Brasil cresce pouco porque modelo de 2005 a 2010 não existe mais

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831

Mendonça de Barros disse crer que China mantém pelo menos uma taxa de crescimento em 7% anuais e que, por isso, a demanda por alimentos vai continuar forte, o que beneficia o agronegócio brasileiro. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O crescimento da economia brasileira desacelerou porque está esgotado o modelo que deu base à forte expansão da atividade econômica entre 2005 e 2010. A análise é do economista e fundador da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros.

“O governo insiste em uma medicação para uma doença que mudou, o cenário é outro agora e nós não temos a China crescendo a 12%, não temos, e nem teremos, um crescimento acelerado da demanda interna porque o grande efeito da inclusão já passou e as famílias estão endividadas”, afirmou Mendonça de Barros nesta segunda-feira (02/06) ao participar de reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado São Paulo (Fiesp).

Segundo Mendonça de Barros, a consultoria MB Associados deve revisar para baixo sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2014. “Provavelmente o crescimento deve ficar abaixo de 1%”, disse ele no encontro que reuniu empresários e especialistas, sob a condução do presidente do Cosag, João de Almeida Sampaio Filho.

Por outro lado, o economista afirmou que está otimista com a retomada de crescimento da economia norte-americana. “Esse é o fenômeno mais importante porque vai puxar o crescimento global.”

Ele também mostrou otimismo com a demanda chinesa por alimentos, apesar de expectativas com PIB menos vigoroso, abaixo dos dígitos que a China chegou a apresentar.

“Acreditamos que a China segura os 7% [de PIB] e, sendo verdade, a demanda por alimentos vai continuar forte, o que nos beneficia.”

Ao reiterar a necessidade de revisão do modelo de crescimento do Brasil, Mendonça de Barros afirmou ainda que um dos maiores desafios para o país retomar sua rota de expansão é aumentar a taxa de investimento do PIB.

O economista explicou que “o modelo de consumo estimulou uma forte queda na poupança”. Adicionado a isso, a queda da taxa de investimento do PIB desde 2010 compromete o crescimento da economia brasileira.

“A taxa de investimento tem caído sistematicamente e quem não investe, não cresce”, alertou. No primeiro trimestre de 2014, a taxa de investimento referente ao PIB caiu para 17,7%, a mais baixa para primeiros trimestres do ano desde 2009.

Produção de soja

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831

André Pessoa, da Agroconsult: consultoria revisou para cima a estimativa de área plantada de soja. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Ao apresentar perspectivas para a produção de soja do Brasil, durante a reunião do Cosag, o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessoa, afirmou que a consultoria revisou para cima a estimativa de área plantada da oleaginosa para a safra 2014/15.

“Estávamos trabalhando com 1,2 milhão de hectares, mas subimos para 1,5 milhão de hectares para o crescimento de área plantada”, disse Pessoa. “O grande contribuinte com mais de 90% da área acrescida esse ano será, mais uma vez, a conversão de áreas de pastagem em lavoura, especialmente nas regiões leste e norte do Mato Grosso, oeste de Tocantins, sul do Pará, e sul de Tocantins.”

A Agroconsult projeta uma safra de soja de mais de 94 milhões de toneladas em 2014/2015. Pessoa reiterou, no entanto, que se houvesse uma aceleração dos investimentos em infraestrutura, para escoamento de grãos por exemplo, os produtores do setor poderiam ganhar bem além do que ganham com os avanços da produtividade da safra.

“A grande oportunidade do agronegócio, mesmo no ambiente de redução de preços internacionais, reside na logística, ou seja, na aceleração do processo de investimento em logística, o que pode dar uma contribuição para o resultado de nossos produtores muito maior que a produtividade tem dado nos últimos anos”, explicou.

Cana

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831

Plínio Nastari, da Datagro: subsídio do governo aos preços da gasolina importada desestimula a produção de cana-de-açúcar e provoca endividamento de produtores. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O presidente da consultoria Datagro, Plínio Nastari, também participou da reunião do Cosag. Ele reiterou a necessidade de mudança na política, sobretudo nos subsídios favoráveis ao preço da gasolina, para que os produtores enfrentem o que ele classificou como “a pior crise” da cana-de-açúcar.

