Cleto Baccic e o desafio de interpretar ‘O Homem de La Mancha’

Ariett Gouveia e Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Seja como Miguel de Cervantes, Alonso Quijana ou Dom Quixote de La Mancha, Cleto Baccic encara com emoção o desafio de protagonizar “O Homem de La Mancha”, segundo musical realizado pelo projeto de Teatro Musical do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP).

“É um texto que toca muito a gente, porque faz pensar no nosso crescimento, na nossa vida. Há situações com as quais você se identifica imediatamente”, diz o ator, que lembra o começo das leituras da peça. “Só de ler o texto, eu me debulhava em lágrimas. Até conseguir me distanciar para passar a atuar e não sentir.”

Motivos para se emocionar não faltam. Uma razão especial para Baccic são os companheiros de elenco. “O Guilherme Sant’Anna, que interpreta o ‘Governador’ nesse espetáculo, é uma pessoa superespecial para mim, já foi meu professor. É uma honra poder estar no palco com ele. Eu me emociono verdadeiramente nesse espetáculo em vários momentos por ter pessoas tão queridas comigo.”

Baccic: “É um texto que toca muito a gente, porque faz pensar no nosso crescimento, na nossa vida.” Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

 

Mas há um componente ainda mais especial em “O Homem de La Mancha”. Diferente da comédia “A Madrinha Embriagada”, em que ele divertia a plateia na pele do amante argentino Adolpho, o novo musical propõe reflexões ao público.

“‘A Madrinha’ era muito mais solar. Era uma diversão, gargalhada em cima de gargalhada. ‘O Homem’ é denso o tempo inteiro. E, como Quixote ou Cervantes, nada é engraçado para mim. O espetáculo tem piada, mas o meu personagem é pesado”, diz o protagonista, que já atuou em montagens brasileiras de musicais da Broadway como “Cats”, “Mamma Mia” e “South American Way”.

“A genialidade de Bispo, de Cervantes e de Miguel Falabella faz com que a gente se veja protagonista de nossas loucuras. Porque o Bispo em sua loucura também tinha seu momento de lucidez. E quem nunca”, questiona Baccic, “vai deitar no travesseiro e sofre porque o telefone não toca, por causa do chefe carrasco, do salário que não dá para fechar o orçamento e de pequenas coisas do mundo real que nos fazem querer sair e acessar nossa porta da loucura?”.

Diante do espelho

Por isso, na opinião do ator, o momento mais difícil do espetáculo é a cena dos espelhos. “É o momento do choque da realidade, onde você encara que não adianta se agarrar no travesseiro que o dia vai nascer. Tuas amarguras, alegrias, vitórias ou derrotas, vão estar ali.”

Baccic: um protagonista denso o tempo inteiro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Baccic: um protagonista denso o tempo inteiro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Outro motivo de muita emoção para o ator é a responsabilidade de interpretar o mesmo papel que já foi de um dos maiores nomes do teatro brasileiro, o ator Paulo Autran (1922-2007), protagonista da montagem que ficou em cartaz entre 1972 e 1974.

“Paulo Autran sempre foi meu grande ídolo e uma referência para mim, sempre vai ser. É uma responsabilidade gigantesca. Mas também é de um prazer imenso encenar um espetáculo tão emblemático. Espero que, onde ele esteja, aprove o que eu estou fazendo.”

Construção do personagem

Para construir um personagem tão denso, Baccic conta que se guiou pelo texto. Evitou ver outras versões da peça para não se influenciar pelas atuações de outros atores. “Sempre me guio pelo texto original – no caso, a tradução do Miguel. Acredito que quando o autor escreve, ele desenha o personagem. Claro que a gente vai descobrindo aos poucos um trejeito ou uma forma de agir. Mas me preocupo em ler o texto com cuidado e ver o que ele diz sobre o papel.”

Assim, foi durante os ensaios que o personagem foi se desenvolvendo, com a ajuda do diretor cênico, da coreógrafa e do diretor Miguel Falabella. Um tique nervoso de Cervantes, por exemplo, surgiu após um pedido de Falabella. Buscando algo sutil, o ator decidiu adotar trejeitos com os dedos da mão esquerda. Só depois descobriria que, coincidentemente, o autor espanhol realmente teve um problema nessa mão.

Projeto em Teatro Musical

Baccic também se emociona ao falar do Projeto Educacional em Teatro Musical feito em parceria com o Sesi-SP. Além dos dois musicais (“A Madrinha Embriagada” e “O Homem de La Mancha”), a iniciativa envolve também oficinas de vivência e um curso profissionalizante de três anos de duração – a primeira turma começou as aulas em março deste ano.

“É um momento mágico, em que o Teatro do Sesi-SP faz 50 anos, sempre aberto para a população, com essa grandiosidade, com esse investimento que a entidade faz para entregar cultura às pessoas”, declara Baccic, que acredita ter cumprido um dos principais objetivos do projeto: a formação de público.

“Há muitas pessoas que vieram assistir ‘A Madrinha’ que não tinham condições de pagar para assistir a uma peça de teatro. Imagine, então, um musical, que costuma ter ingressos ainda mais caros. Costumo cumprimentar as pessoas depois do espetáculo e vejo como cada apresentação é importante para elas”, conta o ator, que acredita que, por ser mais emotivo, “O Homem de La Mancha” vai tocar de forma mais forte o público.

“É muito especial ver a simplicidade nos olhos dessas pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ver um musical, o quanto elas se entregam e se apaixonam. Espero poder partilhar com elas o amor que eu sinto por esse projeto.”

Serviço

“O Homem De La Mancha”

Local: Teatro do Sesi-SP (456 lugares) – Avenida Paulista, 1313 – Bela Vista

Estreia: 13 de setembro
Temporada até 21 de dezembro
Recomendação: 10 anos
Duração: 1h45
Informações: (11) 3146-7405/7406
Entrada gratuita
Ingressos gratuitos reservados online pelo site www.sesisp.org.br/meu-sesi de 15 em 15 dias a partir do dia 25 de agosto.
Apresentações entre dias 1º e 15, publicação na internet dia 25 do mês anterior.
Apresentações entre dias 16 e 31, publicação na internet dia 10 do mesmo mês.
Serão distribuídos 50 ingressos por sessão na bilheteria, no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria.
Horário da bilheteria: quarta a sábado, das 13h às 21h; domingo, das 11h às 19h. Quarta a sexta às 21h; sábado às 17h e 21h e domingo às 19h.