‘Prática esportiva representa 1,9% do PIB brasileiro’, afirma professor da FGV durante reunião da Comissão da Cadeia Produtiva do Desporto da Fiesp

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

A reunião do Comitê da Cadeia Produtiva do Desporto (Code) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), realizada no início do mês (03/07), contou com uma palestra do professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-Rio), Istvan Karoly Kasnar.

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Reunião do Comitê de Desporto da Fiesp. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Na ocasião, Kasnar apresentou pesquisa sobre o crescimento da prática esportiva no Brasil. “Procuramos compreender a evolução do esporte no país e analisamos oito modalidades para compreender seus ciclos de vida e em que estágio se encontram, a fim de chegar a uma série de práticas e políticas de decisões”, explicou.

De acordo com o professor, essa pesquisa mostrou que os principais recursos financeiros do Brasil para o esporte advêm de duas fontes: orçamento público e o próprio indivíduo. Para ele, para entender melhor a participação do cidadão na prática esportiva brasileira, seria necessário estudar a fundo a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). “Essa seria a melhor maneira de fazer uma projeção do gasto esportivo no Brasil”, explicou.

A pesquisa projetou que, em 2010, a prática esportiva representava 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que significa R$ 72 bilhões. “Podemos chegar a valores cada vez maiores”, afirmou professor ao acrescentar que o esporte no Brasil é um setor dinâmico: “nos últimos dez anos, teve um crescimento médio de 5,77%”. E completou: “num processo comparativo com os Estados Unidos, onde esse valor chega a 3,2% do PIB, nossos números ainda são baixos”.

Apesar do cenário positivo, Kasnar alerta para o fato de que esses números são uma ‘subestimativa’, pois, segundo ele, o mapeamento do setor esportivo no Brasil é muito complicado. “Esse é um setor que cresce acima da média e evolui com firmeza, mas é preciso tomar cuidado, pois é uma área que possui características muito diferentes internamente”.

Com base nessa pesquisa, o professor afirmou que, no ano 2000, o futebol representava 62% total do movimento financeiro de prática esportiva no Brasil, seguido pelo vôlei, com 17%, e pelo basquete, com 8%.

Na opinião de Kasnar, embora o esporte coletivo seja diferente do individual, eles possuem muitos denominares em comum. “Há uma diferença colossal entre a prática esportiva profissional, amadora e, também, na indústria envolvida.”

Em sua apresentação, o professor detalhou que, além das modalidades profissionais e amadoras, o universo econômico da prática esportiva engloba a produção de artigos esportivos, como uniformes, sapatos, redes, entre outros, além de diversos serviços especializados, como mídia e jornalismo, agências de jogadores para o exterior, administração de clubes, eventos, arenas, gestão e manutenção de quadras e  academias de ginástica, entre muitos outros. “O mundo esportivo é muito amplo e requer cuidado para entender como funcionam suas práticas.”

Grandes eventos

Na opinião de Kasnar, boa parte das atividades esportivas está associada aos megaeventos da área que têm o Brasil como sede, desde os Jogos Pan-Americanos (2007), passando pela recente Copa das Confederações (2013), incluindo a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro (2016). “Há uma maior conscientização em relação à necessidade da prática esportiva, pois se criou a relação forte entre qualidade de vida, bem-estar e esporte. É normal que num processo de crescimento de megalópoles, a população passe a praticar algum tipo de esporte, seja pela saúde, seja pela sociabilidade, ou outros motivos”, explicou.

Segundo a apresentação do professor, em 2008, 61% da chamada classe alta – com renda familiar acima de R$ 4.500,00 – praticava exercícios por afirmarem saber que lhes fazia bem à saúde. “Isso significa que ainda há 39% deste nicho a ser conquistado”, afirmou. Já na classe baixa – com renda familiar inferior a R$ 980,00 –, esse índice era de 42%. No quesito da prática de esporte por diversão e lazer, a classe baixa representou 63%, contra 54% da classe alta. “Existe um potencial de expansão bastante significativo”, acrescentou.

Futebol

Na opinião do professor da FGV, o futebol é um esporte de massa, para as massas e com as massas. “E o único esporte que mobiliza o brasileiro a ser pautado a uma ascensão social. É um caso excepcional no setor esportivo do país, com poderes monopolistas de resultados”, afirmou, acrescentando que o futebol, no Brasil, já saiu do status de esporte para ser considerado oficialmente um patrimônio publico. “É um patamar que os outros ainda não alcançaram”, disse.

Kasnar explicou que a separação do futebol nas análises do setor já é um assunto em pauta, mas que a situação ainda é complexa, pois envolve diversos setores, como regulamentação e legislação. “Ainda há muito que fazer”, concluiu.

Esporte, indústria e educação

O professor da FGV destacou a importância da reunião para dar uma visão empresarial ao mundo do esporte, com a ajuda da indústria. “Esse é um passo importante para uma melhor conscientização dessa relação. Percebemos muitas conexões desse mercado esportivo com a indústria brasileira”, afirmou, mencionando, em seguida, cadeias produtivas relacionados à beleza e à cultura no Brasil. “Isso nos ajuda a compreender como o brasileiro enxerga a atividade esportiva”, completou.

O coordenador-adjunto do Code e presidente da Associação Brasileira da Indústria do Esporte (Abriesp), Mauricio Fernandez, concorda. “O setor esportivo envolve diversas cadeias produtivas como saúde, turismo, projetos sociais, terceiro setor, direito esportivo, etc.”, afirmou, ressaltando a oportunidade de marcado para as pequenas e médias empresas. “Existe uma demanda das pequenas e médias empresas que querem diferenciar seus investimentos. É preciso de uma melhor análise setorial para que elas sejam mais efetivas no viés de produção”,

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Mario Eugenio Frugiuele: vincular o esporte à educação é caminho para mudança de panorama.Foto: Everton Amaro/Fiesp

Para o coordenador-adjunto do Code e 2º diretor-secretário da Fiesp, Mario Eugenio Frugiuele, ainda existe um mercado muito grande nesse setor a ser explorado no Brasil. “A mudança de comportamento dos jovens, com o sedentarismo infantil, por exemplo, pode afetar o setor. Na cultura brasileira, o esporte não é fundamental, não faz parte da vida, pela própria situação de desenvolvimento. Essas são variantes fundamentais para analisar a mudança de comportamento”, afirmou.

Na opinião de Frugiuele, uma solução seria vincular o esporte à educação, a fim de criar um legado de cultura do esporte. Mas ressaltou: “Para isso, será preciso uma mudança estrutural nas escolas”, finalizou.