Artigo: Planeta Terra S.A.

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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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*Por Fabio Gandour

Quando recebi o convite para escrever este artigo, além de me sentir honrado, me lembrei de uma situação semelhante ocorrida em 2001, quando fui convidado para fazer uma palestra na celebração dos 30 anos do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). Na época, se comemorava também o quinto aniversário da lei criada em 1996, que estendeu a proteção de patentes a produtos farmacêuticos e alimentícios. Do outro lado, a mesma lei estipulava uma certa licença compulsória que, de fato, significava a quebra de patentes para elaboração de medicamentos mais baratos em casos de “emergência pública”. Esse toma-lá-dá-cá foi objeto de grandes discussões sobre patentes de medicamentos utilizados no tratamento da AIDS durante a disputa entre os Estados Unidos e o Brasil.

Como fiz naquela época, também dessa vez conferi se os editores do Boletim de Sustentabilidade da FIESP conheciam as minhas opiniões, um tanto diferentes – mas não necessariamente divergentes – no que se refere a este tema tão em moda – a sustentabilidade. Enfim, me vi diante da chance de compartilhar ideias inovadoras sobre sustentabilidade com a FIESP. Talvez não “com a”, mas sim, “dentro da”! E percebi que não poderia perder essa oportunidade. Não vou perder a ocasião de compartilhar com os membros da mais prestigiosa associação de indústrias do País, uma visão inovadora e ousada sobre a mais importante empresa industrial do sistema solar e, talvez, de todo o universo: a empresa Planeta Terra S.A.

Supondo que um associado da FIESP decidisse comprar a Planeta Terra S.A., a primeira pergunta seria “quanto vale essa empresa?”. A resposta já foi dada por cálculos razoavelmente precisos, feitos por Gregory Laughlin, um astrofísico da UCSC (University of California – Santa Cruz):  a Terra custa cerca de 5 quadrilhões de dólares. Muito ou pouco, é uma grandeza que pode ser medida.

Outra pergunta típica seria “quais são os recursos desse tal de Planeta Terra S.A.?”. De fato, um dos maiores e melhores recursos dessa empresa são seus átomos. Tudo na Planeta Terra S.A. é feito com eles! Da camisa do chefe `a comida do operário. E esse número também já foi calculado: a Planeta Terra S.A. tem cerca de 1.33 x 1050  átomos.

Agora, no processo de due diligence para a compra da “Planeta Terra S.A.”, que tal fazer uma conta para saber quanto custa cada átomo da empresa? Para estimar esse valor, basta dividir 5.000.000.000.000.000 (quadrilhões) por 133.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. O resultado equivale a dividir o número 5 por 1.33 x 1035 e é expresso em dólares.

A essa altura os estrategistas financeiros que estão trabalhando no business case para compra do Planeta Terra S.A. chegarão a uma conclusão tão simples quanto equivocada: se cada átomo da Planeta Terra S.A. custa tão barato, podemos usar átomos à vontade porque o custo desses recursos é muito baixo.  Não há conclusão mais errada do que essa!

Uma abordagem mais realista – e por isso mesmo mais inovadora – da sustentabilidade do planeta Terra indica que, apesar do número de átomos ser muito grande, duas outras variáveis devem ser consideradas: a população que cresce a cada ano e consome cada vez mais átomos e quais tipos de átomos são mais consumidos pelos “clientes” da empresa, que também são seus habitantes. Essas considerações mostram um resultado um tanto assustador e meio irônico. É assim: se tudo continuar como foi até agora, é bem provável que os átomos que irão faltar primeiro são exatamente dois dos mais abundantes, o Oxigênio e o Hidrogênio, associados em uma molécula famosa, conhecida como H2O. A indispensável água! A falta será tão séria que a empresa Planeta Terra S.A. não conseguirá atender os seus clientes e correrá um sério risco de falir.

Em resumo: vai faltar átomos! Aliás, quem vive aí no ecossistema onde a sede da FIESP está instalada já ouviu falar disso. Portanto, antes de fechar o negócio de compra da Planeta Terra S.A., é bom fazer um plano para melhorar o aproveitamento dos átomos da empresa. Do contrário, é falência certa!

*Fabio Gandour é cientista-chefe do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil