Carlos Heitor Cony: ‘Nelson Rodrigues foi, acima de tudo, uma grande figura humana’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

O Nelson Rodrigues cronista, dramaturgo, jornalista e apaixonado pelo Fluminense, todo mundo conhece. Ele era uma figura pública facilmente encontrada nas ruas do Rio de Janeiro, nos cafés ou no estádio do Maracanã.

“Ele se expunha com a maior naturalidade, mas não se fazia de estrela. Era um homem da zona norte do Rio. Todo mundo o conhecia nas ruas. Eram – como ele dizia – seus desconhecidos íntimos”, afirmou na noite desta quarta-feira (28/11), no Teatro do Sesi-SP, o biógrafo e curador do projeto Sesi-SP Nelson Rodrigues 100 anos, Ruy Castro, durante o debate “Nelson em pessoa: o homem como ele era”, o último de uma série de homenagens que ocorreram ao longo de 2012.

Para revelar mais sobre o lado pessoal de Nelson, quatro nomes de expressão foram convidados: o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony; o Dr. Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense e criador da chamada “Máquina tricolor”; a atriz e pesquisadora Neila Tavares, para quem ele escreveu Anti-Nelson Rodrigues; e o ex-jogador de futebol Roberto Rivellino, campeão da Copa do Mundo de 1970.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Cony: "Nelson era um gênio: pinçava o detalhe para achar a palavra exata". Foto: Mauren Ercolani

“Eu me sinto muito à vontade para falar de Nelson porque é uma pessoa em quem penso todos os dias”, revelou Cony, que destacou o fato de Nelson Rodrigues ser um homem dos detalhes. “Ele era um gênio: pinçava o detalhe para achar a palavra exata”.

“Ruy [Castro] finalmente ressuscitou Nelson Rodrigues literariamente, fazendo com que hoje ele participe do imaginário brasileiro”, afirmou o autor ao contar que, quando se conheceram, Nelson não gostava dele por ciúmes do irmão mais velho, Mario Rodrigues, com quem Cony tinha uma relação quase paternal. “Nelson tinha raiva de mim. Até que o Mario morreu, e ele passou a me chamar de ‘falso canalha’ e nos tornamos grandes amigos, embora discutíssemos muito”, contou.

Cony acredita que a obra rodrigueana não focava no panorama geral, mas sim nos detalhes. “Eu, como escritor, não acredito que haja um escritor brasileiro que se preocupe tanto assim com os detalhes”, afirmou. Para Cony, o ambiente rodrigueano era pequeno e repletos de detalhes: dentro de quatro paredes. “Ele estava se lixando para a humanidade, ele se importava com o indivíduo”, completou Ruy Castro.

“É impossível que quem escreva em jornais e na literatura hoje em dia não tenha influências  de Nelson Rodrigues, porque ele foi, acima de tudo, uma grande figura humana”, concluiu.

Bate-bola 

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Fluminense, paixão de Nelson Rodrigues. Foto: Talita Camargo

O advogado e ex-presidente do Fluminense, Dr. Francisco Horta, relembrou diversas passagens com o amigo Nelson Rodrigues e confessou que eles eram unidos pela paixão ao time tricolor. “Quando Roberto Rivellino foi contratado pelo Fluminense em 1975, Nelson teve uma participação muito efetiva, pois o empolgou a jogar no Flu”, afirmou Horta ao enfatizar que a ida do jogador ao clube só se deu graças ao apoio de Nelson. “Ele era dono das palavras.”

Rivellino lembrou que Nelson Rodrigues teve participação muito importante em sua carreira. “Eu estava prestes a encerrar minha carreira e Nelson Rodrigues mudou isso.”

“Sou muito agradecido ao Nelson Rodrigues e ao Rivellino porque eles deram ao Fluminense uma época de ouro de um time que jogava por amor: a Máquina Tricolor”, concluiu Horta.

