‘Governo favorece transporte individual em detrimento do coletivo’, diz professor da USP

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

O crescimento explosivo das grandes cidades, aliado aos problemas de locomoção ocasionados pelo uso excessivo do transporte individual, contribui para o aumento do nível de estresses, infartos, reações agressivas, crise de insônia e, consequentemente, a queda da expectativa de vida da população.

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Professor titular da USP, Paulo Saldiva, fala em reunião do Cosema da Fiesp

O alerta é do professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Departamento de Patologia Pulmonar, Paulo Hilário Nascimento Saldiva, ao palestrar durante a reunião mensal do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp. O evento, realizado nesta terça-feira (31/07), na sede da entidade, discutiu os desafios e as soluções para a cidade de São Paulo.

De acordo com Saldiva, as políticas públicas adotadas pelo governo favorecem o transporte individual em detrimento do coletivo, piorando significativamente a mobilidade urbana. Segundo o especialista, nos últimos dez anos a frota automotiva da cidade de São Paulo aumentou 65%, enquanto o crescimento da população ficou em 12%.

“É uma contradição discutir a redução de gases do efeito estufa e estimular a venda de veículos individuais por meio de incentivos fiscais”, criticou o professor da USP. “Para construir um corredor de ônibus, é preciso fazer uma série de estudos ambientais. Já para venda excessiva de automóveis, não existe nenhum estudo que calcule o impacto ambiental”, salientou.

O presidente do Cosema, Walter Lazzarini, observou que os investimentos no transporte coletivo ajudarão a melhorar a qualidade do ar. Como exemplo, citou a cidade de Curitiba (PR), que realizou uma série de ações ambientais que, ressaltou Lazzarini, “contribuíram para um aumento de três anos e meio da expectativa de vida dos seus habitantes”.

Uma alternativa para reduzir os problemas de mobilidade urbana, apontada pelo professor da USP, é a reocupação urbana das áreas centrais: “O centro está perdendo população enquanto você aumenta os índices habitacionais em lugares que não têm infraestrutura. Será que não é mais fácil criar uma política de recuperação do centro antigo e começar esta reocupação?”, questionou.

Indústria sustentável

No entendimento de Saldiva, o governo deveria adotar políticas de incentivos fiscais que beneficiem as empresas que desenvolvam ações de sustentabilidade. “O Brasil não premia a virtude. Se você trabalhar o mínimo, está suficiente. Se você fizer a mais, não tem beneficio nenhum. O problema não é a falta de tecnologia, mas de incentivos financeiros para empresas sustentáveis”, apontou.

No final da palestra, Paulo Saldiva agradeceu o convite da Fiesp e afirmou que a entidade é uma força importante na criação de ações que convertam em melhorias para cidade de São Paulo. “A saúde não cabe mais na saúde. E uma das forças para que você aplique o medicamento correto no paciente. No caso da cidade de São Paulo, são os empresários e a Fiesp. Ela [federação] tem voz ativa, já que participa do problema e da solução”, concluiu.