Simpósio internacional na Fiesp discute sustentabilidade

Graciliano Toni e Amanda Viana, Agência Indusnet Fiesp

Na abertura do Simpósio sobre Padrões Globais de Sustentabilidade, Mario Hirose, diretor do Departamento do Meio Ambiente da Fiesp, deu as boas-vindas aos participantes em nome de Paulo Skaf, presidente da entidade, e ressaltou a liderança brasileira na agenda da sustentabilidade.

Para reforçar a noção da importância dedicada pela Fiesp ao tema, Hirose lembrou que o Departamento de Meio Ambiente da entidade tem mais de 40 anos e é anterior à criação da agência ambiental paulista, a Cetesb.

“A agenda ambiental é de suma importância para a indústria”, disse Hirose, “principalmente neste momento em que sabemos que a sustentabilidade é questão essencial para a sobrevivência do setor e sua competitividade”.

Hirose disse que a agenda ambiental faz parte do dia a dia das várias entidades do sistema Fiesp – Ciesp, Sesi-SP, Senai-SP. A sustentabilidade é tema de várias cadeiras do ensino dos serviços da indústria.

Ainda na abertura, Indranil Chakrabarti, conselheiro de desenvolvimento do DFID, do Reino Unido, órgão que tem como missão a erradicação da pobreza global, destacou o papel do setor privado para o desenvolvimento econômico e o combate à miséria. Como exemplo da atuação do DFID no Brasil, mencionou o trabalho de auxílio à mitigação de impactos sobre as pessoas da organização dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, com o fornecimento de informações sobre as melhores práticas.

Christian Robin, gerente de programas da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça, falou sobre a importância dada em seu país aos produtos sustentáveis e aos selos de comércio justo (fair trade). A secretaria, explicou, financia projetos em grandes países emergentes e promove padrões de sustentabilidade.

Robin considera que a produção sustentável se tornou elemento importante na gestão da cadeia global de suprimentos e tem peso na sobrevivência de longo prazo das empresas.

Golfinhos e desmatamento

Alan Knight, gerente geral de responsabilidade corporativa do grupo ArcelorMittal, fez a plateia rir ao contar como foi sua estreia na defesa da sustentabilidade no mundo corporativo. Na entrevista de emprego para o grupo B&Q, de produtos madeireiros, apresentou sua ideia de compromisso com a sustentabilidade usando como exemplo a questão dos golfinhos mortos em redes de pescadores de atum, o que levou à pressão dos consumidores. “Quem liga para os golfinhos?”, perguntou seu futuro chefe. Conseguiu o emprego mostrando que sim, as pessoas, os compradores, ligavam.

Knight falou sobre as dificuldades –como a participação ou não do setor privado—quando o Forest Stewardship Council (FSC) foi criado. Lembrou que havia uma guerra de relações públicas entre os setores industriais e as entidades conservacionistas, e 95% dos recursos eram gastos para outros fins que não encontrar soluções.

A fase da guerra passou, veio a colaboração entre setores, depois uma explosão no número de selos de certificação. Em sua opinião, essa disseminação confunde e desperdiça recursos, com os gerenciamentos separados. Para ilustrar o problema, mostrou a imagem de uma pessoa numa cozinha moderna. Depois a mesma imagem com o selo de certificação para cada produto mostrado. A mensagem é que a certificação não resolve o problema de ter mais de 7 bilhões de pessoas em busca de qualidade de vida.

Disse que a ArcelorMittal produz cerca de 10% do aço no mundo. A certificação das empresas de aço e mineração tende a ser processo mais rápido, graças às lições aprendidas em outros setores. “A certificação está vindo para o aço”, disse, lembrando que já há selos para o setor, como o do Steel Stewardship Forum.

Terminou sua apresentação dizendo que a agenda da sustentabilidade é uma das mais importantes. Perguntou quem ligava para os golfinhos, respondendo “nós”. E que ligava para o futuro? “Nós.”

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Primeiro painel do Simpósio sobre Padrões Globais de Sustentabilidade. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Desmatamento zero

O primeiro painel do simpósio teve a participação de Karin Kreider, diretora executiva da ONG inglesa de sustentabilidade Iseal Alliance, como moderadora. Em sua apresentação, lembrou que nos últimos cinco anos houve enorme crescimento no número de empresas que assumiram o compromisso de diminuir o desmatamento em suas cadeias de suprimentos. Deu como exemplo o grupo Bunge, forçado por seus investidores a assumir o compromisso de desmatamento zero na operação de soja e de outros produtos.

Kreider lembrou que a questão do desmatamento é crítica para a agenda climática por seu peso nas emissões de dióxido de carbono (CO2).

Nas conversas com o setor produtivo sobre desafios para padrões e certificação, a Iseal identificou demandas em relação à escalabilidade, eficiência, demonstração de impactos e interoperabilidade. Em resposta às questões levantadas, houve inovações em padrões e certificações, como mudanças na forma de auditar, novas fontes de informação e uso de tecnologia para melhorar a observação e combater fraudes.

Cássio Franco Moreira, chefe global de normas e certificação do WWF, frisou a importância de se chegar ao verdadeiro desmatamento zero no Brasil. Não adianta, disse, apenas seguir o Código Florestal [que determina a área legalmente desmatável em propriedades]. “Tem que ser desmatamento zero mesmo, em todo o Brasil”, o que inclui áreas de cerrado e outras. Lembrou que “30% a 40% das áreas de pastagens têm produtividade muito baixa”. A ocupação eficiente de tais áreas pela agricultura diminuiria a pressão sobre florestas.

