Forte entrada de importados abate previsão para setor de equipamentos de telecomunicações

Alice Assução, Agência Indusnet Fiesp

A desindustrialização no setor de equipamentos de telecomunicações está sendo motivada por dificuldades comuns a toda a indústria, como valorização cambial, juros e custos de produção elevados e logística debilitada, e outras causas internas ao setor, segundo o diretor do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Fiesp, Paulo Castelo Branco.

Entre as causas internas da deterioração do setor no país, Castelo Branco, que responde pela área de Telecomunicações na Diretoria da Fiesp, destaca a entrada da China no mercado internacional.

“A partir de 2002, as empresas chinesas chegaram ao país competindo muito agressivamente com os fornecedores de equipamentos aqui estabelecidos. Isso, somado às razões mencionadas antes, agravou a já deficiente competitividade geral da indústria”, explicou o diretor, que também é vice-presidente e diretor de telecomunicações da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica.

Segundo a Abinee, embora o faturamento tenha aumentado 21% nos primeiros seis meses de 2011 ante igual período no ano anterior, as exportações de produtos de telecomunicações recuaram 36% no primeiro semestre do ano em relação ao primeiro semestre de 2010. Já as importações expandiram 47% na comparação anual.

Em análise mais recente, no entanto, Castelo Branco informa que as três últimas pesquisas mensais indicam que 35% das empresas pesquisadas anotaram redução das vendas/encomendas em relação aos mesmos períodos de 2010.

Investimento

As encomendas de equipamentos de redes dependem do investimento das operadoras, o que, obviamente, está relacionado ao seu desempenho econômico-financeiro.

O executivo explica que, por questões conjunturais, as companhias adiam suas compras enquanto podem sem prejudicar seus compromissos com a Anatel, e deixam para última hora um grande volume de pedidos. “Isso dificulta o planejamento da indústria, que fica muitos meses sem encomendas e, de repente, é afogada com pedidos consideráveis para fornecer equipamentos e implantar redes em poucos meses. Assim, operar uma fabrica no País é muito difícil.”

“No nosso setor, o comprador é uma empresa privada. E ela não estará interessada em comprar da indústria estabelecida no país se o preço for mais alto quando comparado ao importado. Desde que tecnicamente equivalentes, ela quer o mais barato, não importa se fabricado dentro ou fora do país”, pontua Castelo Branco.

Nos últimos anos, o conjunto de operadoras de telecomunicações tem investido em cerca de R$ 12 bilhões, anualmente. O valor abrange a aquisição de ativos que não estão diretamente associados à indústria de equipamentos, no caso de  computadores, imóveis e outros investimentos administrativos.

Após o alcance das metas de universalização estabelecidas pela Anatel, no ano de 2003, esse volume de investimento tem se mantido razoavelmente estável. “Isto significa que não vem acompanhando proporcionalmente o crescimento da demanda, que é gerada por uma rede cada vez maior, capaz de atender os atuais 290 milhões de assinantes”, justifica o diretor do Deinfra/Fiesp.

Parte deste efeito é compensada pela redução de preços dos equipamentos – ou seja, pelo mesmo valor, compram mais equipamentos de rede. Mas isso só aumenta a pressão sobre os fornecedores, que são forçados a oferecer preços chineses com volumes do mercado brasileiro.

Castelo Branco esclarece, ainda, que os benefícios que poderiam dar mais competitividade à indústria de equipamentos deveriam ser concedidos ao longo da cadeia, com políticas que possam aliviar de forma eficiente o peso sobre todas as fases da produção, gerado pelas condições aqui detalhadas.

O executivo será moderador da mesa redonda “Políticas de compras, programas de incentivo à tecnologia e produção nacionais” no 3º Seminário Fiesp de Telecomunicações – O desafio da conectividade: o Brasil na era da informação, que discutirá esse tema, entre outros de grande relevância para o setor.