Segundo os cálculos da Datagro, o subsídio do governo aos preços da gasolina importada chegou a 19,52% em 28 de maio. Para Nastari, trata-se de “uma política distorciva à gasolina” que desestimula a produção de cana-de-açúcar e investimentos em novas tecnologias para o setor, além de provocar um endividamento de produtores que comercializam etanol abaixo do seu preço de oportunidade.

“O endividamento só na região Centro Sul estimamos em R$66,3 bilhões na safra 2013/14, o que representou 112% do faturamento”, informou Nastari.

A Datagro estima uma moagem de mais de 616 milhões de toneladas de cana na safra 2014/15, enquanto a região Centro-Sul do país deve ser responsável pela maior parte desse volume, 560 milhões de toneladas. A volume é inferior aos 574,6 milhões de toneladas projetado anteriormente pela consultoria para a região.

Vai demorar para que investimento retorne à produção de etanol, diz Plinio Nastari

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A situação dos produtores de etanol é de dívida elevada e de investimentos paralisados em meio a um desequilíbrio causado pelo subsídio do governo à importação da gasolina. E mesmo que o preço do combustível fóssil seja corrigido, o setor deve demorar em experimentar investimentos em sua expansão por conta da cautela ante à possibilidade de novas intervenções.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831

Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, participou do painel “Biocombustíveis e Redução de Emissões na Matriz de Transporte”, no terceiro dia de L.E.T.S. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

A avaliação foi feita pelo presidente da consultoria Datagro, Plínio Nastari, no painel “Biocombustíveis e Redução de Emissões na Matriz de Transporte”, durante a Semana de Infraestrutura (L.E.T.S), evento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“O capital de risco aguarda sinal de redução da intervenção para voltar a investir. Mesmo quando o preço da gasolina for corrigido, ainda assim acreditamos que vai demorar um tempo para que retorne o investimento em expansão em moagem”, ponderou Nastari.  Ele reiterou ainda que uma “mudança de política é uma grande incógnita nesse momento”.

O presidente da Datagro confirmou as estimativas da consultoria para o ano safra 2014/15. A região centro-sul do Brasil, que responde por 90% da produção nacional, deve moer 574,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

A produção de açúcar na região deve chegar a 33,2 milhões de toneladas no período, ligeiramente superior ao previsto anteriormente pela empresa, enquanto a produção de etanol do centro-sul em 2014/15 está estimada em 23,63 bilhões de litros, sendo 11,6 bilhões de litros na forma de anidro (para mistura na gasolina) e 12,03 bilhões de litros de hidratado (usado nos carros flex fuel).

Os números de moagem de cana-de-açúcar dos últimos são significativamente inferiores aos registrados em 2003, com o início efetivo do consumo de carros flex. Na ocasião, a moagem de cana superou os 620 milhões de toneladas.

“Mas desde 2010 temos observado uma oferta de ATR (Açúcar Total Recuperável) bastante cambaleante, e uma rota bastante conturbada até 2014”, analisou Nastari.

Além de condições climáticas adversas, Nastari também creditou a queda da oferta de ATR ao aumento de impurezas vegetais na cana que chega às usinas, fruto da colheita mecanizada.

“Com a colheita mecanizada, parte da cana que está chegando às usinas tem um volume crescente de palha. Essa moagem não é a mesma moagem de cana que tínhamos antes da colheita mecanizada”, explicou.

Abaixo do preço de oportunidade

Segundo Nastari, o etanol está sendo vendido abaixo do preço de oportunidade graças à uma “política distorcida” que incentiva o consumo da gasolina. Ele garantiu que se o imposto de Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) não tivesse sido zerado em 2012 e se não houve o subsídio ao preço do combustível fóssil, a realidade do setor sucroalcooleiro seria “completamente diferente”.

“Se fossemos atualizar o valor da Cide, quando ela começou a cair no final de 2007, hoje seria de R$ 0,41 por litro e a realidade do setor seria completamente diferente”, disse. “Mas a sociedade brasileira está com essa política importando gasolina que não gera desenvolvimento econômico do país e deixando de utilizar o anidro, que acaba sendo vendido abaixo do preço de oportunidade”, criticou.