Memórias

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Debate Nelson Rodrigues: Nelson como ele era. Foto: Mauren Ercolani

“Eu me apaixonei por Nelson aos 11 anos de idade”, revelou a atriz Neila Tavares, que resgatou a imagem do dramaturgo como figura pública na década 1970, quando ninguém mais se importava com ele. “Encontrei Nelson muito deprimido, num momento complicado. Ele estava muito abatido e, então, pedi para ele escrever uma peça para que eu atuasse. E ele escreveu”.

A atriz lembrou que Nelson escrevia para o ator. “Ele era o homem do teatro, era o homem da paixão por tudo aquilo que fazia e participava”, afirmou. Para ela, Nelson era um homem de grandes gestos de ternura, amizade, generosidade, atenção e humildade. “Ele tinha uma expressão corporal de reverência para com o outro”, lembrou ao revelar que senta muita saudade dele.

“Tenho um amor louco por ele. Não tinha mentiras em Nelson Rodrigues”, revelou a atriz. “Ele me emociona todos os dias, pois muito do que sou como artista e como pessoa, devo a Nelson Rodrigues”, concluiu.

Clima de despedida 

O debate da noite desta quarta-feira (28/11) encerrou ciclo de homenagens do Sesi-SP ao centenário de Nelson Rodrigues. “Essa é uma noite de festa e o homenageado é Nelson”, afirmou Ruy Castro, que relembrou todos os convidados que passaram pelo palco do Teatro do Sesi-SP para falar sobre Nelson, seus personagens e suas obras. “Foram noites memoráveis, em que discutimos Nelson em todos os níveis”, concluiu.

Christiane Torloni: ‘Ou você é nelsonrodrigueano, ou você não é brasileiro’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

Nelson Rodrigues não perdia a oportunidade de ridicularizar a figura do psicanalista: “Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso ainda é o psicanalista”, disse, certa vez. Sua obra, predominada pelo sarcasmo, possui conceitos identificados com a psicanálise e com o teatro grego.

Para tentar descobrir por que os psicanalistas eram loucos por ele, o palco do Teatro do Sesi São Paulo recebeu na noite desta quarta-feira (24/10) a atriz Christiane Torloni, estrela da segunda versão de O Beijo no Asfalto (1980), ao lado do jornalista Luiz Zanin Oricchio, do jornal O Estado de S. Paulo; o psicólogo Elie Cheniaux, coautor do livro Cinema e Loucura, que estuda as obras de Nelson; e Ruy Castro, biógrafo e curador do projeto do Sesi-SP Nelson Rodrigues 100 anos.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Da esquerda para a direita: o jornalista Luiz Zanin Oricchio, a atriz Christiane Torloni, o biógrafo de Nelson Rodrigues Ruy Castro e o psicólogo Elie Cheniaux. Foto: Mauren Ercolani.

Christiane Torloni, uma nelsonrodrigueana assumida, disse estar feliz de participar do debate. “É muito bom ser unido pelo Nelson. Ele é, literalmente, um anjo pornográfico”.

A atriz contou que era muito importante o fato de Nelson acompanhar as filmagens. “Pecar era uma coisa muito importante, mas com a bênção do Nelson era perfeito. Você peca com a bênção dele”, afirmou.

Segundo Torloni, o contato com o dramaturgo no início de sua carreira foi fundamental. “Nelson é como Shakespeare, pois sua métrica não é para ser natural. Ele é um homem do teatro e entende que essa naturalidade transporta as pessoas”, afirmou ao revelar que sentiu raiva quando ele morreu. “Eu nunca tive tanta raiva de um morto, porque ele morreu antes do filme ser lançado e isso foi uma grande decepção. Eu me senti traída”.

Na visão da atriz, revelar Nelson para o brasileiro é uma tarefa difícil, porque ele não tem “papas na língua” e nos faz ver e ser o que realmente somos e, assim, questionar-se: “Por que nós, brasileiros, somos assim? Quem somos nós?”.

