Fernanda Montenegro e Daniel Filho relembram obras e histórias de Nelson Rodrigues

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Daniel Filho, Fernanda Montenegro e Ruy Castro debatem Nelson Rodrigues

 

Ele colocava as sensações que todo ser humano tem do pecado, do desvio moral. Ele não falava palavrão, mas levava os outros a pensarem. Só colocava o essencial no texto, era um autor difícil de interpretar. No final das contas era um trabalhador atrás do seu dinheiro.

Esse é apenas um trecho da descrição de Nelson Rodrigues (1912-1980) feita por seus amigos e colegas de trabalho Fernanda Montenegro e Daniel Filho. A atriz e o diretor estiveram no Teatro do Sesi-SP na noite de quarta-feira (15/08) para homenagear o autor em debate sobre sua vida e obra.

O debate “Nelson Na Televisão – O Maldito do Horário Nobre” faz parte do projeto Nelson Rodrigues 100 Anos Sesi-SP, e foi mediado pelo jornalista Ruy Castro, biógrafo do autor e curador do projeto.

“Essa geração de hoje está preparada para o Nelson. Essa geração é capaz de entender o Nelson, de respeitar e de botá-lo no lugar que ele merece porque ele era um autor extraordinário”, afirmou Fernanda Montenegro, que foi próxima de Nelson e também um dos principais intérpretes de sua obra.

Fernanda estrelou a controversa peça O Beijo no Asfalto em 1961, foi para o cinema com a obra A Falecida, no papel da protagonista Zulmira, em 1964 e também trabalhou nas novelas Pouco Amor Não é Amor e em Morta Sem Espelho, além de outras obras de Nelson Rodrigues.

“Ele tinha uma coisa extraordinária, ele só punha no diálogo o essencial”, relembrou a atriz ao falar sobre a peça O Beijo no Asfalto, que conta a história de Arandir, um homem que beijou outro homem no momento de sua morte, em um inusitado ato de caridade, e a repercussão dessa cena por meio de um jornalista sensacionalista e um delegado corrupto.

“Eu me lembro que no Beijo no Asfalto o Arandir chega depois de fugir de polícia. Ele está sendo chamado de homossexual no jornal. O cara criou uma situação trágica para a vida dele, estão querendo matá-lo, mas ele chega em casa e diz: ‘Água’. A mulher olha pra ele, pega um copo d’água, ele bebe e diz: ‘Água linda’. Eu nem sei fazer a cena, teria que estudar. É uma coisa incrível, ele não diz: ‘Estou cansado; nossa, foi difícil a vida lá fora’. Ele só diz: ‘água linda’. Entende? Para o intérprete, ele não pode estar se apoiando em nada que não seja essencial”, explicou a atriz.

Nelson proibido

O debate O maldito do Horário Nobre questionou a censura que Nelson Rodrigues sofreu na televisão. Apesar do sucesso de todas as três novelas que o dramaturgo escreveu para a então TV Rio, todas elas foram perseguidas pela censura.

“A gente lutava pra fazer Nelson, ele era um homem perseguido. Em A Morta Sem Espelho, na televisão, a censura disse o seguinte: ‘Nelson Rodrigues não pode às 20h’. Nós fomos para as 22h30”, contou Fernanda. “Hoje ninguém mais se espanta com coisa alguma, mas vocês não têm ideia da convulsão moral que era para a época, as pessoas deixavam o teatro.”

Daniel Filho, diretor de A Vida Como Ela É, minissérie homônima à coluna que Nelson Rodrigues escreveu durante 10 anos para o jornal Última Hora, afirmou que, acima de tudo, Nelson era um “trabalhador atrás do seu dinheirinho”.

“Ele não dizia palavrão, mas de uma forma intuitiva, às vezes subliminar, levava as pessoas a pensarem. O Nelson tinha essa qualidade. O que o Nelson colocava são sensações que todos os humanos têm do pecado, do desvio moral, essa coisa que fica na cabeça das pessoas e as pessoas têm medo de colocar pra fora”, disse Filho.

Vovô

Mario Vitor Rodrigues, neto de Nelson, também prestigiou o encontro de Fernanda Montenegro, Daniel Filho e Ruy Castro. Sobre a homenagem pelo centenário do maior dramaturgo brasileiro, ele afirmou que “o vovô merece tudo e mais um pouco”.

“O centenário do vovô é uma coisa enorme, realmente importantíssima e, para nós, tem um lado muito emotivo. E quando eu soube do eclipse lunar que iria acontecer com Ruy, Fernanda, Daniel juntos, pensei: ‘Tenho que ir’. Tem uma série de eventos homenageando o vovô e eu gostaria de estar em todos, mas é impossível.”