Artigo: A persistente desigualdade de gênero no mundo empresarial em São Paulo

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*Por Pedro Jaime

 A equidade entre os sexos e a autonomia da mulher figurou entre as Metas do Milênio aprovadas em 2000 pela ONU e pactuadas pelos seus 192 países membros como um dos compromissos de mudanças necessárias para garantir a sustentabilidade do planeta. Tais mudanças deveriam ser alcançadas até 2015. Todavia, uma pesquisa veiculada neste ano de 2016 revela cabalmente que a desigualdade de gênero ainda é persistente no mundo empresarial em São Paulo.

No final do mês de janeiro deste ano vieram a público os resultados de uma importante pesquisa sobre a diversidade no mundo empresarial. Trata-se do levantamento Perfil Social, Racial e de Gênero dos 200 Principais Fornecedores da Prefeitura de São Paulo, realizado pelo Instituto Ethos, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e com patrocínio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No que se refere à localização, a maioria das 200 empresas que fizeram parte da amostra se concentra na região sudeste (88%), seguida pela região sul (6%). E praticamente a totalidade das companhias situadas no sudeste possuem a sua sede localizada na capital paulista (96%). Quanto aos segmentos da atividade econômica, 60,5% das fornecedoras da prefeitura de São Paulo atuam no setor de serviços, enquanto que 32% operam na indústria e apenas 7,5 na agricultura. No que tange ao número de funcionários, 53% das empresas possuem até 1.000 empregados (sendo que metade desse grupo, 26,5%, possui até 300 empregados), 26% possui entre 1.001 e 5.000 empregados, e 21% possui mais de 5.000 empregados.

O que esta pesquisa nos revela sobre as desigualdades de gênero no mundo empresarial em São Paulo? Uma primeira informação chama à atenção. Uma parte do questionário enviado às empresas e que deveria ser preenchido pelo RH previa o mapeamento do perfil racial e de gênero do quadro de funcionários de cada organização, observando-se os distintos níveis hierárquicos. No entanto, tal parte do instrumento de coleta de dados não foi devolvida à instituição responsável pela operacionalização da enquete, o que deixa evidente a deficiência dessas empresas no monitoramento da diversidade presente no seu efetivo. Para mitigar a ausência dessa informação, foram analisados os dados de 2013 da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Tais dados mostram que as mulheres ocupam 46% dos postos funcionais, 47% dos cargos de supervisão, 43% das posições de gerência e 37% dos postos de direção nessas empresas. Ou seja, a presença delas se reduz a medida em que subimos dos cargos operacionais para as posições de maior poder, prestígio e remuneração, com apenas um leve acréscimo na passagem dos postos funcionais para os cargos de supervisão. Isso mesmo se o Censo de 2010 do IBGE revelou que as mulheres representam 52,6% da população do município de São Paulo, contra 47,4% de homens.

E vale ressaltar que se cruzarmos a variável sexo/gênero, com a dimensão raça/cor, os dados mostram que a desvantagem é ainda maior no caso das mulheres negras. Isso porque do total de 10.327 mulheres da amostra que ocupam cargos de diretoria, apenas 450 (4%) são negras. Comparando-se com a população total, as mulheres negras representam apenas 6,47% dos cargos de gerência e 1,62% das posições de direção entre as 200 principais empresas fornecedoras da prefeitura de São Paulo. Como bem aponta o próprio relatório da pesquisa, negligenciar essa realidade pode levar os programas de promoção da diversidade com foco em gênero a privilegiar mulheres brancas, ao passo que aqueles com recorte racial podem ser benéficos sobretudo para os homens negros, ficando a mulher negra prejudicada em ambas iniciativas em prol da equidade. Chama ainda a atenção na análise dos dados da Rais o fato de que as mulheres representam 54% e os homens 46% da população residente no município de São Paulo que possui ensino superior. E do total de mulheres com nível superior, 13% são negras, um percentual mais de três vezes maior do que os 4% de negras que, dentre as mulheres, ocupam postos de direção. Isto sugere, portanto, que o argumento de que a escolarização é o único fator que determina a ocupação das posições de destaque no mundo empresarial precisa ser relativizado.

E a pesquisa mostra mais. Ela revela que, a julgar pelas práticas organizacionais e pela percepção dos dirigentes das empresas componentes da amostra em relação às desigualdades de gênero, estamos longe de sinais concretos que apontem para a redução deliberada dessas desigualdades. Afirma-se isso porque, apenas 10% das companhias participantes da pesquisa aqui aludida afirmaram possuir políticas com metas e ações planejadas para incentivar e ampliar a participação de mulheres nos postos de diretoria. Esse percentual cai para 8% no que se refere aos cargos de gerência. É notável o fato de que 70,5% dessas organizações reconheceram não possuir nenhuma medida para incentivar e ou ampliar a participação das mulheres em cargos de direção, ao passo que 19,5% disseram possuir apenas ações pontuais. Esses dados correspondem respectivamente a 68,5% (ausência de medidas) e 23,5% (ações pontuais) para os cargos de gerência. Quanto a percepção dos dirigentes dessas empresas, 78% consideram que a proporção de mulheres nos cargos de diretoria das organizações que comandam está adequada; 6% chegam a afirmar que está acima do que deveria e apenas 16% acreditam estar abaixo do que seria necessário. Para os cargos de gerência esses percentuais equivalem respectivamente a 84% (proporção de mulheres adequada), 4% (acima do que deveria) e 12% (abaixo do necessário).

Em síntese, os dados da pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero dos 200 Principais Fornecedores da Prefeitura de São Paulo revelam inequivocamente que a capital paulista, principal centro econômico do país e reconhecida pela diversidade que caracteriza a sua população, ainda apresenta uma distância significativa em relação a consecução da equidade entre os sexos listada entre as metas do milênio propostas pela ONU. Segundo a apresentação da investigação feita Judith Morrison, assessora da Divisão de Gênero e Diversidade do BID, a equidade social, racial e de gênero, fundamental para um futuro mais sustentável e igualitário, pode ser construída por meio de cadeias de produção de bens e serviços mais diversas e inclusivas. Ela ressalta que a Prefeitura de São Paulo, como um grande consumidor de bens e serviços, tem um papel crucial nessa construção. E quanto ao papel a ser desempenhado pelas empresas? Creio que essa questão precisa ser enfrentada de forma mais incisiva pelas lideranças empresariais paulistas. Afinal um desenvolvimento econômico sustentável não pode prescindir da participação do setor privado.

*Pedro Jaime é Doutor em Antropologia Social pela USP e em Sociologia & Antropologia pela Universidade Lyon 2. Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Administração do Centro Universitário da FEI, onde pesquisa temas relacionados à questão racial, gênero e diversidade no mundo empresarial.