Produção de castanhas e nozes no Brasil está aquém de seu potencial, dizem especialistas

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

O Brasil deve gerar uma receita de US$ 1 bilhão com a exportação de castanhas nativas (castanha-do-Pará, castanha de caju e castanha baru) e de castanhas exóticas (pecan e macadâmia) nos próximos dez anos, e o consumo interno deverá crescer até 8%, segundo José Eduardo Camargo, diretor da divisão de Nozes e Castanhas do Departamento de Agronegócio (Deagro) da Fiesp. A produção de castanhas e nozes deve chegar a 35,850 milhões de toneladas na safra 2017/18, na previsão do International Nut and Dried Fruit Council Foundation (INC). O volume, no entanto, é considerado baixo diante do potencial que o País poderia estar desenvolvendo, na avaliação de Plínio Nastari, presidente da Datagro, consultoria agrícola independente.

“O Brasil, hoje, utiliza, para suas atividades agrícolas, 248 milhões de hectares, sendo perto de 76 milhões de hectares para plantio e 172 milhões de hectares para a pecuária. No mundo, a área utilizada para a exploração agrícola chega a 1,5 bilhão de hectares, o que faz com que o país represente perto de 16,5% com a exploração agrícola e de pecuária. Mas dentro desses 16,5% a produção de nozes e castanhas representa menos de 1%”, disse Nastari durante o VI Encontro Brasileiro e II Encontro Latino-Americano de Nozes e Castanhas, realizado nesta segunda-feira (16 de outubro) na sede da Fiesp.

O Brasil tem cinco tipos de castanha: a castanha de caju, principal tipo produzido aqui, com predominância extrativista; a castanha-do-pará, também essencialmente extrativista, a macadâmia, cultivada por plantio, a pecan e a baru, esta com plantio comercial em fase crescente. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) ratificam a preocupação de Nastri. Em 2012, o Brasil embarcou 10.400 toneladas de castanha-do-pará em casca. Em 2015, saltou para 18.400, mas nos primeiros nove meses deste ano está em 3.000 toneladas apenas, somando receita de US$ 6 milhões no período. Em relação á castanha-do-pará sem casca, o Brasil é importador, com 4.443 toneladas adquiridas.

O país também é importador da castanha de caju em casca. No produto sem casca, o Brasil chegou a exportar 25.000 toneladas em 2015, mas nos primeiros nove meses de 2017 já comprou do mercado externo 22.000 toneladas. Essa inversão se deveu a problemas com seca e doenças e fizeram com que a queda na produção de castanha puxasse o recuo na produção como um todo no Brasil, diz Nastri. Situações parecidas são vistas com a macadâmia e com as nozes. A produção de todas as nozes no mundo é estimada em 4,227 milhões de toneladas para 2017/18. O Brasil está produzindo 38.850 toneladas, ou seja, uma participação de 0,92%.

VI Encontro Brasileiro e II Encontro Latino-americano de Nozes e Castanhas reuniu na Fiesp representantes de países da América do Sul. Foto: Hélcio Nagamine/Fiesp

Oportunidade

Para elevar a produção e vendas das castanhas e nozes é preciso inovar, na avaliação de João Francisco Adrien, diretor executivo da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Inovar significa olhar como oportunidade econômica áreas hoje disponíveis para o plantio de espécies exóticas, como as castanhas. “É preciso criar projetos para conciliar a produção de espécies exóticas com nativas para finalidade econômica, mas também como forma de proteção ao meio ambiente, em linha com o Código Florestal, que trouxe o desafio para a responsabilidade da produção aliada à preservação”, conclui.

A produção de castanhas, ressalta, contribui para o uso da terra com preservação e da água e mais do que tudo representa emprego e renda. “Por isso entendemos que é uma atividade que pode agregar valor às atividades tradicionais agrícolas”, completa.

Globalmente, as nozes representam, com relação à exportação, US$ 37 bilhões, e as frutas secas, US$ 7 bilhões. Nos últimos seis anos, o consumo mundial cresceu 34%, ou 6,3% ao ano. “Não há outra indústria alimentícia que siga essa tendência de crescimento, por isso estamos seguros nesse sentido”, disse Giuseppe Calcagni, fundador do INC, que traçou um panorama latino-americano e global . O executivo atribui essa expansão ao consumo da China e da Índia. Mas vê na América do Sul o terceiro grande player do mundo em termos de consumo do produto.

