INICIATIVAS SUSTENTÁVEIS: DANONE – TRANSFORMANDO VIDAS

Créditos: Danone Ecosystem Fund / Philippe Cap

Por Karen Pegorari Silveira

publicado em 06 de março de 2018

O conceito de negócios de impacto desperta cada vez mais interesse do investimento social privado no Brasil, negócios esses que podem ser definidos como “empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável”.

O investimento de impacto está crescendo em popularidade e tem projeções além de US$ 400 bilhões para 2020 no mercado global.

De acordo com uma pesquisa da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), organização internacional que monitora negócios de impacto social, entre 2014 e 2016 o número de investidores com esse foco subiu de 22 para 29 no Brasil. O estudo considera que há mais de US$ 2 bilhões disponíveis para investimento nessa área na América Latina.

Este tema tem atraído diversas empresas e muitas delas desenvolveram ações com este foco, como á o caso da indústria de alimentos Danone, que em 2011 decidiu tornar comercialmente viável um modelo de negócio em que centenas de mulheres de baixa renda vendessem seus produtos de porta em porta nas favelas da capital baiana. Essas mulheres são chamadas de kiteiras.

Além de vender para a chamada base da pirâmide, a Danone tinha a ambição de colaborar para a melhoria de vida dessas vendedoras criando, portanto, um negócio de impacto. A expectativa da Danone é que esse modelo de vendas se torne, no futuro, seu terceiro maior canal de vendas, abaixo apenas das grandes varejistas nacionais e locais.

Com a venda dos kits de iogurtes — e os ganhos de 30% do valor do produto repassados pela empresa — muitas kiteiras deixaram de depender de benefícios do governo e atualmente chegam a garantir uma renda em torno de 1200 reais por mês. Há também as “madrinhas”, responsáveis por gerenciar dezenas de vendedoras em troca de uma comissão extra de 3,5% sobre o total das vendas do grupo que ela gerencia. A renda delas pode chegar a cerca de 3000 reais mensais.

Apesar dos problemas que desafiavam a viabilidade desse canal de vendas, o investimento de impacto da Danone vingou após cinco anos. Com esse exército, só em Salvador (BA), mais de 85 toneladas de iogurte passaram a ser vendidas por mês e a operação — tanto para a empresa quanto para o distribuidor envolvido — passou a fazer sentido financeiramente. O volume representa 8% do total vendido pela empresa na cidade, a maior do Nordeste. Com isso, o canal porta a porta já rivaliza localmente com o pequeno varejo.

Motivados para fazer com que o porta a porta tenha escala no resto do Brasil, a Danone firmou parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a ONG Visão Mundial e a ONG Aliança Empreendedora para que mais mulheres possam receber treinamento e iniciar o trabalho como kiteira.

Com o aporte de mais 720 mil euros do BID e o trabalho em parceria com as ONGs o número de kiteiras subiu para 2.788 em Salvador – BA, São Paulo – SP, Fortaleza – CE e Vitória de Santo Antão – PE.

Nos primeiros anos, as taxas de inadimplência chegaram a 17%; e a rotatividade das kiteiras, a até 35%. Para reduzir o problema dos maus pagadores, a distribuidora deixou de vender com boletos e passou a aceitar dinheiro ou cartão. Hoje, o índice de entrada e saída de mulheres também diminuiu e chegou a 15%, considerado baixo por especialistas no mercado de venda direta. Nas empresas de cosméticos, essa rotatividade chega a ser duas vezes maior, por exemplo

De acordo com Ligia Camargo, head de Sustentabilidade da Danone, “o plano de continuar expandindo existe, e está em pleno vapor. Temos uma equipe especializada em buscar distribuidores em todo o país e Recife e MG estão em nosso radar. No momento estamos focando em maturar nossa atual operação, com resultados acima do esperado e sendo um grande sucesso. Em 2017 atendemos 100.000 famílias, que, por meio de nossos produtos têm acesso a hábitos mais saudáveis, chegando a mais de 2000 toneladas de produtos vendidos no canal. Estamos em uma rede de 2800 kiteiras no Brasil, com um crescimento de 67% de faturamento em relação ao ano de 2016, e treinamos 650 mulheres em 2017 com informações relativas a saúde financeira, empreendedorismo, formalização, entre outros assuntos importantes para este público”, relata.

Sobre a Danone

O grupo Danone é conhecido pelos seus produtos lácteos, especialmente pelos iogurtes. Está presente em mais de 120 países, contando com mais de 92 mil colaboradores. No Brasil a empresa iniciou suas atividades em 1970, com o lançamento do primeiro iogurte com polpa de frutas.

