Desemprego na indústria de São Paulo deve superar perdas de 2009, ano da crise

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

De janeiro a agosto deste ano, a indústria paulista demitiu 31,5 mil funcionários, segundo pesquisa da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp). E o ano de 2014 deve terminar com o fechamento de mais de 100 mil vagas de trabalho no setor manufatureiro de São Paulo, projeta Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) das entidades.

Paulo Francini: “Faltam três meses para completarmos o ano e nós não vemos sinais de que tenhamos alguma recuperação”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Ele classifica este ano como “melancólico” para a indústria paulista, a qual somente em agosto demitiu 15 mil funcionários, sendo 12.275 vagas fechadas pelo setor manufatureiro e 2.725 pelo segmento de açúcar e álcool.

“Faltam três meses para completarmos o ano e nós não vemos sinais de que tenhamos alguma recuperação”, afirma Francini. “Nossa previsão é de que ao completar o ano de 2014 vamos ter uma variação que vai superar o ano da crise, ou seja vai ultrapassar os 100 mil empregos [a menos]”, completa.

O diretor compara o fraco desempenho de 2014 com a baixa performance da indústria em 2009. A diferença, segundo ele, está em uma ligeira recuperação que a indústria demonstrou no segundo semestre daquele ano, “coisa que não se verifica em 2014”.

Somente em agosto, 17 dos 22 setores avaliados pela pesquisa do Depecon anotaram baixa em seu quadro de funcionários, e cinco aumentaram seu pessoal. Já no mesmo mês em 2009, apenas nove setores registraram demissões, enquanto 11 contrataram.

“Portanto, em agosto de 2009, havia certa recuperação. Por isso, vamos fechar o ano com panorama pior do que o ocorrido em 2009”, reitera.

O emprego industrial em São Paulo caiu o equivalente a 0,58% em agosto, sem ajuste sazonal, ou seja, a pior taxa para o mês desde o primeiro levantamento feito pelo departamento em 2005. Na leitura com ajuste sazonal, as 15 mil demissões equivalem a uma queda de 0,37%.

No acumulado de 12 meses, agosto deste ano versus agosto de 2013, a indústria demitiu 108 mil trabalhadores.


Constelação Negativa

Segundo Francini um conjunto de influências formam uma “constelação negativa” para o desempenho do setor produtivo de São Paulo.

“Nessa constelação certamente existe a queda expressiva da formação bruta de capital fixo. Existe também uma queda do setor automotivo motivado por questões internas e externas, leia-se a Argentina”, afirma Francini.

O diretor reitera ainda que o atual patamar da taxa de câmbio continua “agressivo” para a indústria.

“Um economista diz uma coisa e um outro economista te diz outra. Mas nós sabemos que taxa de câmbio adequada é aquela que propicia um incentivo das atividades produtivas do país”, diz Francini sem fixar um patamar.

Francini também afirma que prever o futuro cenário econômico, indispensável para predisposição de novos investimentos, “está sendo uma tarefa impossível”.

“Temos eleições, o que amplia esse não saber a respeito do futuro, já que não sabemos quem será o nosso próximo presidente”, diz. “Isso tudo enfileirado leva à situação melancólica da indústria de transformação.”


Setores e regiões

A indústria de máquinas e equipamentos continua figurando no campo das perdas do emprego. Em agosto, fábricas do segmento demitiram ao todo 3.393 funcionários, seguido pelos setores de veículos automotores, reboques e carrocerias, com o fechamento de 2.497 vagas, e de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos, com 2.244 demissões.

Na contramão, os fabricantes de produtos de minerais não metálicos, louças e cerâmica, contrataram 923 novos trabalhadores.

Considerando apenas as indústrias do interior de São Paulo, o emprego caiu 0,72%. E 28 de 36 regiões pesquisadas informaram demissões, enquanto seis disseram ter contratado e duas mantiveram-se estáveis.

O emprego na região de Matão caiu 3,18%, influenciado por perdas nos setores de máquinas e equipamentos (-4,39%) e de produtos alimentícios (-2,21%). Já em Araçatuba, a queda no mercado de trabalhou chegou a 1,99%, com baixas mais expressivas nas indústrias de produtos alimentícios (-5,90%) e de artefatos de couro e calçados (-0,35%). Araraquara também computou queda, de 1,68%, pressionada por demissões entre fabricantes de máquinas e equipamentos (-6,75%) e também de produtos alimentícios (-1,45%).

No campo das contratações, a região de Mogi das Cruzes se destacou com ganhos de 0,78%, impulsionada por contratações em empresas de produtos minerais não metálicos (8,91%) e de produtos alimentícios (0,26%).

As indústrias da região São Carlos também registraram alta, de 0,71% no emprego, puxada pelo setor de produtos de minerais não metálicos (2,49%) e por produtos têxteis (4,24%). Enquanto Jaú também computou ganhos, de 0,62%, com contratações no segmento de produtos de minerais não metálicos (1,27%) e de produtos de borracha e de material plástico (0,54%).