Nastari analisou que o consumo de etanol a partir da cana não é apenas uma ferramenta para controlar a importação de gasolina, mas também para superar problemas na área de eletricidade.

Em 2013, foram colocados pelo setor canavieiro ao menos 1,73 gigawatts médios no grid energético. Em 2014, a cifra pode chegar a 2,3 gigawatts médios. “Mas o potencial do setor é de 10 gigawatts. Então, em períodos de inverno, quando baixa a água do reservatório, essa seria uma solução, mas com essa política não é possível.”

Etanol e emissões de CO2

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831

Szware: “A gente precisa deixar de apenas elogiar as iniciativas e realmente internalizar na economia os benefícios que os produtos bio podem trazer”. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Segundo estimativas do consultor de emissões e tecnologia da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Alfred Szwarc, de março de 2013 a março de 2013, o Brasil reduziu em 241 milhões de toneladas as emissões de CO2 com o uso de etanol em veículos flex.

“Isso equivale a emissão de CO2 pela Áustria durante três anos e meio”, afirmou Szwarc.

Ele ponderou que para contribuir ainda mais para a redução de emissões pelo transporte, a produção de etanol “passa por uma revisão de políticas públicas que temos tido ou até a falta dessas políticas”.

“A gente precisa deixar de apenas elogiar as iniciativas e realmente internalizar na economia os benefícios que os produtos bio podem trazer”, concluiu.

Também participou do painel o presidente da Volvo Bus Latin America, Luís Carlos Pimenta, e o professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Luiz Augusto Horta Nogueira.

L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico.

O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets

Corrigir em 26% o preço da gasolina ajudaria a destravar o setor de biocombustível, diz presidente da Datagro

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Com estimativa de 80% de veículos flex na frota brasileira em 2020, a produção de cana-de-açúcar poderia chegar a 1,4 bilhão de toneladas caso houvesse políticas apropriadas para o setor. Entre elas o realismo tarifário para combustíveis líquidos em uso de transporte, industrial e comercial, afirmou nesta terça-feira (06/08) o presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, em participação no 14º Encontro de Energia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Em debate no evento, Nastari sugeriu que a primeira solução para destravar o setor de biocombustíveis deveria ser uma correção do preço da gasolina, o qual ele chamou de “realismo tarifário”.

Nastari: discussão em torno de "realismo tarifário". Foto: Everton Amaro/Fiesp

Nastari: discussão em torno de "realismo tarifário" no 14º Encontro de Energia. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Pelas contas do presidente da Datagro, o preço da gasolina deveria ser corrigido em 26% para permitir que o biocombustível possa competir no mercado doméstico.“Dá para corrigir o preço da gasolina em 26% de uma hora para outra? Infelizmente talvez não, mas esse deveria ser o objetivo a ser buscado no médio prazo, de forma gradual”, afirmou.

A presidente União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, defendeu ainda uma política que garanta maior previsibilidade dos preços de combustíveis fósseis.“Os preços de combustíveis fósseis de fato fazem muita diferença para qualquer programa de energia renovável. E nos programas de energia renovável eu preciso ter previsibilidade”, disse.

Elizabeth: é preciso otimizar os investimentos. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Elizabeth: é preciso otimizar os investimentos. feitos no passado. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Segundo Elizabeth o problema não é falta de investimento do setor na produção de biocombustíveis. Atualmente os investimentos são para otimizar os investimentos que foram feitos no passado, travados pela falta de planejamento e por um “conjunto de políticas públicas insuficientes”, avaliou.

Ela informou que, de 2006 a 2012,foram investidos US$ 4,5 bilhões em equipamentos para mecanização da colheita, enquanto  em 2012 foram  US$ 4 bilhões em renovação e expansão do canavial .

Luiz Augusto Horta Nogueira, professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais, engrossou o coro dos que pedem por planejamento.

Para desembargar a promissora produção de etanol do Brasil, ele sugeriu rever o marco tributário para o setor, já que “os tributos são decisivos na formação desse mercado”.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1540281831