ONU apresenta na Fiesp relatório sobre desenvolvimento humano que considera atividades físicas e esportivas

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano 2017, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), foi tema da reunião desta quarta-feira (29 de novembro do Departamento do Esporte da Fiesp (Code). A apresentação dos resultados foi feita por Vanessa Gomes Zanella, assistente de Ciências Sociais do Pnud. Pela primeira vez, disse, o Pnud abordou especificamente o tema das atividades físicas e esportivas. Intitulado Movimento é Vida!  Atividades Físicas e Esportivas para todas as Pessoas, o relatório inclui recomendações para os governos.

Ao abrir a reunião, Mario Eugenio Frugiuele, diretor titular do Code, ressaltou a importância do relatório e explicou que houve participação do Fiesp em sua realização. “Surgirão bons frutos desse trabalho”, disse.

Vanessa destacou que o Code esteve muito presente ao longo de 2017 na elaboração do relatório, que foi lançado no final de setembro.

O Pnud, explicou Vanessa, faz uma crítica à visão do desenvolvimento unicamente como o progresso econômico. Renda, bem-estar e saúde são considerados pelo Pnud como indicadores de desenvolvimento humano. Países desenvolvidos são os que têm pessoas com capacidade e oportunidade para ser o que querem.

Há uma relação bem estabelecida entre atividade física e saúde, sociabilidade e outras questões, mas há aspectos que não são positivas nela, como drogas ligadas ao esporte, lesões, lipofobia.

O Pnud considera no relatório atividades físicas de lazer, sem fins produtivos e não confundidas com atividades domésticas e de deslocamentos. São feitas por decisão livre e consciente, e a prática tem sentido em si mesma. Não são limitadas pela falta de tempo, recursos ou oportunidades. São um direito, não um dever das pessoas.

A desagregação do dado de atividade física mostra desigualdade no Brasil também nesse item. 75% dos Homens com mais de 5 salários mínimos de renda têm atividades físicas, ao passo que apenas 25% das mulheres com renda de até meio salário mínimo praticam.

Os principais motivos para não praticar atividades físicas são falta de tempo (38,3%), não gostar ou não querer (34,7%) e problemas de saúde (20,2%).

Outros campos abordados são as atividades físicas e esportivas (AFEs) como promotoras da saúde, não mais como prevenção e tratamento; inserção das atividades físicas no ambiente escolar e transformação das escolas em escolas ativas; no sistema nacional do esporte e financiamento, ampliação do acesso, melhor distribuição orçamentária, não mais focado no alto rendimento.

A inatividade física responde por 5% das mortes prematuras no Brasil, e 13% do custo do SUS é atribuído a ela. Identificou-se também que a pedagogia do medo não funciona. A prática de atividades físicas e esportivas motivada somente pelo medo de adoecer em geral não garante o envolvimento da pessoa no médio e longo prazo. A ideia é as políticas públicas de saúde fazerem a promoção da saúde desde a primeira idade, disse Vanessa.

Frugiuele destacou que educação, saúde e esporte integrados ajudam um país a ter cidadãos completas. A educação, defendeu, é o meio de incutir nas pessoas, na infância, o gosto pelo esporte.

Segundo o Pnud, para promover a saúde por meio de atividades físicas e esportivas é preciso pensar em iniciativas que não somente mudem o comportamento das pessoas e os ambientes de prática, mas que também mudem a estrutura e o contexto dessas práticas, incluindo as leis, as diretrizes e os orçamentos.

Reunião do Code em que foi apresentado o Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano do Brasil 2017. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Escolas ativas

Há no Brasil uma cultura escolar não voltada para o movimento, mostra a análise do Pnud. Há um reforço do dualismo mente/corpo, com a atividade física vista como instrumento, não tendo valor por si só, e a educação física é vista como componente acessório ou secundário que pouco afeta o processo educacional.

O relatório recomenda que as escolas se tornem escolas ativas, para que as crianças tenham atividades significativas e prazerosas, capazes de fazer que pratiquem atividades físicas e esportivas ao longo de toda a vida.