Mathias Azeredo de Almeida, gerente de sustentabilidade do Grupo Marfrig, que tem operações no Brasil, Uruguai, Argentina e Estados Unidos, explicou a ação de sua empresa, depois de ter sido identificada pelo Greenpeace como fator de desmatamento da Amazônia. A partir de 2009, disse Almeida, a Marfrig foi a campo, mapeou seus fornecedores e passou a adotar uma política de restrições com cinco pontos. Dos 8.000 fornecedores, 2.000 foram bloqueados por descumprir alguma das exigências, como não atuar em áreas indígenas ou de conservação. Observou que o veto pela Marfrig não significa que os fornecedores não vendam para outros frigoríficos. Almeida defendeu a elevação do padrão de toda a cadeia da carne. Também afirmou que é preciso agir para defender o acesso da carne brasileira a mercados como o europeu – alguns países impedem a venda do produto do Brasil, mesmo os que são certificados.

O papel dos bancos na sustentabilidade foi o tema de Eduardo Lima, gerente de risco e sustentabilidade do HSBC. Ele explicou que muito mais que em suas compras, onde o banco pode fazer diferença é na concessão de crédito, considerando o risco ambiental dos projetos financiados.

Deu como exemplo de riscos ambientais uma operação que seja obrigada a fechar por ser poluente ou porque foi implantada em território indígena.

O HSBC, disse, exige certificação do FSC ou PCFC para liberação de crédito para projetos agropecuários florestais ou de óleo de palma – e isso em toda a cadeia de custódia. No caso da soja, estimula, mas não exige o certificado. E em pecuária, também apoia a certificação dos clientes, mas considera que não há volume suficiente para torná-la obrigatória.

Eric Shayer, especialista ambiental sênior do IFC, braço do Banco Mundial para o desenvolvimento, destacou o desafio representado pelo agronegócio para a proteção dos biomas. A atividade econômica avança cada vez mais para as regiões de fronteira. O agronegócio é grande e diversificado, numa cadeia com enorme número de agentes, com impacto difuso. A questão é como coordenar a cadeia.

O IFC, disse, tem padrões sociais e ambientais de desenvolvimento. E nunca financia projetos em áreas que exijam desmatamento.

Grandes empresas, como Klabin e Marfrig, as líderes, apresentam essa responsabilidade. Para as não tão sofisticadas, o IFC procura oferecer ferramentas que permitam a adoção das melhores práticas.

Vê como grande desafio para os padrões e certificações a integração mais profunda com as políticas públicas.

O simpósio teve mais uma lista extensa de painéis e expositores.

Compras sustentáveis

João Carlos Redondo, diretor da divisão de Gestão Empresarial Ambiental da Fiesp, fez a palestra “Visão dos Líderes – Compras Sustentáveis: comprando para amanhã”.

Redondo evidenciou a importância das compras sustentáveis, com parcerias entre o governo, setor privado, universidades e sociedade civil, que, de acordo com ele, propiciam aumento do conhecimento. “Quanto maior o conhecimento acumulado e aplicado, maior a mudança e a geração de valor para o indivíduo e para a empresa”, explicou.

“A gente costuma dizer em sustentabilidade que estamos muito em uma sociedade do “ter”, com um consumo exagerado muitas vezes, mas estamos buscando um consumo consciente”, comentou o palestrante.

Sobre consumo e relação de valores, Redondo afirmou que existem três grandes indutores de processos dentro da produção de consumo sustentável: as questões regulatórias, ambientais e de mercado. Para ele, a questão regulatória é um grande no processo de transformação e evolução, mas não pode impedir a inovação. As questões ambientais acontecem do ponto de vista de recursos, de tecnologia, de conservação e uso de insumos que precisam ser conciliados. “Pior do que você ter uma regulação que te penalize é você ter um cliente que não compra o seu produto ou seu serviço. Não há penalidade maior que essa para quem deseja empreender”, afirmou Redondo em relação às questões de mercado e consumo.

De acordo com Redondo, o conceito de produção mais limpa surgiu já há algum tempo, mas ecoeficiência é um conceito relativamente mais novo, com algumas exigências de certificações e qualidade de produção com respeito ao meio ambiente.

Ele explicou também que a produção afeta o consumo, por exemplo, por meio do design dos produtos e dos apelos do marketing, e o consumo afeta a produção, na medida em que as escolhas e demandas dos consumidores influenciam as decisões dos produtores.

“O consumidor pode exigir produtos que tenham características que façam mais sentido para o dia a dia dele. Então, ao mesmo tempo em que o consumidor demanda por uma tecnologia nova ou acelera o ciclo de vida de um determinado produto, tornando-o obsoleto mais rápido, ele induz os produtores a se tornarem mais competitivos”, disse.

Segundo João Carlos Redondo, em relação aos negócios, as tendências em produção e consumo sustentável têm crescido. “As operações precisam ser mais eficientes e produtivas, com menos resíduos e mais produção. Compras públicas sustentáveis, gestão sustentável na cadeia de valor e inovação para sustentabilidade são outros desafios importantes”.