“Detectamos que a América do Sul representa 20% do consumo anual de nozes, ou 84 milhões de consumidores potenciais”, diz Calcagni. Por isso, falou, é importante elevar os esforços para investir no consumo da região. Hoje, diz, o consumo per capta no mundo é de 7 quilos por ano, enquanto na América do Sul está em menos de um quilo.  O fundador do INC lembra a qualidade das nozes do Chile, onde o preço chega a US$ 12, quando a média no mundo não passa dos US$ 8.

Dentro do panorama global, José Agústin Vargas Ribera, presidente da Câmara de Exportadores del Noroeste (Cadexnor) da Bolívia, citou a crise não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina em relação à produção e venda da castanha. Contou que o norte boliviano concentra 75% da produção, com mais de 100 mil quilômetros quadrados de área produtiva, mais de 10% do território nacional. “A safra estava prevista em 10% do Produto Interno Bruto (PIB) boliviano, mas a crise de 2016 e 2017 que atingiu o país, baixou para 1% do PIB”, disse. Citou os problemas sociais geados a partir da desordem climática que afetou a produção que reduziu em quase 65% a colheita do produto em 2016/17.

Jaime Dorronsoro Tenório, gerente geral e parceiro fundador da Del Alba S.A, comentou sobre a experiência da macadâmia na Colômbia, onde é cultivada há 25 anos e onde quase 90% do produto é produzido para o mercado interno, que tem nas fábricas, supermercados grandes compradores. Mas também estão presentes no México, Panamá, Peru, Chile, Canadá e Espanha. “Temos hoje um portfólio de mais de 50 produtos derivados da macadâmia voltado ao mercado interno, mas que também vão para outros países”, diz. Agora, conta, busca o mercado europeu.

Victor Manuel Esparza Portillo, presidente do Comité Mexicano do Sistema de Produtos Nut,A.C, do México, falou sobre o México, maior produtor de castanhas do mundo, com quase 140 mil toneladas ao ano, à frente dos Estados Unidos. “Produzimos mais de 200 mil toneladas e exportamos quase 100 mil toneladas em 2015. Principal destino: Estados Unidos, que compram quase 70% da produção mexicana.

Na Argentina, a castanha pecan é o forte, com 36 mil árvores plantadas nos últimos quatro anos. “Queremos ser os maiores produtores de castanha pecan do mundo”, diz Dominicus Rohde, produtor. “Temos hoje 500 milhões de consumidores que incluem nozes em sua dieta diária, número que deverá crescer, diz Rohde. Na Argentina, conta, apenas 5% da população consome diariamente nozes, número que, segundo ele, dobrará em dois anos.

Ciyrus Zand, diretor da Ciyrus Zand Sales & Marketing, do Irã, lembrou a condição do país como produtor, cultivador e exportador de pistache, vendido ao mercado externo há 30 anos. O Irã é responsável pela produção de pistache com qualidade entre as mais altas do mundo. 

Abertura de mercado para as nozes e castanhas do Brasil em debate na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Hora de abrir mercado para as nozes e castanhas.  Para debater as potencialidades nesse campo, foi realizado, nesta segunda-feira (29/08), na sede da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), em São Paulo, o V Encontro Brasileiro e I Encontro Latino Americano de Nozes e Castanhas.

“Mais do que um encontro, aqui temos o sonho de transformar essa atividade, vista por muitos como de fundo de quintal, em negócio”, disse o vice-presidente do Ciesp e diretor de Nozes e Castanhas do Departamento de Agronegócio da Fiesp (Deagro), José Eduardo Camargo. “O potencial é muito grande”.

Também presente à abertura do evento, o presidente do Conselho Superior de Agronegócio (Cosag) da Fiesp, João de Almeida Sampaio Filho, lembrou da participação de Camargo num evento do setor, há alguns anos. “Na época, havia uma sensação de euforia em vários setores, como algodão e eucalipto, por exemplo. Todo mundo citando boa rentabilidade de produção em sua área”, disse. “Quando o Camargo levantou a mão e contou o que estava acontecendo com as nozes e castanhas, todos ficaram quietos. São muitas as oportunidades”, explicou.

Para Sampaio Filho, há espaço para novas culturas em São Paulo.  “Olhamos muito para a soja e para a laranja, mas cabe diversificação”, afirmou. “As castanhas e nozes têm tudo para emplacar no estado, pois aqui temos gente preparada para produzir e mercado consumidor”.