“Nelson Rodrigues traz essa brasilidade de uma maneira tenebrosa. Queira você ou não, ou você é nelsonrodrigueano, ou você não é brasileiro”, afirmou.

Ruy Castro completou: “se Nelson escrevesse em outras línguas, ele não seria brasileiro”.

“Depois que você encontra o seu Nelson Rodrigues, você se converte. Não tem volta”, alertou Torloni.

Nelson no divã

O debate discutiu os conceitos de psicanálise usados nos textos do autor. “Nelson Rodrigues era ao mesmo tempo um moralista e um tarado”, afirmou o psicólogo Elie Cheniaux ao explicar que sua obra causa um efeito moral na plateia.

“Ele acaba satisfazendo os dois lados: o Id, com a satisfação dos desejos sexuais, agressivos e homicidas; mas também o superego, com a condenação na própria obra, que traz a punição e a morte”, explicou o psiquiatra ao lembrar que nas obras rodrigueanas sexo e morte andam sempre de mãos dadas. “Seus personagens fazem coisas terríveis e são punidos”, explicou Cheniaux.

Na visão do jornalista Luiz Zanin Oricchio, Nelson era um homem incômodo que nos joga na cara muita coisa para qual estamos mal preparados para aceitar, mas que sabemos que são importantes. “Ele falava coisas indigeríveis. Sua obra ao mesmo tempo atrai e causa repulsa”, afirmou ao ressaltar que suas obras têm valor universal no sentido de que atingem o psiquismo não só do cidadão brasileiro, mas sim de toda sociedade brasileira.

O jornalista acredita que a sensação de estranheza que as obras rodrigueanas causam nos leitores e espectadores têm a ver com a cobrança do público pelo realismo do dia a dia.

Mas, para Oricchio, Nelson trabalhava com os desejos. “Ele é uma figura associada a extremos que mexe com pulsões nossas extremamente primitivas, das quais temos pouca consciência e não queremos ter consciência”, explicou.

Ao lembrar as chamadas peças míticas rodrigueanas, afirmou que “possuem elementos que descem mais baixo no pensamento psíquico humano: é o Nelson fundamental”.

“Uma vez que você é mordido pela obra de Nelson Rodrigues, você está perdido: é para o resto da vida”, concluiu.

No Centro Cultural Fiesp: Sesi-SP abre exposição que mostra todas as fases de Nelson Rodrigues

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

Certa vez, Nelson Rodrigues (1912-1980) afirmou: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

E é exatamente assim que o público pode enxergar Nelson Rodrigues e toda sua obra na exposição Nelson Rodrigues 100 anos: pelo buraco da fechadura. A mostra, apresentada pelo Sesi-SP e com curadoria do escritor Ruy Castro, revela Nelson nas mais diversas facetas: o jornalista, o cronista, o dramaturgo, o folhetinista, o comentarista esportivo, o pai, o marido, o amigo, o irmão, o ‘anjo pornográfico’.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Entrada da Exposição: Nelson Rodrigues 100 anos. Foto: Talita Camargo.


“A exposição está maravilhosa! Muito ágil e temos a oportunidade de ver A vida como ela é… em revista em quadrinhos, ver os reclames, as roupas das pessoas, os carros e ver muita coisa do ‘velho’”, afirmou o filho do homenageado, Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho, durante a abertura da mostra, apenas para convidados, que aconteceu na noite desta quarta-feira (10/10).

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Painel com frases de Nelson Rodrigues faz parte da exposição. Foto: Talita Camargo.

“Sempre muita coisa do ‘velho’, ainda é sempre pouco, mas [a exposição] é muito bem selecionada”, ressaltou Nelsinho ao completar que o ambiente da mostra provoca boas sensações. “Eu vejo o ‘velho’, eu sinto o ‘velho’.”