Para ser uma escola ativa, é preciso haver estrutura física adequada e disponível para a prática, além de recursos humanos suficientes e qualificados para promoção de atividades físicas e esportivas dentro e fora do currículo escolar. Os materiais didáticos devem ser diversificados, adequados e suficientes para atender às necessidades didáticas da escola.

A medição mostra que em 38,56% das escolas a estrutura é insuficiente. Somente 0,52% estavam em nível avançado.

O relatório identifica a necessidade de um novo Sistema Nacional do Esporte, que invista na melhora das condições para que todas as pessoas possam praticar atividades físicas e esportivas, sempre e quando essa for sua escolha. O sistema atual privilegia o esporte de rendimento.

Há uma alta concentração (R$ 52 bilhões contra R$ 6 bilhões das empresas) do investimento das famílias nas AFEs.

A ideia em relação ao Sistema Nacional do Esporte é pensar na priorização da formação esportiva (vivência, ambientação e aprendizagem).

O relatório, ressaltou Vanessa, tem alinhamento com a Agenda 2030, com seus 17 objetivos.

“Vamos discutir bastante o relatório”, disse Frugiuele. “é uma ferramenta muito importante”, na qual deveriam prestar atenção todas as pessoas interessadas no desenvolvimento brasileiro.

Clique aqui para ter acesso ao relatório do Pnud. www.movimentoevida.org

‘Olhar o desenvolvimento humano tem a ver com dar opções para as pessoas’, diz coordenadora das Nações Unidas sobre atividade física e desigualdade social

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

A oportunidade de envolvimento com atividades físicas e esportivas não é igual para todos. Um cenário que pode e deve ser superado. O assunto foi alvo de debates na reunião plenária do Comitê da Cadeia Produtiva do Desporto (Code) da Fiesp, realizado na tarde desta segunda-feira (30/01), na sede da federação. Na ocasião, foram apresentados os avanços do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional (Pnud), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O documento é publicado desde 1990 e já apresentou ao mundo indicadores como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

“Em torno de 65% das pessoas no Brasil não praticam atividade física”, explicou a coordenadora do relatório nas Nações Unidas, Andrea Bolzon.

E isso não é tudo: os homens se envolvem 40% mais com as atividades físicas e esportivas (AFEs) que as mulheres. Os jovens, por sua vez, se envolvem 50% mais que os idosos nesse ponto. “Um homem profissional liberal com curso superior tem 6 vezes mais chances que mulher trabalhadora doméstica e com nível de instrução que não supere o ensino fundamental de fazer atividade física”, afirmou Andrea. “Não podemos fechar os olhos para essas desigualdades, temos que pensar o fomento da atividade física nesse contexto”, disse.

É nessa direção que, segundo Andrea, seguem os estudos das Nações Unidas nesse campo. “Olhar o desenvolvimento humano tem a ver com dar opções para as pessoas, ir além da responsabilização do indivíduo e da pedagogia do medo”, explicou. “Será que é por aí que a gente vai ajudar nessa conscientização? Propomos uma discussão que questione esses conceitos, que ofereça oportunidades e pare de fazer com que as pessoas se sintam preguiçosas e culpadas”.

De acordo com Andrea, o fato de a maioria dos projetos de condomínios envolverem a oferta de academias é uma prova de que “esse debate tem valor”. “Até a Fiesp tem um comitê voltado para o esporte”, brincou.

Assim, é preciso “analisar o impacto da atividade física nos campos da saúde, educação e economia”. “Como estão as atividades físicas e esportivas no cenário contemporâneo?”, questionou.

Andrea: impactos da atividade física na saúde, educação e economia. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

A reflexão em torno dessas questões envolve uma série de cruzamentos de dados sobre o envolvimento da população com atividades físicas. “Precisamos pensar nas AFEs em relação às cidades, à renda, à violência, às questões de gênero e assim por diante”.

E mais: “temos que relacionar as atividades físicas com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com a priorização e a definição de conjuntos de metas segundo objetivos estratégicos”, disse.