660 fraldas, uma economia considerável”, diz.

De acordo com a ONU, todos os anos nascem 340 mil crianças prematuras no Brasil. Hoje, ninguém produz, no país, fraldas específicas para esse segmento.

Dessa forma, para que esse público seja atendido, o projeto nascido nas salas de aula do Senai-SP agora está em fase de contatos com fabricantes de máquinas para viabilizar um equipamento que se adapte às especificidades de produção das peças. “Trabalhamos com inovação em cima de necessidades reais”, afirma Dilara.