Em entrevista, Sara Parkin fala sobre liderança positiva para a sustentabilidade

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Por Raquel Corrêa Silva

Como promover o desenvolvimento sustentável mesmo quando as condições ao redor não favorecem? Como buscar uma mudança de paradigma em setores tão enraizados em velhos padrões? Quais as características e habilidades de uma liderança para a sustentabilidade? Estas foram algumas das questões aprofundadas por Sara Parkin, diretora fundadora da Forum for the Future e autora do livro “O Divergente Positivo” (título original “The Positive Deviant”), durante o 8º Congresso GIFE, que aconteceu mês passado, em São Paulo. O Cores conversou rapidamente com a palestrante britânica ao final do evento e descobriu algumas maneiras de começar uma mudança positiva no trabalho e nos negócios

Leia na íntegra a entrevista:

Num mundo dominado por um sistema político e econômico que não estimula o desenvolvimento de ações voltadas para o bem comum, como se manter positivo?

Sara Parkin – Fazer a coisa certa, contra tudo e contra todos parece impossível para muitos, mas ela já foi trilhada por muitos. Nelson Mandela, Daniel Barenboim, John Bird, Wangari Maathai e Muhammad Yunus são apenas algumas que demonstraram, de uma maneira particular, ser possível fazer a coisa certa em circunstâncias extremamente difíceis. As pessoas no geral percebem mais facilmente o que está errado, pois nosso modelo mental está programado para fazer julgamentos. Mas por quê não fazer o exercício inverso e, diante de uma situação negativa, perguntar-nos ‘o que poderia ser melhor do isso? e, ainda, ´como fazer diferente de uma forma que seja bom?´ Exercícios como esses demandam disposição e energia, por isso muitos se acomodam, mas o bom é que este padrão pode ser alterado, é apenas um hábito de pensamento. Percebemos em todo o mundo a atuação dos movimentos sociais, grande parte deles voltados para a oposição e não para a proposição. Uma maneira de atuar de forma mais produtiva é refletir: ‘quem eu tenho que reunir para juntos resolvermos essas questões?’ Os grandes desafios da humanidade só podem ser solucionados com várias pessoas e setores envolvidos atuando em conjunto. Se houver um conjunto de pessoas comprometidas com a mesma proposta, com uma abordagem positiva, é possível promover mudanças. O setor privado, por exemplo, pode trabalhar de maneira mais estratégica para encontrar soluções para os desafios da atualidade.

Qual o primeiro passo para a mudança?

Sara Parkin – A capacidade de se questionar é o primeiro passo para a mudança. A dúvida, neste caso, é positiva e muito bem-vinda. É preciso fazer muitas perguntas. Sair do estado de ´normalidade´e abrir o campo para novas possibilidades, não criticando ou condenando, mas perguntando ao outro. É preciso fazer perguntas certas e inteligentes para ajudar as pessoas a refletirem, para ajudar as pessoas a terem conhecimento e habilidades, para que elas possam mudar e também contribuir.

A senhora cita o pesquisador e professor americano John Kotter, que leciona Liderança em Harvard Business School, para explicar o processo de mudança. O que ele diz a respeito?

Sara Parkin – John Kotter é um dos grandes gurus que escreveu sobre mudanças corporativas e ele é um dos que aponta o que está acontecendo hoje neste universo. Há três necessidades principais: é preciso mudar, precisamos de mais conhecimento e precisamos fazer as coisas de forma diferente. Falei com uma das mulheres mais importantes de uma grande corporação que decidiu promover algumas mudanças na organização, porém ela se baseou nas regras e padrões existentes. Ela chegou a dizer: ‘essas regras são para sempre’. Infelizmente, ela se perdeu no gerenciamento, criou ainda mais burocracia e não obteve sucesso. John Kotler aborda a ‘Psicologia da Mudança’ nas organizações e demonstra que num processo como esse é preciso criar significado, pertencimento e experiência positiva. Infelizmente, cerca de 90% dos programas corporativos fracassam porque as empresas não conhecem ou não aplicam a ´psicologia da mudança´.