A exposição permite que o visitante percorra a vida de Nelson Rodrigues por meio de suas obras, como “Vestido de Noiva”, a peça que revolucionou o teatro moderno brasileiro, apresentada em grande painel com texto e imagens que evocam o cenário da montagem original: um hospital. Além disso, é possível ouvir Nelson por meio da voz de Ruy Castro, narrando suas frases inesquecíveis. Há, também, um filme raro dirigido por João Bethencourt (1924-2006), que recupera cenas do cotidiano de Nelson em casa e na redação, em 1968, aos 56 anos.

Para o superintendente do Sesi-SP e diretor regional do Senai-SP, Walter Vicioni, a exposição este muito bem organizada. “Está maravilhosa porque retrata bem os momentos do cotidiano do Nelson Rodrigues.”

Nelsinho ressaltou a importância do trabalho feito pelo Sesi-SP com o projeto Nelson Rodrigues 100 anos, sob curadoria de Ruy Castro e o Marco Antônio Braz. “É muito importante para a cultura brasileira e fundamental para as novas gerações”, afirmou. Ao concluir, Nelsinho recomendou: “venham ver a exposição, os debates e as peças”.

Nelson mal na fita

Logo após o evento de abertura da exposição, o palco do Teatro do Sesi-SP recebeu Ruy Castro, Walter Lima Jr., Ismail Xavier e Rubens Ewald Filho para o debate “Nelson mal na fita – Por que os críticos desprezavam os seus filmes?”

Apesar de já ter lido todas as peças rodrigueanas e de ter visto todos os filmes baseados na obra do autor, Ewald Filho afirmou não se sentir preparado para comentar Nelson Rodrigues, por considerá-lo genial. “Ele era absolutamente brilhante e foi mal aproveitado pelo cinema, pois era obviamente comercial e as críticas eram sempre para os diretores, que acentuavam o grosseiro e a baixaria”.

Ewald Filho acredita que quando chegou o momento de cineastas mais importantes fazerem jus à obra de Nelson, todos os filmes já tinham sido feitos e refeitos. “O que no Brasil é muito raro, pois praticamente toda a obra dele foi filmada.”

A exposição fica aberta  até 16 de dezembro de 2012 no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso.

Serviço

Exposição Nelson Rodrigues 100 anos
Local: Térreo Inferior do Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (av. Paulista, 1.313 – Metrô Trianon-Masp)
Período expositivo: de 11 de outubro a 16 de dezembro de 2012
Datas e horários: todos os dias, das 11h às 21h, com entrada até 20 minutos antes do fechamento.
Agendamentos escolares e de grupos: de segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h às 17h, pelo telefone (11) 3146-7396
Classificação indicativa: livre


Nelson Rodrigues 100 anos: confira os destaques da exposição

Agência Indusnet Fiesp

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867Entre os destaques da exposição Nelson Rodrigues 100 anos, que acontece no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso de 11 de outubro a 16 de dezembro, há um filme raro dirigido por João Bethencourt (1924-2006). A película, descoberta pelo historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Fico, no Arquivo Nacional dos Estados Unidos, recupera cenas do cotidiano de Nelson em casa e na redação, em 1968, aos 56 anos.


Vestido de Noiva, a peça que revolucionou o teatro moderno brasileiro, é apresentada em grande painel com texto e imagens que evocam o cenário da montagem original: um hospital. Na voz do escritor Ruy Castro, Nelson continua a falar com o visitante que ouve suas frases emblemáticas ao longo da exposição.

O Nelson desportista, tricolor fanático, aparece torcendo no estádio do Maracanã, numa foto; em outra, apresenta-se ao lado dos companheiros do programa esportivo Grande Resenha Facit, primeira mesa-redonda de futebol da TV Globo, um sucesso da emissora exibido de setembro de 1966 a janeiro de 1971. Eclético, por uma única vez foi também ator, e a mostra revela Nelson em cena na peça Perdoa-me por me Traíres.

