Orquestra do Senai-SP completa 10 anos

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

A escola Senai Roberto Simonsen, instalada no Brás, não limita seu pioneirismo ao fato de ser a primeira unidade da instituição no país. Ela também abriga a Orquestra Filarmônica do Senai-SP (OFSSP), projeto que incentiva talentos de alunos, ex-alunos e representantes da comunidade.

Iniciado há 10 anos, o programa extracurricular foi o primeiro do gênero entre as escolas Senai de todo o Brasil e, atualmente, a orquestra é composta por 55 músicos, que realizam ensaios semanais na unidade Roberto Simonsen. Ao longo do ano, os alunos têm a chance de mostrar seu talento em diversas apresentações. Foi assim na solenidade de premiação da São Paulo Skills 2016, na última terça-feira (22/3), em São Paulo. A Orquestra Filarmônica Senai-SP e a cantora lírica Giovanna Maira, sob a regência do maestro Thomas Ferreira Martins, abriram o evento com a execução do Hino Nacional.

De acordo com o diretor da escola do Brás, João Roberto Campaner, a orquestra é um projeto importante, que contribui para a formação cidadã. “A música amplia horizontes e por meio da orquestra completamos o processo de formação realizado no Senai-SP. O projeto é uma iniciativa de Paulo Skaf, presidente da Fiesp e da entidade, que entende o papel da música como elemento transformador.”

Campaner explica que qualquer pessoa com interesse em música pode participar da orquestra, desde que haja vagas abertas. O processo seletivo é divulgado internamente, nas escolas do Senai-SP, e também por meio das redes sociais. “Os interessados fazem uma audição, que consiste na apresentação de uma peça de livre escolha, leitura e entrevista. Já vimos alunos que entraram na orquestra sem saber tocar nenhum instrumento, mas que saíram hábeis músicos”, lembra o diretor.

Para o maestro Thomaz Ferreira Martins, o objetivo da entidade não é formar uma orquestra profissional, mas incentivar um projeto de caráter educacional e cultural. “É uma atividade extracurricular, embora sob abordagem aprofundada.” Além de obras do repertório sinfônico referencial, o grupo toca música popular para criar identificação com o público. “Uma das principais funções da OFSSP é levar música sinfônica a um público que não é familiarizado com isso. É um trabalho de formação de público, no qual mesclamos obras clássicas e elementos da música popular”, explica o maestro Martins.

Para ele, não somente o público, mas os próprios alunos, são beneficiados. “Quando começam a ter contato com as grandes obras-primas, seus horizontes culturais se expandem. O aluno vai para casa e começa a estudar Villa-Lobos, Beethoven, começa a falar desses e de outros grandes compositores para seus familiares e amigos.”

No Senai-SP desde o início de 2006, o maestro Martins é o responsável pela implantação da orquestra. “Logo que cheguei à entidade iniciamos o trabalho de divulgação entre os alunos e o público externo para formar o primeiro grupo. Depois vieram a preparação das salas de aula e a organização dos ensaios, bem como a aquisição dos instrumentos e uniformes”, conta o maestro.

A estreia oficial da Orquestra Filarmônica Senai São Paulo ocorreu no dia 11 de novembro de 2006, em concerto realizado no Auditório Simon Bolívar (Memorial da América Latina). “Podemos dizer que essa data é especial, por ser a primeira apresentação oficial, mas os ensaios começaram vários meses antes. E ver que chegamos a dez anos de atividades é uma realização da qual tenho imenso orgulho. É extremamente gratificante para mim.”

A música

A música está presente na entidade paulista há muito tempo. A primeira fanfarra foi criada na Escola Senai “Roberto Simonsen”, em 1948 e desde então o projeto foi levado para todo o estado. Atualmente o Senai-SP tem 9 grupos (bandas marciais) em funcionamento, além da Orquestra. Ao longo da história houve atividades musicais em 21 cidades, com 29 grupos musicais e milhares de alunos diretamente envolvidos, além de um público ouvinte incalculável. E mesmo antes, em 1942, o Senai-SP já oferecia aos alunos possibilidades de aprimoramento do conhecimento musical, por meio de festivais de música, dança, canto, fanfarras e bandas marciais.