No processo de mudança, é muito importante o papel da liderança e é isso que a senhora aborda em seu livro “O Divergente Positivo”, certo?

Sara Parkin – O papel do líder é fundamental no processo de mudança. Kotter fala que a maioria das mudanças é produto de 80% da liderança e 20% do gerenciamento, porque o problema principal não é manter a mudança sob controle, mas sim impulsioná-la, com força suficiente para enfrentar as resistências e as barreiras que impedem a adaptação da empresa a uma nova realidade. O “Divergente Positivo” é o primeiro livro a unir conhecimento em sustentabilidade com habilidades e ferramentas de liderança. Ele oferece informações e aponta caminhos para a formação de líderes capazes de identificar a coisa certa a se fazer onde quer que estejam e em quaisquer circunstâncias. Nosso propósito é estimular as pessoas, profissionais, gestores a renovarem ou desenvolverem a personalidade de sua própria liderança e serem mais eficazes como divergentes positivos.

Quais os requisitos para ser um líder em sustentabilidade?

Sara Parkin – O conhecimento não é mais suficiente, é preciso uma ampliação da consciência e substituir a mentalidade egocêntrica pela multicêntrica. O problema é que a maioria dos líderes atuais não tem habilidade para lidar com os problemas complexos e interligados. Os desafios de hoje, sejam eles de ordem econômica, social ou ambiental, são questões difíceis de resolver por serem sistêmicas e terem muitas conexões. Tomemos como exemplo o sistema financeiro, que é extremamente dependente do uso de recursos naturais, mas não vemos a ligação entre eles. Os líderes foram treinados para trabalhar com esses problemas, não foram educados para solucionar os problemas. Talvez tenham uma visão holística, mas não possuem a habilidade para fazer uma análise holística e planejar uma solução holística para os problemas. Durante meus 40 anos de trabalho, identifiquei companhias que pareciam ser exemplos de gestão e governança para a sustentabilidade, mas depois de algum tempo acabaram perdendo a reputação ao longo do caminho, pois não estavam realmente comprometidas com a sustentabilidade e faltava esta habilidade de considerar todas as partes envolvidas.

Qual a saída neste caso?

Sara Parkin – Precisamos de líderes educados para a sustentabilidade. O que tenho notado é uma persistência em treinamentos para a liderança, os quais aumentaram muito. Tanto no Brasil como em outros países cresceram muito os cursos em escolas de liderança empresarial e administração. O problema é que estas instituições não estão considerando como base a sustentabilidade. Conclusão: há mais treinamentos em liderança e administração, mas não temos na mesma proporção líderes ou gestores melhores. Se pensarmos na crise global dos bancos, nas mudanças climáticas, na instabilidade e nas desigualdades sociais notamos que há uma liderança falha. E será a boa liderança que fará toda a diferença para termos uma situação melhor ou pior nas próximas décadas.

Existem habilidades específicas do líder para a sustentabilidade?

Sara Parkin – Não há um só modelo. Cada um de nós tem a sua maneira de exercer a liderança. Precisamos nos conhecer profundamente primeiro e construir nossa personalidade. Temos ainda que construir nosso conhecimento e adquirir experiência para aprender a usar ferramentas e processos para trazer outras pessoas conosco para ajudar a resolver os problemas. Liderança só é útil quando inspira as pessoas a te seguirem.

O que fazer para que tenhamos cada vez mais líderes que pratiquem a divergência positiva?

Sara Parkin – Falar não é o caso mais. Nós sabemos o que deve ser feito. Se estivéssemos fazendo, não precisaríamos estar aqui falando. A maior parte das pessoas consideradas ‘divergentes positivas’ é anônima e elas estão por aí fazendo muitas coisas relevantes para melhorar a nossa vida e o mundo em que vivemos. Acredito que a solução para os desafios que temos vivendo hoje possa vim de qualquer pessoa, em qualquer lugar. Acredito que a única opção é o maior número possível de pessoas, no mundo inteiro, assumir esse compromisso e fazer a coisa certa.