Emicida no InteligênciaPontoCom: ‘O rap é a música de São Paulo, mas São Paulo não assume o rap’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp 

Em um bate-papo descontraído no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso, o rapper Emicida foi entrevistado pelo jornalista Paulo Terron, na noite desta terça-feira (26/11), na penúltima edição do Inteligência PontoCom de 2013.

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O jornalista Paulo Terran em entrevista com o rapper Emicida, no Inteligência PontoCom. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

O paulista de 28 anos, que se consagrou como músico independente, é uma das atrações convidadas para se apresentar no sorteio da Copa do Mundo da Fifa, no próximo dia 06/12, ao lado da cantora baiana Margareth Menezes e do Olodum. “Temos que aproveitar para se mostrar, vamos falar globalmente”, disse.

“A coisa mais bonita da minha carreira é que acho que dou continuidade ao rap brasileiro”, afirmou. Ele contou que rap surgiu da necessidade de sair do lugar comum e dialogar mais com a juventude. “Eu precisava fazer as pessoas notarem que a música existe. As batalhas de MCs me fizeram alcançar um público muito grande”, afirmou ao lembrar que, antes mesmo de lançar o hit “Triunfo”, que o consagrou como músico de sucesso; as pessoas já o paravam nas ruas para tirar foto. “Eu já era conhecido como o cara do Youtube”, explicou ao lembrar a época em que ficou famoso pelas vitórias nas “rinhas”, as disputas de rimas.

“As rinhas foram revolucionárias porque São Paulo nunca tinha tido um evento de MCs. Aquilo era um encontro cultural. Era religioso: de quinta a domingo estávamos na rinha, nem só pela batalha, mas principalmente pelo exercício de fazer música, o que está em falta hoje. Não se faz música só acertando e hoje todo mundo se blinda dos erros”, apontou o músico.

Sobre sua trajetória de sucesso, Emicida contou que nunca pensou em seguir a carreira de músico, mas queria mesmo fazer quadrinhos. “Ainda quero, se alguém tiver uma vaga, pode me chamar”, brincou.

O rapper confessou que queria fazer o caminho inverso dos músicos independentes. “Eu queria vender minha música barata porque entendi que as pessoas iam ter o disco na mão para ao menos conhecer”. Música, segundo ele, é para todo mundo. “Não podia falar só com quem é do rap: tenho influências diversas e posso falar com outras pessoas”.

Por ter passado a vida inteira criticando aqueles que cuidavam do dinheiro dos outros, Emicida decidiu que também faria a “parte chata”: “ninguém quer se organizar, fazer planilhas, cuidar disso tudo. Mas eu faço isso, sempre fiz.”

Laboratório Fantasma

A necessidade dele de organizar suas vendas e finanças foi o embrião para o surgimento do Laboratório Fantasma que, segundo o próprio rapper, a definição “mais bonita” da empresa é um “coletivo de hip hop, de arte urbana”. “Eu queria me afastar da ideia de gravadora e ter nessa empresa a ideia romântica de se aproximar da música”, explicou.

Além disso, a empresa possui uma loja virtual própria. As camisetas com trechos das músicas e, principalmente, os bonés com a frase “A rua é noiz” [sic], que se tornou o slogan do artista; viraram febre entre os fãs. “A ideia das camisetas surgiu porque eu adoraria vestir uma camisa com as frases das músicas que gosto. Os bonés também. Foi um estouro. O boné foi o primeiro produto nosso a ser pirateado. Até então vendíamos por e-mail, mas aí montamos a loja virtual de verdade”, contou.

“Depois de fazer música, entendi que era muito importante  ter uma empresa para gerenciar minha música da maneira que acho que ela deve ser gerenciada”.

Com o sucesso do empreendimento, Emicida relatou que as gravadoras começaram a se mostrar interessadas. “Entendi que podíamos ser parceiros, como no caso do DVD ‘Criolo e Emicida’” – gravado em parceria com o rapper Criolo e que é uma produção 100% independente, mas distribuído pela maior gravadora do mundo, a Universal. “Este é um case de sucesso para todo mundo, pois essa parceria nos leva para lugares onde nunca estivemos. E isso é uma oportunidade, já que a independência é restrita a muitos guetos e precisamos pensar no país inteiro. A música inspira as pessoas”, disse.

“Sabemos que temos algo, mas entendemos que hip hop é maior. E queremos que ele cresça e a gente vai caminhando junto”, concluiu.

Música brasileira

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Emicida: “O rap é a música de São Paulo, mas São Paulo não assume o rap". Foto: Beto Moussalli/Fiesp

O rapper bebeu muita água da música brasileira. “Eu nunca mandava no rádio: o gosto da gente – meu e do meu irmão – era o gosto dos outros. Minha mãe passava muito tempo fora de casa e quando chegava, era ela quem mandava no rádio e ela ouvia muito MPB, principalmente Elis Regina e Legião Urbana porque ela gostava também de rock dos anos 80”.

Emicida lembra que o pai era DJ de baile e que esse foi seu contato mais próximo com a música. “Eu ia escondido para os bailes de periferia. que reuniam mais de mil pessoas na rua. Foi aí que conheci o rap. E conheci o rap em português antes do rap americano. Fiquei bravo porque achava que os ‘gringos’ estavam roubando a música brasileira”, confessou.

O músico revelou que ouvia a antiga Rádio Cidade e que gostava muito de Martinho da Vila, Almir Guineto, Lecy Brandão e Fundo de Quintal.

Sobre outros gêneros, Emicida citou o funk como boa influência. “O rap e o funk têm muito para aprender um com o outro: o rap trata da conscientização e da busca pelo conhecimento e autoestima. Já o funk tem força de comunicação muito intensa. Mas infelizmente essa ponte acontece com pouca frequência”, afirmou.

Emicida disse acreditar que o rap nacional entrou numa grande depressão quando o Sabotage morreu. “Foi muito frustrante. O sonho acabou ali. Quando lancei ‘Triunfo’, fazia muito tempo que eu não via as pessoas se identificarem com o rap.”

Em todos os seus shows, Emicida canta os clássicos do rap nacional, para mostrar para todo mundo que essas músicas são de conhecimento geral. “O rap é a música de São Paulo, mas São Paulo não assume o rap. É uma situação muito curiosa”, encerrou.

Confira na íntegra a entrevista de Paulo Terran com Emicida: