Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp cria grupo de trabalho para estudar projeto de Museu da Indústria

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Na reunião do Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp (Cosema) realizada nesta terça-feira (26/7) foi implantado um grupo de trabalho para estudar a criação do Museu da Indústria. A sugestão do grupo de trabalho foi feita pelo conselheiro Marcelo Morgado, durante sua apresentação, intitulada “Proposta de Construção de um Museu da Indústria”. O presidente do Cosema, Walter Lazzarini, aceitou na hora a sugestão e indicou os nomes para compor o grupo.

Morgado explicou em linhas gerais o que seria o museu. O acervo deve ser físico, com parte dos objetos em corte, para mostrar seu funcionamento. “Nos museus, as pessoas esperam ver objetos, também destrinchados, mostrados por dentro.” E um foco forte na evolução da tecnologia. Museus, defendeu, despertam talentos. A curadoria deveria majoritariamente ser feita por engenheiros, na visão de Morgado.

Em sua opinião, as indústrias deveriam auxiliar a implantar o museu, apesar das dificuldades. “É possível salvar da destruição muito equipamento, muita coisa.” Uma seção seria reservada à memorabilia da Fiesp e do Ciesp, incluindo objetos do dia a dia, mobiliário e brindes. Também seria realçada a história das entidades – por exemplo, as grandes campanhas promovidas pela Fiesp.

Segundo Morgado, o espaço físico ideal seria uma antiga indústria. Citou como possibilidade de sede a antiga Estação Ciência, que foi fechada e não vai ser retomada. É área pública, do governo do Estado, e tem 8.000 metros quadrados, antes ocupados por uma tecelagem.

Efeito estufa

A reunião do Cosema teve mais duas apresentações em sua pauta. Walter Lazzarini explicou a criação das minipalestras, ideia surgida em razão da grande variedade de temas. “Registro Público e Simulação de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa no Brasil” foi o tema da apresentação do conselheiro do Cosema Aron Belinky, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV Eaesp.

Belinky considera importante que o Brasil não se feche em relação à questão da mudança do clima, para não ficar para trás. O mundo, disse, está se movendo cada vez mais rápido em relação às emissões. Citou o avanço dos Estados Unidos na questão. O mundo está rumando para a economia de baixo carbono rapidamente, enquanto o Brasil parece estar parado.

À taxa atual, só restam 20 anos de emissões para fazer, atingindo o limite de mais 1 trilhão de toneladas suportável pelo planeta. Belinky comentou questão colocada por Celso Monteiro de Carvalho, vice-presidente do Cosema, sobre redução já havida das emissões, pelas forças de mercado e pela conscientização a respeito do problema do clima. Apesar da diminuição da emissão por produto criado, o aumento de volume de produção pressiona para cima as emissões, explicou o professor da FGV. A necessidade de atender ao crescimento da demanda exige aumento da velocidade de redução das emissões.

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Reunião do Cosema, da Fiesp, em 26 de julho, teve três minipalestras. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Lembrou que o que for feito hoje em relação às reduções só terá efeito em 20 ou 30 anos na diminuição da concentração de GEE na atmosfera.

Agricultura (35%) e energia (34%) superaram desmatamento (20%) como maiores emissores de gases do efeito estufa (GEE) no Brasil. Mesmo que indústria não seja um grande emissor sob esse ponto de vista, lembrou Belinky, terá problemas de competitividade, porque produtos de grande teor de carbono serão cada vez menos aceitos.

Nesse cenário, disse que perceberam que não se constrói do dia para a noite uma cultura de redução de emissões. Em 2010 a FGV lançou, depois de trabalho iniciado em 2008, um padrão brasileiro GHG Protocol. Uma de suas ferramentas é um registro público de emissões, para apresentação de seus dados. Tem 1.475 inventários publicados, de mais de 130 empresas (que podem fazer inventários de vários anos e de suas coligadas), com uma área pública de acesso. O sistema, explicou, é voluntário e aberto. Tem sistemas de busca, por formulário e georreferenciada.