O autor, muitas vezes provocador, mostrou A Vida como Ela É... Histórias de ciúme, dilemas morais, inveja, adultério e morte foram passando, a partir de 1950, das páginas do jornal Ultima Hora para programa de rádio, filme, peça de teatro e série de televisão.

O visitante pode folhear virtualmente duas fotonovelas digitalizadas – Véu de Noiva e O Justo – em edições raras de 1960.

A exposição ainda apresenta imagens de encenações antológicas do dramaturgo: a primeira montagem de Vestido de Noiva, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, dirigida pelo exigente polonês Zbigniew Ziembinski, em 1943, e imagens de outras produções, como a tragicomédia carioca O Beijo no Asfalto, com Fernanda Montenegro, escrita a pedido da atriz, em 1960.

O ilustrador Marcelo Monteiro, seu antigo parceiro no jornal O Globo, criador dos inesquecíveis Sobrenatural de Almeida, Gravatinha e a Grã-Fina das Narinas de Cadáver, desenhou dez personagens rodriguianos especialmente em cores para a exposição.

Em aparelhos de MP3, os visitantes ouvirão os contos O Monstro e A Noiva da Morte, interpretados pelo elenco da Rádio nacional, em gravações de 1960.

Esse caminho de passagem termina em um grande painel no foyer do Teatro do Sesi São Paulo com uma versão fictícia da primeira página do jornal Última Hora, concebida por Ruy Castro e pelo artista gráfico Hélio de Almeida.


Serviço:

Exposição Nelson Rodrigues 100 anos
Local: Térreo Inferior do Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (av. Paulista, 1.313 – Metrô Trianon-Masp)
Período expositivo: de 11 de outubro a 16 de dezembro de 2012
Datas e horários: todos os dias, das 11h às 21h, com entrada até 20 minutos antes do fechamento.
Agendamentos escolares e de grupos: de segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h às 17h, pelo telefone (11) 3146-7396
Classificação indicativa: livre

Foto: Lucélia Santos, Alessandra Negrini e Vera Vianna debatem Nelson Rodrigues no Teatro do Sesi-SP

Agência Indusnet Fiesp

O Teatro do Sesi-SP recebeu na noite da quarta-feira (03/10), algumas das estrelas que encarnaram personagens marcantes das obras de Nelson Rodrigues.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Da esquerda para a direita: Lucélia Santos, Alessandra Negrini, Ruy Castro e Vera Vianna durante o debate "Nelson e suas estrelas - A coragem de ser Engraçadinha". Foto: Mauren Ercolani.

A mesa redonda contou com Alessandra Negrini, que viveu Engraçadinha na primeira fase da minisérie de TV; Lucélia Santos, três vezes como atriz de Nelson; e Vera Vianna, protagonista de Asfalto Selvagem.

Elas falaram sobre o desafio de interpretar personagens rodrigueanos na televisão e no cinema.

O debate foi mediado por Ruy Castro, biógrafo do autor e dramaturgo, e curador do projeto Nelson Rodrigues 100 Anos, iniciativa do Sesi-SP.

‘Precisaria mais 100 anos para mergulhar em toda a obra de Nelson Rodrigues’, diz Ruy Castro

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

As comemorações aos 100 anos de Nelson Rodrigues — promovidas pelo Sesi-SP, por meio de montagens teatrais, debates e leituras dramáticas de obras do dramaturgo — também tiveram lugar na 22ª Bienal Internacional do Livro, no estande das editoras do Sesi-SP e Senai-SP.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867

Marco Antonio Braz, Ruy Castro e Nelson Rodrigues Filho durante mesa redonda promovida no estande das editoras do Sesi-SP e do Senai-SP, na 22ª Bienal Internacional do Livro


Na noite desta terça-feira (14/08), três especialistas no tema — o biógrafo Ruy Castro e os diretores teatrais Marco Antônio Braz e Nelson Rodrigues Filho – propiciaram ao público  um breve mergulho na vida e obra do mais polêmico e respeitado dramaturgo brasileiro.