“Um feito dessa magnitude é algo inédito no Brasil. Ou, pelo menos, muito raro. Poucas instituições de ensino, com exceção de alguns colégios centenários de grande tradição, mantiveram por mais de seis décadas a música em seus estabelecimentos. Nem mesmo o ensino público manteve a continuidade do ensino musical nas suas escolas”, diz o maestro Martins, que vê na perenidade dos projetos um dos fatores mais importantes e imprescindíveis para o desenvolvimento da arte e do potencial dos próprios alunos.

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Apresentação da Orquestra do Senai-SP na premiação da São Paulo Skills 2016. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 


Saiba mais sobre o projeto na entrevista com o maestro da OFSSP, Thomaz Ferreira Martins:

Como classificaria a necessidade de trabalhar a música nas escolas?

É urgente, porque o Brasil amarga as últimas posições nos rankings internacionais de educação. Segundo estudo de 2012 do Instituto Paulo Montenegro (IPM) e da ONG Ação Educativa, 38% dos universitários são analfabetos funcionais. Vivemos, lamentavelmente, um caos de ignorância e violência endêmicas. Ainda assim, e justamente por isso, não podemos desistir do Brasil. A melhoria da qualidade de vida passa, necessariamente, pela melhoria do nível de educação da população, e a música pode dar enorme contribuição nesse sentido.

Como vê a existência de uma orquestra em uma escola de formação profissionalizante?

É algo único. O aluno tem à disposição uma rede de ensino com equipamentos de ponta, alta tecnologia e docentes que conhecem a indústria e preparam o aluno para atender às demandas do mercado. Por outro lado, alguns desses alunos aprendem a tocar Mozart, Prokofiev, Debussy e Brahms, participando de concertos Brasil afora. O nível de excelência do Senai-SP é uma coisa fantástica, de primeiro mundo, é um oásis em meio ao deserto cultural que, infelizmente, nos tornamos.

Quais são os projetos da orquestra para os próximos anos?

Nossa intenção é crescer sempre e há muito a ser feito. Estamos trabalhando diversos concertos para solistas, que serão dos próprios alunos da orquestra. Quero fazer ainda uma série sobre compositores brasileiros vivos e tenho imensa vontade de fazer um concurso de compositores e solistas em parceria com algum conservatório de renome. Tenho pesquisado há anos a história das atividades musicais na rede Senai-SP. O estudo está praticamente em sua fase final, quase pronto para ser publicado. Também há projeto de elaborar um método de ensino musical inspirado nas Séries Metódicas Ocupacionais (SMO). Além de, obviamente, realizar muitos concertos, fazer música de qualidade e levar o talento de nossos alunos para o mundo.

Em que momentos você sente que valeu a pena acreditar no projeto da orquestra?

Há muitos momentos especiais, mas as manifestações de gratidão são sempre belas, sempre marcantes. Lembro-me de uma ocasião em que realizamos um concerto numa empresa de coleta de lixo em Osasco, nas comemorações do Dia do Gari. Num dado momento, um dos garis que assistia ao concerto com a família me abordou após a apresentação e falou, com os olhos marejados, “Maestro, muito obrigado! Esse concerto foi o melhor presente que eu já recebi na vida!”.

Sobre o maestro Thomaz Ferreira Martins

Bacharel em Composição e Regência pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), Martins iniciou seus estudos em São Bernardo do Campo, aos oito anos de idade, tendo aulas de flauta, trompete e violão. Prosseguiu os estudos no Conservatório Dr. Carlos de Campos, de Tatuí (SP). Como regente, esteve à frente da Orquestra de Alunos da Unesp, da Big Band do Centro Educacional Unificado Três Lagos e do coral e orquestra do Projeto Guri. Atuou em projetos educacionais, escolas e organizações não-governamentais. Compôs e produziu trilhas sonoras para teatro e cinema, além de realizar trabalhos com sonoplastia, direção musical e preparação de atores. Elaborou o projeto de implantação da Orquestra Filarmônica Senai-SP em 2006, onde atua como diretor artístico, produtor, regente, arranjador e professor.