O programa, segundo Belinky, capacitou 1.485 gestores desde seu início. Foi feito o download 1.800 vezes da ferramenta de cálculo de emissões.

A partir da criação dessa cultura é possível fazer avanços que vão além do exigido pela regulação, que, segundo Belinky, chega de cima para baixo, de modo descolado do que os agentes podem fazer. Intenção é estimular o uso, para que a regulação seja aderente às práticas empresariais.

Estima que entre 7% e 12% das emissões brasileiras estejam no GHG Protocol. Ele serve, segundo Belinky, como referência para investidores e também para reguladores.

Mercado de carbono

Ter essas informações permitiu lançar a simulação – primeira no Brasil e América Latina – de venda de créditos de carbono. Chamado SCE EPC, tem como conceito simular, treinar “para quando o jogo começar”. Há 30 empresas usando uma plataforma real, com dados reais, mas com moeda fictícia.

A partir do volume de emissões, define-se o cap, o limite, que gera títulos, parte distribuída para os demais participantes gratuitamente e parte que vai para leilões. Empresas podem gerenciar em tempo real suas emissões. Também é possível transacionar para outros setores e ir para o mercado secundário. Belinky disse que houve como efeito do SCE EPC o pessoal de sustentabilidade começar a conversar com o pessoal de finanças, de controladoria.

As 30 empresas que participam representam 9 setores, cobrindo 4% das emissões nacionais de 2014, 44.006.698 tCO2e. Nenhuma se expõe, graças ao uso de pseudônimos. 50% conseguiram conciliar suas emissões – as que não conseguiriam ficariam sujeitas a punições.

Ressaltou que o conhecimento criado tem base não acadêmica, e sim no mercado.

Lazzarini elogiou o fato de serem públicas as informações do sistema.

Poluentes

“Registro de Emissão Transferência de Poluentes – RETP”  foi o tema da palestra da conselheira Claudia Virginia Mistrorigo de Freitas. Explicou que visa a divulgar as emissões de empresas em geral. No Brasil a estrutura é encabeçada pelo Ministério do Meio Ambiente.

RETP deve estar ligado ao cadastro técnico do Ibama e ao relatório RAPP, mas há dúvidas sobre como será implantado na prática. Sua origem é compromisso assumido no 3º Foro Intergovernamental de Segurança Química.

Há tendência grande disso ser implantado o quanto antes, disse, citando a legislação sobre o tema, incluindo o que há na Constituição.

A partir de 2017 o RETP será obrigatório para organizações elegíveis, o que depende das substâncias emitidas ou transferidas pela organização. Há 194 poluentes listados, de 7 categorias.

Para elaborar um RETP, a empresa precisa criar um sistema de coleta e rastreamento de dados e designar um ponto focal, responsável por requisitar as informações e organizá-las, arquivando-as para permitir futuras comparações. Deve depois identificar as emissões e transferências. Escolher métodos de cálculo para as quantificações, quantificá-las, elaborar o RETP e submeter via site do Ibama. Claudia Freitas disse que há muitas dúvidas e dificuldades.

Lazzarini mostrou preocupação com a questão. Burocracia crescente afeta a indústria, lembrou. Pediu a Claudia auxílio, na identificação das dúvidas, para ajudar no trabalho já feito pelo Departamento de Meio Ambiente da Fiesp em relação ao RETP.

Mario Hirose, conselheiro do Cosema e diretor titular adjunto do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, explicou que ainda não há ninguém no Ibama que cuide do tema. Há prazo de implantação, março de 2017, mas existe problema interno. “Mais uma vez será uma daquelas leis obrigatórias, e a indústria vai pagar pela responsabilidade de entrega dessas informações”, algumas das quais já disponíveis em outras fontes. A indústria, afirmou, não está preparada para fazer isso e deve tentar a postergação.