Potencial Amazônico: riqueza ainda oculta

A Amazônia brasileira abrange nove estados e 25 milhões de pessoas, ocupando 61% do território nacional. Também concentra 20% do total de espécies do planeta na maior floresta equatorial e tropical úmida do globo terrestre, agrupando 16,5 bilhões de genes. Os dados dão a dimensão do trabalho que se tem pela frente e do potencial ainda a ser explorado.

No seminário Oportunidades de Biotecnologia na Amazônia para a indústria brasileira, realizado nesta segunda (26), na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), foram demonstradas as possibilidades de investimento e a riqueza regional, sob a iniciativa do Conselho de Meio Ambiente (Cosema).

Uma das portas de entrada é o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), fruto do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular (Probem), sob a articulação dos Ministérios de Desenvolvimento, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia.

A estrutura do CBA tem 12 mil m² e, após receber investimentos da ordem de R$ 40 milhões nos últimos dez anos, conta com central de produção de extratos, planta piloto para processos industriais, biotério, museu e, ainda, áreas de apoio à inovação e incubadora de empresas, envolvendo o trabalho de aproximadamente 180 profissionais.

Seu trabalho se articula com o Ibama, para pesquisas científicas, e o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen), responsável pela liberação deste tipo de patrimônio para uso comercial.

Segundo Imar Cesar de Araújo, da área de Implementação do Centro, o objetivo é promover a inovação partindo-se de processos e produtos resultantes da biodiversidade amazônica, integrada com universidades e centros de pesquisa públicos e privados. Um ponto de apoio é a Rede de Laboratórios Associados (RLA), que agrega 25 núcleos.

“O Brasil não pode abdicar de sua vocação para os produtos naturais. Temos o maior acervo de biodiversidade do mundo”, alertou Alberto Cardoso Arruda, coordenador de produção extratos, acesso à biodiversidade e planta piloto do CBA.

Arruda traduziu a necessidade de se ter investimentos na área: “A Amazônia não é só Brasil. E preocupa o maior acesso à biodiversidade por parte dos outros países que a compõem (Suriname, Equador, Peru, Bolívia, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Colômbia). Perdemos para eles”, lamentou o representante do CBA. Em sua opinião, o País tem muito ainda o que fazer nesse sentido.


Incentivos federais e estaduais

O Polo Industrial da Amazônia (Pim) assume estrita importância devido à exploração adequada da biodiversidade mais a agregação de valor em toda sua cadeia produtiva, conforme avaliou Elilde Mota de Menezes, representante da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Nesse sentido, o modelo de desenvolvimento regional contempla incentivos para a indústria na esfera federal, por exemplo. Entre eles:

  • Os impostos sobre importação que sofrem retração de 80% sobre os insumos destinados à industrialização;
  • A isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI);
  • As alíquotas zero do Programa de Integração Social (Pis) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), nas entradas e nas vendas internas e de 3,65% (há exceções) nas vendas de produtos acabados para o país.

Mas há a exigência de contrapartidas: gerar empregos regionais, reinvestir parte do lucro na área e apostar na formação e capacitação de recursos humanos para o desenvolvimento científico e tecnológico da região.

Uma das vantagens do CBA é a agilização dos entraves da burocracia e da legislação – o Processo Produtivo Básico (PPB) já foi contemplado.

Ewerton Larry Soares Ferreira, à frente do núcleo de negócios do CBA, explicou que há duas frentes de atuação: como incubadora e como unidade de gestão, apoiando o planejamento e inclusive a captação de recursos para empreendimentos apoiados na biodiversidade e inovação.

“O mundo pede cada vez mais a substituição dos produtos sintéticos por naturais”, disse Ferreira, apontando as múltiplas possibilidades da marca Amazônia.


Mercado promissor

Há oportunidades em diversas frentes:

  • Fitocosméticos (dermocosméticos);
  • Bioterápicos (uso humano e animal);
  • Alimentos funcionais e nutracêuticos;
  • Plantas medicinais;
  • Perfumaria;
  • Corantes e inseticidas;
  • Fitoterápicos e medicamentos.

Antônio José Lapa, da Farmacologia Toxicologia do CBA, frisou que o mercado de medicamentos é um dos maiores da América Latina, com impacto de US$ 8 a US$ 10 bilhões anuais na economia. O País está entre os dez maiores consumidores mundiais de medicamentos. O entrave é o tempo que se leva para o desenvolvimento de novos produtos: cerca de quinze anos.

João Lucio de Azevedo, Coordenador de Microbiologia, apontou outras vantagens, apesar de se conhecer apenas 11% das bactérias que habitam o planeta. O conhecimento aliado à tecnologia é antídoto para o controle de pragas e insetos, auxiliar no desenvolvimento de hormônios vegetais de crescimento e, também, com finalidade antibiótica e anti-tumoral, fundamentais devido à resistência crescente das bactérias e à maior expectativa de vida da população.

Materiais para estudo não faltam. O CBA tem uma coleção de culturas, propiciada pela proliferação de microorganismos em uma área altamente úmida. Há um leque de possibilidades a ser explorado, inclusive minimizando os reflexos negativos de uma história recente: o desmatamento extinguiu 26% da flora e da fauna regional (Fonte: Pnuma, 2006), inserindo outras 644 espécies na lista de ameaçados. Hoje, 35% do gado bovino e 5% das plantações se concentram na região amazônica, antes prioritariamente extrativista.