No próximo dia 23, Nelson completaria 100 anos de vida. Ruy Castro, autor da biografia Anjo Pornográfico,  elogiou as homenagens que estão sendo realizadas pelo centenário de escritores como Nelson Rodrigues e Jorge Amado. “Isso é de grande importância para que as pessoas tenham acesso às obras desses autores”, diz. Para o jornalista e escritor, os brasileiros têm o privilégio de serem os “detentores exclusivos” da obra rodriguiana,  mas acha que “o mundo inteiro teria o direito de conhecer Nelson Rodrigues.”

Segundo o biógrafo, Nelson era um figura popular que, carinhosamente, era abordado pelos “desconhecidos íntimos” nas ruas, os representantes do povo brasileiro, da qual ele era o grande cronista. Polêmico para os padrões sociais das décadas de 1940 a 1960, o dramaturgo, que foi o primeiro autor de telenovela no Brasil, foi o mais perseguido pela censura. Um fato curioso é que suas novelas,  rigidamente acompanhadas pela censura eram aprovadas com a condição de serem exibidas no último horário da programação. “Se houve um escritor maldito em horário nobre esse era o Nelson Rodrigues”, ironizou Castro.

O diretor teatral Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues, agradeceu as homenagens aos seu pai, com as montagens Boca de Ouro e A Falecida que estão em cartaz no Teatro do Sesi-SP. Ele enfatizou  que essas e outras iniciativas são uma oportunidade para as novas gerações conhecerem parte da extensa obra de seu pai e adintou: “Em dezembro a peça Vestido de Noiva será encenada no Teatro Municipal para relembrar a primeira montagem realizada em 1943, um grande marco para o teatro brasileiro.”

Genialidade rodriguiana

A primeira  mostra da genialidade literária de Nelson Rodrigues, segundo o seu filho, aconteceu aos 7 anos de idade. Na escola, ele tirou a nota máxima em redação ao escrever a história de um marido que surpreendia a mulher e o amante e os matavam em seguida.

Outro episódio que fez com que o diretor teatral percebesse que seu pai tinha uma visão especial sobre as coisas foi quando ele se negou a assinar um baixo-assinado promovido pelos vizinhos. O objetivo era denegrir a imagem de uma moça que, supostamente, estaria tendo um romance com seu professor de música, um homem casado e muito mais velho do que ela. Nelsinho, que na época era um adolescente, lembra  das palavras que seu pai disse aos  vizinhos: “Não vou assinar. Parem. Vocês estão matando essa menina!”.  E, de fato, a moça e o professor se suicidaram dois dias depois.

Morte,  amor e traição são temas recorrentes na obra de Nelson Rodrigues. “O velho [Nelson Rodrigues] era fissurado no lance da morte, da finitude, no aniquilamento”, afirma Nelsinho que acredita que o assassinato de seu tio também marcou profundamente o autor.

Na opinião de Marco Antônio Braz, a presença da morte na obra de Rodrigues não tem a ver com um gosto mórbido, mas a intenção do autor de retratar a realidade nua e crua e até de maneira didática. “Nelson costumava dizer que sua obra deveria ser lida por adolescentes”.

“O universo da obra de Nelson fala do amor e morte, mas entre esses dois pontos você pode colocar uma série de coisas. E há muito humor na obra de Nelson”, afirma Ruy Castro.

Inspiração

A obra de Nelson Rodrigues foi o primeiro contato de Ruy Castro com o universo das letras. “Aos 4 anos de idade, eu via minha mãe se deliciar lendo, diariamente, A vida como ela em uma coluna no jornal. Eu, que já estava me alfabetizando, me sentava no colo dela e riamos juntos sobre o texto de Nelson Rodrigues. Em geral eram sempre histórias de adultério. Na época, eu era a criança que mais entendia de adultério”.