ARTIGO: INVESTIMENTO SOCIAL CORPORATIVO COMO ESTRATÉGIA DE NEGÓCIO

publicado em 06 de março de 2018

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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Marcos Kisil*

Para Michael Porter, da Harvard Business School, a responsabilidade social, e por tabela o investimento social feito por empresas socialmente responsáveis, podem ser responsivos ou estratégicos. O que define uma e outra abordagem é justamente o nível de envolvimento da empresa com as questões que afligem o desenvolvimento harmônico e sustentável de uma sociedade.

Uma empresa responsiva procura ter alguma atuação comunitária tendo como objetivo reduzir os danos causados pelas atividades de sua cadeia de valor, ou querendo demonstrar que podem ser consideradas como empresas com licença de operar dentro de uma comunidade.

Na prática, significa que ela reage ao que a sociedade lhe cobra, minimizando, de um lado, os seus riscos socioambientais e, de outro, fazendo investimento em causas mais genéricas, de claro interesse social, mas que não interferem diretamente nas suas operações ou influenciam sua competitividade no médio e longo prazos. Suas práticas de investimento têm limitado impacto sobre a realidade, pouco contribuindo para um efetivo desenvolvimento da comunidade. E, é interessante notar, que tais apoios também não interferem diretamente no próprio sucesso do negócio, já que não tem a preocupação de alinhar-se diretamente a esse sucesso. Portanto, não é estratégica para a empresa.

Já no investimento social estratégico, a empresa transforma as atividades de sua cadeia de valor para simultaneamente beneficiar a sociedade e reforçar sua estratégia de negócio. Ao realizar o seu investimento social, ela seleciona temas que, de alguma forma, contribuem para melhorar a competitividade do seu empreendimento. São os casos das empresas de software ou biotecnologia que investem, por exemplo, em programas de educação tecnológica para comunidades porque dependem de jovens qualificados para o futuro de seus negócios.

A pragmática tese de Porter é clara: quanto maior a relação de uma temática social com a atividade de negócio da corporação, maiores serão sempre as oportunidades de uma empresa gerar recursos em benefício da sociedade. Isso explica porque o guru da competitividade passou a ser um porta-voz convicto da ideia de que, ao escolher uma pauta social, as organizações devem levar em conta o alinhamento com a sua estratégia empresarial. Tal entendimento levou progressivamente ao desejo de alinhar essa estratégia empresarial com a própria estratégia da comunidade para o seu desenvolvimento. Este entendimento hoje é conhecido como sharing values ou valores compartilhados, onde se busca a complementariedade, e maior eficiência, eficácia e efetividade no uso dos recursos.

Num contexto de recursos limitados, definir o foco do investimento social corporativo é fundamental para fazer melhor uso desses recursos e ampliar o impacto positivo das ações sociais desenvolvidas. Quando a empresa define em que área vai investir com base no exercício de um planejamento estratégico, concentra seus recursos e esforços em torno de determinada causa, evitando a pulverização de sua atuação e eventual perda de benefício que poderia advir dos recursos investidos. Por outro lado, a acolhida ou não aos pedidos de apoio, é facilitada, já que a corporação desenvolve argumentos precisos, profissionais e respeitosos, para justificar ao demandante o motivo da recusa. Mas definir o foco do investimento social corporativo não é tarefa simples, sobretudo num país como o Brasil, onde se acumulou progressivamente uma dívida social com relação a diferentes necessidades da população. Assim, definir um foco representa a necessidade de se explorar diferentes possíveis necessidades sociais e exigindo da empresa a tomada de decisões de caráter estratégico, alinhadas com seus valores e compromissos, com seu histórico de atuação social, com as expectativas de seus líderes, e com as necessidades das comunidades. Também exige uma definição do valor agregado que a empresa quer dar a sua marca e imagem, o que pede uma busca por conhecer com que diferenciais ela se apresentará junto aos diversos públicos de interesse, especialmente junto a sua cadeia de valores, e como deseja ser vista quando comparada aos seus concorrentes. Sendo assim, a definição do foco demanda um olhar para dentro da própria corporação e para o contexto no qual ela está inserida, de forma que, nesse processo, seja possível identificar a “vocação” da empresa para sua atuação social.

Como sabemos esse investimento da empresa pode se dar por meio de diferentes recursos: doação financeira, incentivo ao voluntariado dentro da empresa, disponibilização de know-how de planejamento, gestão e controle/avaliação, doação de bens e serviços. Conhecedora de suas possiblidades, cada empresa deve estabelecer seu plano de ação e assim poder divulga-lo de maneira transparente para seus grupos de interesse em que clarifica o que porque, como, onde se dispõe a agir como investidora social.

* Membro do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Fiesp no mandato 2017; Fundador do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e Professor Titular USP.