Seminário na Fiesp mostra que perda de água no sistema de abastecimento ainda é realidade

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Estima-se que haja uma perda efetiva de 40% por problemas na rede de distribuição de água. Mas o conceito de perdas hídricas é complexo e é preciso equilíbrio para lidar com todos os desafios que cercam o tema, afirmou Monica Porto, Secretária Adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo. O tema “perdas de água nos sistemas de distribuição como agravante à vulnerabilidade das bacias hidrográficas” abriu os debates da Semana de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp.

Para Monica Porto, as perdas no Brasil são grandes e diversas: há desde as perdas físicas até as não contabilizadas e as dificuldades a superar, como a substituição de tubulações muito antigas como as encontradas no centro de São Paulo. O problema central é reduzi-las e entender os serviços de saneamento como um programa contínuo de gestão. As perdas registradas são apenas uma das questões, não substituindo outras soluções necessárias, pontuou Porto. Segundo revelou, a Sabesp fez parceria com agência japonesa para a transferência de tecnologia, o que significará investimentos da ordem de R$ 900 milhões nos próximos dois anos.

“Não se pode perder de vista a diversidade do território, seca em várias partes do Nordeste e crise hídrica em outras áreas do Brasil”, avaliou Sérgio Ayrimoraes, superintendente de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA). Para ele, há concentração de demanda em áreas urbanas, gerando pressão sobre os recursos hídricos, fato aliado aos baixos investimentos em infraestrutura e precipitações extremas e secas. Na seca severa que assolou o semiárido do Nordeste, em 2012, 79 cidades estiveram em situação de colapso, e 220, em situação crítica.

Como possíveis soluções, Ayrimoraes afirmou que diante de menor disponibilidade de água nos reservatórios devem ser considerados: racionamento, fiscalização, restrição de uso, adaptação de captações e interligação de mananciais e sistemas de produção de água. Ao tratar do sistema Paraíba do Sul, que abastece o Rio de Janeiro, e a Bacia do São Francisco, atualmente em crise, o representante da ANA enfatizou a necessidade de gestão integrada de recursos hídricos e segurança hídrica em prol das cidades e dos ecossistemas e também para enfrentar eventos extremos e assegurar o desenvolvimento de atividades produtivas.

“São produzidas mais de 9 mil toneladas de carga orgânica tDBO/dia, sendo que 43% são coletados e tratados; 12% têm solução individual, como fossas; 18% são coletados e não tratados, e 27% não são coletados nem tratados.”  O superintendente destacou que 70% dos municípios não contam com tratamento, o que leva a buscar água em mananciais cada vez mais longe.

Como três pontos de atenção, Ayrimoraes cita os riscos climáticos e hidrológicos – previsão e regras de operações e reservatórios; uso racional da água – gestão de demanda e controle de perdas; planejamento – investimentos em infraestrutura hídrica e controle da poluição.

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Painel “Perdas de água nos sistemas de distribuição como agravante à vulnerabilidade das bacias hidrográficas” abriu os debates da Semana de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


O estudo “Perdas de Água nos Sistemas de Distribuição como Agravante à Vulnerabilidade das Bacias Hidrográficas” foi apresentado por André Oliveira, presidente do Comitê Brasileiro do Pacto Global. Trata-se de um estudo desenvolvido pelo Movimento Menos perda, mais água, para conscientizar a população e aumentar a eficiência até 2030, atendendo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa tem o apoio da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), Braskem e mais 40 organizações. A perda de 37% da água na distribuição representa R$ 8 bilhões que seguem para o ralo literalmente, ou o desperdício de 6 sistemas Cantareira, que atenderiam a 12 milhões de habitantes/ano.

“Um real investido em água poupa quatro reais na saúde pública”, alertou Oliveira. Para ilustrar esse atraso histórico, são 34 milhões de brasileiros sem acesso à agua tratada e 50% da população sem coleta de esgoto. “Os resíduos seguem para os recursos hídricos, nos rios e oceanos”, disse. São despejados na natureza, diariamente, 5 mil piscinas olímpicas de esgoto, o que guarda relação direta com os 400 mil casos de internação por conta de diarreia. “Há mais escolas com internet do que com esgotos”, sinalizou Oliveira. E, apesar de todos os esforços, esses números estarrecedores não diminuem de ano para ano.

Para o engenheiro Alceu Galvão, pesquisador do Estudo do Instituto Trata Brasil, os planos de saneamento básico e recursos hídricos não estão integrados como deveriam. O volume de perdas, em 2015, chegou a 182 milhões m3/ano em 74 municípios, dos quais 38 conseguiram reduzir perdas com rebatimento nas tarifas e no custo da oferta de serviços.

Mesmo assim, não foram atingidas as metas necessárias e, para ele, é preciso que a sociedade se conscientize e auxilie no combate às perdas e que as campanhas de esclarecimento tenham continuidade.

Na conclusão de Galvão, há uma equação composta pelos elevados índices de perdas e o potencial econômico. Ele também indicou uma das dificuldades encontradas em termos nacionais com a adoção de indicadores diferenciados: “há a necessidade de uniformizá-los, integrando as bases de dados e compatibilizar planos de bacias e recursos hídricos e saneamento”, informou, lembrando outra urgência: mensurar o uso agrícola da água na bacia, aumento da oferta de água versus a melhoria dos corpos de água.

Para ele, o quadro crítico das bacias também é um problema de toda a sociedade, colaborando com a redução de seu uso per capita. A recomendação da Organização Mundial de Saúde é a disponibilidade de 110 litros/dia para cada habitante e suas necessidades diárias, mas o índice de Santo Antonio de Posse (SP) é de 217 litros/dia, e o de Itirapina (SP), de 240 litros/dia por pessoa.