Na adolescência, Castro passou a ler as crônicas esportivas de Nelson no jornal Primeira Hora. Acompanhou, capítulo a capitulo, a novela-folhetim Asfalto Selvagem (a história da Engraçadinha). E muitos anos depois viria descobrir a produção de Nelson para o teatro. “Mal consegui, até hoje, roçar à superfície de Nelson. Precisaria de mais 100 anos para conseguir absorver tudo”, afirmou Castro.

Já Marco Antônio Braz teve o seu primeiro contato, aos 14 anos de idade, ao ler Beijo no Asfalto. “Aquele final escandalosamente surpreendente me tocou muito e fez com que a obra dele não saísse mais da minha vida.” Braz sugeriu a plateia que se exercitassem em ler os textos de Nelson Rodrigues em voz alta para conseguir imaginar a grandeza da visão do autor.

As frases de Nelson

“O velho era um frasista genial”, define Nelson Rodrigues Filho, destacando o livro Flor de obsessão. As 1000 melhores frases, de autoria de Ruy Castro. “Mas poderia ter mais mil”, completou.

A ironia e o sarcasmo faziam parte de bordões de Rodrigues. Vejam algumas de suasfrases célebres:

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

“Toda mulher bonita é namorada lésbica de si mesma.”

“As mulheres gostam de apanhar. Mas só as normais. As neuróticas reagem.”

“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Certa vez, ao ser indagado pelo seu amigo e poeta Manuel Bandeira sobre por que ele não escrevia sobre “gente normal”, Nelson Rodrigues respondeu:

“Mas eu só escrevo sobre gente normal, como eu e você”.

Nelson Rodrigues Filho, Otávio Frias Filho e Pedro do Coutto debatem a política de Nelson Rodrigues

Danusa Etcheverria, Agência Indusnet Fiesp

Imagem relacionada a matéria - Id: 1537308867Para falar com propriedade sobre as posições políticas de Nelson Rodrigues estarão reunidos nesta quarta-feira (08/08), no Teatro do Sesi São Paulo, às 20h30, Nelson Rodrigues Filho, um declarado adversário do regime que o pai defendia; Pedro do Coutto, veterano jornalista político carioca, fraterno amigo de Nelson e testemunha de muitas passagens envolvendo o dramaturgo e os militares; e Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo.

Anticomunista feroz com forte apego ao indivíduo e profunda aversão a qualquer forma de coletivismo, Nelson Rodrigues nunca deixou que a política contaminasse seu teatro. Era autêntico em suas ideias e ações. O debate “Nelson VS. Mark – O reacionário libertário” terá entrada gratuita e é parte da programação do projeto Nelson Rodrigues 100 anos – uma homenagem do Sesi-SP ao centenário de nascimento do dramaturgo.

O projeto do Sesi-SP em comemoração ao centenário de Nelson Rodrigues inclui espetáculos, leituras dramáticas, exposições, debates e oficinas.

Os destaques do projeto, que tem curadoria de Ruy Castro, biógrafo de Nelson, e direção artística de Marco Antônio Braz, especialista na obra rodriguiana, são a abrangência da programação, a participação de personalidades (inclusive de pessoas que conviveram com ele), a abordagem de aspectos menos conhecidos do dramaturgo – como jornalista, escritor, cronista esportivo e folhetinista – e o caráter pedagógico das ações com os mais de 400 alunos de iniciação teatral dos Núcleos de Artes Cênicas do Sesi-SP.

Até novembro, nomes como Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Nathália Timberg, Christiane Torloni, Nelson Rodrigues (filho), Norma Blum, Daniel Filho e Nelson Pereira dos Santos farão parte da homenagem.

Serviço:
Nelson VS. Mark – O reacionário libertário
Data: 08 de agosto de 2012, às 20h30
Local: Teatro do Sesi São Paulo
Endereço: Av. Paulista, 1313, capital