>> Ouça boletim sobre o encontro de nozes e castanhas

Nessa linha de oportunidades, foi apresentado um panorama dos destaques nacionais na área.

Representante da Pecanita Agroindustrial, do Rio Grande do Sul, Claiton Wallauer destacou a produção da noz pecan. “A noz pecan ainda é pouco conhecia no Brasil”, disse. “A nossa meta é trazer cada vez mais renda para o pequeno agricultor, assumir o desafio da sustentabilidade do campo”, explicou.

Segundo Wallauer, o crescimento da produção, no caso da pecan, é de 500 a 600 hectares por ano em novas áreas de cultivo.

A floresta em pé

Gerente de Desenvolvimento do Ciex do Amazonas, Daniel Benzecry destacou a produção de Castanha do Brasil ou do Pará.

“A castanha do Brasil é o principal produto ecologicamente amigável que se conhece hoje, a maior fonte de renda do interior do Amazonas”, disse.

De acordo com Benzecry, a coleta da castanha depende da floresta, da preservação das árvores. “Quem trabalha com castanha do Brasil tem interesse de manter a floresta em pé”, explicou.

Uma curiosidade: a Bolívia, dona tem 70% da produção mundial, segundo números de 2015, é uma grande compradora da castanha do Brasil. “Cerca de 90% da castanha com casca que sai do Brasil vai para a Bolívia e para o Peru, com 17 mil toneladas exportadas por ano para os dois países”, disse. “Assim temos uma ideia do nosso potencial, do quanto nós podemos processar aqui”.

As possibilidades são grandes também quando o assunto envolve macadâmia. Segundo Ricardo Picard, da Tribeca Agroindustrial e Comercial, do Rio de Janeiro, a noz representa 2% das vendas mundiais da área. “Temos experiências boas no Brasil, onde pequenas e médias empresas podem ter um bom retorno a médio prazo, com a produção podendo durar 70 anos”.

A macadâmia é originária da Austrália e o consumo do alimento no Brasil é de três gramas por pessoa por ano.

Com vocês, o baru

Diretor comercial da Flora do Cerrado, de Goiás, Peter Oliveira é um entusiasta do baru, castanha extraída do fruto de uma árvore, o baruzeiro, considerada um símbolo do cerrado brasileiro.

“O baru vem ganhando espaço, é uma joia do cerrado”, disse. “Entre os benefícios para quem consome o produto estão o fato de que ele é antioxidante, rico em cálcio, fósforo e manganês, ajudando a combater a anemia e sendo capaz de fortalecer os ossos”.

Hoje, há produção do baru nos estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins.

O exemplo do Chile

Do Centro Oeste brasileiro para o Chile, a experiência do país na produção de nozes foi apresentada pelo diretor embaixador para o Chile do International Nut and Died Fruit Council (INC), Siegfried Von Gehr.

Os chilenos conseguiram elevar as suas exportações do produto de US$ 20 milhões para US$ 300 milhões em dez anos. Hoje, o país é dono de 6% da produção mundial de nozes e de 11% das exportações.

A abertura do encontro na manhã desta segunda-feira na Fiesp: potencial grande de crescimento. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

“Vendemos para o exterior 90% da nossa produção”, explicou Gehr. “Somos um país pequeno, com 18 milhões de habitantes, não conseguimos consumidor tudo”.

As explicações para o bom desempenho na área? Uma combinação de clima e vontade do governo e da iniciativa privada. “Temos um clima mediterrâneo na zona central do Chile, muito propício à agricultura”, disse Gehr. “E incentivamos a produção de muitas formas, como a partir de uma lei que só permite a venda de alimentos saudáveis, como frutos secos e sementes, nas escolas chilenas”, afirmou. “Combatemos a obesidade infantil e valorizamos o consumo desses alimentos”.

Para o presidente do Datagro, Plínio Nastari, o Chile “deve servir de inspiração para o Brasil”. “O crescimento médio no consumo das nozes e castanhas no mundo está entre 6% e 8% ao ano”, disse. “Temos espaço para crescer”.

O Brasil exportou US$ 150 milhões em castanhas e nozes em 2015, sendo a castanha de caju o principal item nacional a ser vendido lá fora. “Não estamos falando de produtos exóticos, mas de alimentos com alto potencial de negócios”.